Edição nº 3
 

Gestão Moderna

Seminário: Encontro de chefes

Publicado a 24-03-2010 9:05:00

O semanário Expansão comemorou o primeiro aniversário organizando o seminário Ceo Experience, no Hotel Trópico, 
em Luanda. O debate foi animado por grandes personalidades da vida económica nacional, a começar pelo ministro de Estado e da Coordenação Económica, Manuel José Nunes Júnior. 
Os discursos inicias foram interrompidos por três vezes, devido à falta de luz.

A audiência, que enchia por completo a sala 
de conferências, brincava, ao dizer que era a altura de se apagar 
as velas. Nem de propósito, um dos oradores principais, Marcelo Gil de Souza, responsável global pela área de corporate strategy da Accenture, co-organizadora do evento, elegeu 
a capacidade de adaptação como a grande virtude 
para os líderes empresariais do século xxi.

“A estratégia, 
tal como a conhecíamos, está morta. Temos de ser flexíveis 
e saber lidar com a incerteza dos mercados.” Em entrevista 
à EXAME, o especialista ilustra a ideia com o seguinte exemplo: “No passado as empresas associavam a estratégia a um navio transatlântico. Bastava ao timoneiro traçar a rota e ir fazendo ajustamentos. Hoje, a imagem certa é a do rafting em águas turbulentas onde é necessário saber-se desviar das pedras. Temos de estar bem preparados, assumir riscos e reagir rapidamente aos acontecimentos inesperados”.

José Luís Massano, presidente do conselho de administração (PCA) do BAI, salientou, a este propósito, que “os bancos mostraram uma grande capacidade de adaptação no ano passado”, um período de turbulência no cenário macroeconómico. Porém, o banqueiro interroga-se “como gerir o risco quando as empresas angolanas 
têm uma estrutura desequilibrada e revelam deficiências profundas 
a nível da gestão e dos recursos humanos?”

O responsável considerou que o principal problema dos gestores angolanos 
não é a estratégia. “Há muitas ideias brilhantes. Falta a capacidade 
de execução.” Outro banqueiro, António Sobrinho, PCA do BESA, protagonizou as declarações mais animadas da sessão. Perguntou, por exemplo, se valeria a pena falar em desenvolvimento sustentável quando ainda somos auto-sustentáveis. Mostrou-se ainda mais indignado com as questões sobre a internacionalização. “Somos 
um país que importa quase tudo.

Aguinaldo Jaime, presidente da ANIP, não poderia estar mais 
de acordo. “A diversificação é um objectivo estratégico do Governo. O investimento privado está a crescer, sobretudo, na área alimentar, da metalomecânica e dos materiais de construção. Mas é preciso estudar por que a aposta na agricultura não avança mais rápido. 
Há dinheiro para investir. Precisamos de mais projectos”, adverte.

O ministro de Estado Manuel José Nunes Júnior também considera uma prioridade o aumento da produção agrícola, a criação de pólos de desenvolvimento económico e a criação de emprego. Recorda que é necessário reduzir a dependência do petróleo, o principal activo do país, que é um sector pouco intensivo em mão-de-obra.

O “guru”brasileiro Marcelo Gil de Souza terminou a intervenção com o seguinte conselho aos CEO (chief executive office): “Procurem as oportunidades de crescimento onde quer que elas estejam no mundo.” As boas notícias é que, no caso dos gestores angolanos, não é preciso ir muito longe. “Angola está repleta de oportunidades. Afinal ainda somos uma start up”, conclui Aguinaldo Jaime.

Do Brasil para o mundo

Marcelo Gil de Souza é licenciado em Engenharia Mecânica, 
pela Universidade Federal do Paraná (Brasil), e tem um MBA 
em Estratégia e Finanças, pela Universidade de Rochester, 
em Nova Iorque (Estados Unidos). Hoje, é líder mundial 
de corporate strategy da Accenture. Anteriormente, tinha exercido iguais funções para a América Latina.

Ele crê que 
o processo de desenvolvimento do Brasil no passado recente pode fornecer ilações importantes para Angola, pais que, no seu entender, “respira empreendedorismo”. Na sua intervenção, Marcelo salientou que o crescimento dos países emergentes, como Angola, é o facto que vai marcar a gestão no século xxi.

Alerta que 80% do consumo mundial já provêm dos países 
em desenvolvimento. E que, em 1991, apenas 21 empresas 
dos países emergentes faziam parte das 500 maiores do mundo. Hoje, são 90. Acredito que, em breve, sejam mais de metade.

Salientou cinco grandes tendências globais: 1) Há 1 bilião 
de novos consumidores no mercado; 2) Os recursos naturais 
são cada vez mais importantes; 3) Os países emergentes estão 
a investir fora das suas fronteiras; 4) As inovações estão 
a chegar mais rapidamente ao mercado global; 5) Hoje, 
a competição pelos melhores talentos é mundial.


   Fotografia: Nuno Santos
 
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