Edição nº 9
 

Demografia

País ao raios X

Publicado a 27-10-2010 17:50:00

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Trinta e sete por cento da população angolana vive abaixo da linha de pobreza como atesta o primeiro Inquérito Integrado da População (IBEP), apresentado recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e que contou com apoio financeiro da Unicef e do Banco Mundial. O levantamento do IBEP, realizado de Maio de 2008 a Junho de 2009, em todo o território nacional, prova que é no meio rural que existem mais pobres (o índice de pobreza é de 58,3%, enquanto o do meio urbano é de apenas 19%), o que ajuda a explicar porque é que tantas pessoas fugiram do campo para a cidade.

De uma amostra de 12 200 agregados familiares, num universo populacional estimado entre 16 milhões e 18 milhões de angolanos (o INE ainda não divulgou dados oficiais sobre o assunto), os lares liderados pelos homens são os menos pobres, embora só 14% dos “chefes de família” tenham um nível de formação superior ao do ensino secundário. Ao olharmos para as principais fontes de receitas, as estatísticas dizem que 60% da população vive do salário mensal. No entanto, os lares comandados pelas mulheres são os que têm maiores rendimentos fora do salário (27%), o que denota a veia empreendedora da mulher angolana

Os lares comandados pelas mulheres são os que auferem maiores receitas não laborais 
e rendimentos por conta própria
A receita média mensal por pessoa está em 9 mil kwanzas (um pouco menos de 100 dólares ao câmbio actual). Mais sorte têm os residentes das zonas urbanas, com uma receita de 11 mil kwanzas (122 dólares) mês por pessoa, enquanto os tranbalhadores rurais se ficam pelos 6 mil kwanzas (66 dólares). O estudo informa também que mais de metade da população trabalha por conta de outrem e depende do salário para sobreviver. No que diz respeito ao consumo, ficámos a saber que cada indivíduo gasta, em média, 6500 kwanzas (72 dólares) por mês, mas quem vive no meio rural despende apenas 4 mil kwanzas (44 dólares).

Metade do orçamento vai para alimentos

Ao passarmos para a análise das categorias onde o indivíduo gasta mais dinheiro por mês verificamos que os alimentos e bebidas surgem na frente (representam 57% do total). No meio rural, este tipo de despesas chega a significar 66% do orçamento mensal, enquanto no meio urbano a percentagem é de “apenas” 50%. Verifica-se também que para o grupo populacional dos 20% mais pobres a alimentação representa 67% dos gastos, enquanto para os 20% mais ricos equivale a 43%. Numa análise mais detalhada à categoria de alimentação e bebidas, verificamos que os legumes e hortícolas, representam 30% do total. Seguem-se os cereais, os peixes e as carnes. As bebidas alcoó--licas têm igualmente um peso expressivo.

  Este perfil de consumo não é um bom sinal. A socióloga Haríclea Pereira Bravo receia, inclusivamente, que, caso não se alterem os hábitos, caminharemos para uma sociedade problemática. “Estes dados servem para se pensar que sociedade queremos no futuro. Assim caminharemos para uma situação insustentável”, diz.

A apresentação deste painel diversificado de estatísticas do IBEP comprova que Angola ainda tem muito trabalho a fazer na área social. A falta de qualidade na construção de casas é uma das mais preocupantes. O estudo revela que 91% da população da população urbana vive em condições não apropriadas, 79% vive em casas construídas com material pouco apropriado e 42,5% vive em casas sobrelotadas. Por fim, 2,2% moram em casas clandestinas.

Tecnologias de informação são uma lacuna

Metade dos gastos da população urbana é referente à alimentação. Nas zonas rurais, o valor é de 66%. Segue-se a habitação e o vestuário

Ao nível das tecnologias de informação o panorama também não é brilhante. Num país que pretende ser uma referência no continente, apenas 4% da população têm acesso ao computador (7,6% nas áreas urbanas) e 0,3% à internet (0,4% nas cidades). Dois outros indicadores de bem-estar e conforto também deixam Angola ficar “mal” no retrato: apenas 0,7% da população tem telefone fixo e 33% tem telemóvel (53% nas áreas urbanas). A boa notícia para as operadoras é que estes números apontam para a existência de um grande potencial de crescimento para o sector das telecomunicações.

Na educação, o cenário é um pouco mais animador, dado que o número de analfabetos diminuiu. Dados do IBEP apontam que 66% da população com 15 anos ou mais já sabem ler e escrever. E 68% das mulheres dos 15 aos 24 anos também sabem ler e escrever. Os resultados deste estudo, que representou um investimento de 9 milhões de dólares, foram bem recebidos pelo Banco Mundial, que considera importante haver estatísticas credíveis para a definição de boas políticas  de governação. “São os números que temos. Até aqui não existia nada. Logo estes dados são importantes tanto para o país como para os organismos internacionais, pois, de certa forma, vão ajudar o Banco Mundial a definir melhor as suas políticas para Angola”, disse Elio Codato, o representante do Banco Mundial no nosso país.

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Por: Faustino Diogo
 

Comentários

  1. André Ramos
    2011-01-18 09:10:22
    Estes dados são deprimentes, quando vistos de uma forma estática. Uma análise comparativa com um período recente levar-nos-ia provavelmente a um estado de espírito mais encorajador. O que ressalta sobretudo é que temos que olhar mais e melhor para o interior, é lá que estão os maiores problemas e são lá que eles se conseguem resolver com maior eficácia - os projectos de desenvolvimento do interior devem ser feitos numa base auto-sustentável, aliando os melhores valores da tradição que se mantém viva à gestão autárquica moderna
  2. Arão Abel
    2010-11-12 08:13:06
    Os dados aqui apresentados traduzem a realidade dos Angolanos. Não poderemos conseguir tão facilmente um desenvolvimento sustentavel se vivermos estas realidade
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