Cultura
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Domingo, 12 de Setembro, às 6 horas da tarde, deu-se o início à 2.ª Trienal de Luanda, intitulada “Geografias Emocionais, Artes e Afectos”. Trata-se de uma verdadeira “maratona cultural” de 217 eventos, durante 14 semanas (até ao dia 19 de Dezembro). A iniciativa foi organizada pela Fundação Sindika Dokolo e envolveu outros parceiros da sociedade civil, entre os quais a revista EXAME
A proximidade dos espaços, localizados no coração da cidade, é um dos pontos fortes
Nas quatro exposições que decorreram em simultâneo durante o dia da inauguração foram expostas obras fotográficas de inegável qualidade de artistas africanos, caso do camaronês Samuel Fosso ou do angolano Kiluangi (um autor cujas obras já se tornaram uma espécie de “imagem de marca” da Fundação). Para quem faltou à inauguração, nada está perdido. As exposições vão permanecer nos mesmos locais até ao dia 25 de Dezembro. Essa é, aliás, uma das apostas da Trienal: oferecer sete exposições de artes visuais, abertas gratuitamente, durante 14 dias.
Arte, fotografia, música, dança, teatro: a Trienal é uma montra para os artistas angolanos
“Quando uma exposição termina, o espaço é alterado em apenas 48 horas e 10% a 20% do material transitam para a mostra seguinte. É uma forma de transmitir ao público a velocidade e a versatilidade que caracterizam a cidade de Luanda”, justifica Fernando Alvim.
Os cortes começaram na própria equipa, que hoje conta apenas com dez quadros e oito colaboradores (na 1.ª Trienal eram 32 pessoas, das quais 20 eram do quadro). Houve também a preocupação de formar equipas pluridisciplinares. “As pessoas que constroem os espaços são as mesmas que montam e desmontam a exposição e zelam para que fique tudo limpo”, diz. Outra táctica que representou uma grande poupança foi a compra do equipamento sonoro. “Concluímos que ficava muito mais barato do que alugar.” Por fim, apostou-se na realização de eventos com parceiros, caso da Alliance Française, o Goethe Institute, a Cooperação Espanhola ou a Secretaria da Cultura do estado da Baía.
Do lado das receitas, os patrocinadores também foram mais generosos. “Fechámos o núcleo de mecenas em apenas seis meses. Alguns deles contribuíram com serviços em vez de dinheiro. A TAAG, por exemplo, ofereceu 50% de desconto nas viagens dos artistas internacionais. O governo provincial assegurou o transporte e as visitas escolares, que são muito dispendiosas”, exemplifica.
Mas a grande diferença face ao orçamento inicial, segundo Fernando Alvim, foi o facto de a Trienal estar a usar três espaços que já tinham sido objecto de beneficiações por parte da Fundação Sindika Dokolo e de o quarto espaço (Platinium) ter sido cedido gratuitamente. “Na 1.ª Trienal reabilitámos sete espaços. Desta vez conseguimos fazer praticamente os mesmos eventos em apenas quatro espaços”, diz. O grande esforço financeiro foi a reabilitação do Teatro Nacional, o palco mais nobre da cidade, onde vão decorrer as iniciativas do núcleo das artes cénicas, em sete (que, como já se vê, é o número talismã da Trienal) disciplinas: conferências,
Criaram-se estratégias criativas de redução de custos de modo a passar o orçamento para metade
Marita Silva, directora da Trienal e arquitecta de profissão, explica em que consistiram as alterações. O palco principal passou a ter paredes amovíveis em preto que proporcionam melhor acústica e maior flexibilidade de manuseamento. O espaço dos bastidores foi totalmente remodelado, assim como os camarins e as casas de banho (só havia uma a funcionar). As paredes foram pintadas em tons de cinza, “uma cor neutra, que permite aos espectadores focalizarem-se no que está a acontecer no palco”, diz Marita Silva. Também se reabilitaram as cadeiras, mantendo a traça original, assim como os 87 camarotes. Em consequência, a sala passou a ter uma capacidade para 500 pessoas. Para além da pintura, uma das transformações mais visíveis é o piso, que antes era em cimento e agora passou a ser em madeira. A equipa da Trienal também mudou totalmente a rede eléctrica e os sistemas de iluminação, ar condicionado, som e segurança.
Em, suma, tratou-se de uma intervenção radical, avaliada em 300 mil dólares (o orçamento inicial era de 900 mil dólares) e subsidiada pelas empresas Unitel, Cuca e Gefi. “Este foi o nosso projecto mais exigente. Foi iniciado em Abril e só terminou agora. Procurámos devolver a vida e a dignidade ao Teatro Nacional, um edifício histórico classificado como património arquitectónico e cultural da cidade de Luanda”, diz Marita Silva.
Marita Silva, Francisca Espírito Santo (governadora de Luanda), Fernando Alvim e Rosa Martins da Cruz (ministra da Cultura)
“Para além da reabilitação procurámos também mudar os hábitos. No passado chegámos a ver pessoas a dormir e a comer dentro do Teatro. Travámos o barulho das obras durante os ensaios. Devolver dignidade ao público também implica a alteração desses comportamentos, que incluem, por exemplo, o atraso para o início dos espectáculos. Uma das marcas da Trienal tem sido a pontualidade”, reforça.
Outra das marcas da Trienal são os objectivos ambiciosos. A organização assume que pretende ter 400 mil visitantes — dos quais 70 mil são estudantes — e 5 milhões de page views na internet.
Recorde-se que na 1,ª Trienal estiveram apenas 200 mil pessoas, dos quais 30 mil eram estudantes. Para cumprir essa meta da duplicação do número de visitantes, a organização está a apostar no marketing. Para já publicou sete edições da revista Uanga (oferecidas com o jornal semanal O País durante as exposições), a última das quais inclui a programação completa da 2.ª Trienal.
Teatro Nacional:
a remodelação do palco nobre da cidade custou 300
mil dólares
Paralelamente, as ruas de Luanda vão ter outdoors promocionais e tapumes de lona alusivos à iniciativa que cobrirão as grandes obras em curso na cidade. Ou seja, vai ser impossível não reparar nesta verdadeira “revolução cultural” que marcará Luanda até ao final do ano.
Para 2011 fica a promessa: grande parte do material da 2.ª Trienal será exposto nas cidades do Huambo, Lubango, Benguela e Namibe. Fernando Alvim também já garantiu que a sua equipa irá cuidar da programação cultural do Teatro Nacional, mesmo depois de a Trienal terminar. Boas notícias, portanto, para os amantes da arte e cultura.
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