Ásia

Que o Sudoeste Asiático tem vindo a conseguir bons resultados económicos nas últimas décadas não é nenhuma novidade. Também é sabido que Singapura se tem destacado como o grande centro financeiro da região. Mas atingir números de crescimento de PIB muito superiores a qualquer um dos países do famoso BRIC — Brasil, Rússia, Índia e China — é de inspirar respeito em qualquer economista.
Nos primeiros três meses do ano, Singapura registou um crescimento do PIB de 16,9%, e no trimestre seguinte, de 18,8%. A ilha tem cerca de um terço da área da cidade de Luanda e quase o dobro da população (cerca de 5 milhões de habitantes).
O seu mercado interno é, portanto, muito pequeno. São as exportações de Singapura — tem o porto de carga mais movimentado do planeta, que recebe, todos os anos, um quinto dos contentores do mundo — que justificam o bom desempenho da ilha. Com 70% da economia dependente dos serviços financeiros e mais 25% ligada aos produtos electrónicos, Singapura foi duramente afectada pela crise mundial. Mas a retoma registada no início deste ano está a surpreender até os analistas mais optimistas.
Enquanto os países mais ricos procuram reavivar a economia através de grandes investimentos em infra-estruturas (como os governos norte-americano e chinês), Singapura seguiu um caminho diferente.
“O governo concedeu incentivos fiscais à sua força de trabalho para que as empresas do país invistam em formação e tecnologia”, diz Irvin Seah, vice-presidente do DBS, o maior banco do Sudoeste Asiático. “Quando o mundo começou a recuperar da crise, Singapura era um dos países mais bem preparados para aproveitar o aumento da procura. Haver poucos entraves burocráticos aos negócios também ajudou: enquanto a entrada de capitais no país cresceu 7% em 2009, em dois grandes centros da Europa, Luxemburgo e Suíça, caiu 5% e 1%, respectivamente”, afirmou o banqueiro à EXAME.
O facto de o inglês ser a língua corrente é outro argumento para a atracção de mais investidores ocidentais para Singapura. Mas essas não são as únicas explicações para o melhor semestre do país desde que o crescimento do PIB nacional passou a ser calculado, em 1975. Nos últimos anos, Singapura tem feito um grande esforço para diversificar a economia. A estratégia começou pela indústria farmacêutica, há 15 anos. Hoje, Singapura lidera os rankings da protecção à propriedade intelectual e da abertura ao comércio internacional divulgados pelo Fórum Económico Mundial. Essas garantias, somadas aos incentivos fiscais, à mão-de-obra qualificada e à qualidade das infra-estruturas que favorecem a exportação, atraíram colossos do sector como a Bayer, Boehringer-Ingelheim, GlaxoSmithKline, Merck Sharp & Dohme e Roche.
O aumento da procura de medicamentos por parte de países emergentes como a China ou a Índia também fez progredir a indústria farmacêutica de Singapura, que já responde por cerca de 5% do PIB nacional. O turismo também cresceu em importância. Em 2005, o governo liberalizou a legislação dos jogos. Desde então, o fluxo de turistas cresceu 30%, e todos os meses é comemorado um novo recorde.
A preocupação, agora, é com os efeitos do recente superaquecimento da economia. O enorme crescimento, na sequência da queda de 2,1% no PIB em 2009, começa a pressionar os preços. A Autoridade Monetária de Singapura (órgão equivalente ao banco central) lançou um pacote de medidas em Abril para segurar a inflação, que resulta da apreciação da moeda local, o dólar de Singapura. Os observadores internacionais estão optimistas. “Singapura vive um momento mágico. Tudo estava a dar errado nos últimos dois anos, mas de repente tudo passou a dar certo: o turismo, a indústria, o sector financeiro... e nada indica que vá piorar nos próximos anos”, diz Arpitha Bykere, analista da consultora americana Roubini Global. Para Singapura, afinal, parece ter valido a pena ter resistido às tentações dos momentos de crise.
Invejosa do sucesso económico de Singapura, a Malásia está a construir uma cidade para concorrer com a vizinha.
Maquete
de Nusajaya, na Malásia: imitar para competir
Diz um ditado inglês que a cópia é a forma mais sincera de elogio. A ser verdade, Singapura pode considerar-se lisonjeada. Em 2006, o governo da vizinha Malásia resolveu erguer uma cidade na região de Iskandar, separada de Singapura apenas por uma estreita faixa de mar. Talvez a palavra mais adequada seja metrópole: a nova Iskandar terá 2217 quilómetros quadrados, o dobro da área de Nova Iorque. O objectivo do governo malaio é fornecer mais uma alternativa aos investidores que querem diversificar a carteira de aplicações no Sudoeste Asiático e procuram evitar a imprevisível legislação chinesa que regula os negócios em Hong-Kong.
A construção da cidade começou pelo distrito financeiro, chamado Nusajaya, numa área de 4 mil metros quadrados onde antes havia uma plantação agrícola. Mas a Malásia sabe que, para atrair os bancos e os fundos de investimento, é preciso oferecer qualidade de vida aos expatriados que se sentirem tentados a mudar para a região. Por isso, foi criado um comité de “limpeza e embelezamento” da região. Também foi feito um investimento de 214 milhões de dólares na construção, que estará concluída em 2012, de um parque temático da Lego (a Legoland). Para atrair os jovens do mundo inteiro e oferecer mão-de-obra qualificada, está a ser erguida a “Edu-city”, um complexo de 1 milhão de metros quadrados preparado para receber vários campus universitários. A Faculdade de Medicina inglesa de Newcastle já se comprometeu a investir 180 milhões de dólares nas suas instalações.
O projecto global, que ficará concluído em 2025, está orçado em 100 mil milhões de dólares. Até agora, 20 mil milhões já foram gastos. Apenas 10% vieram do governo. O restante resultou da aposta de investidores malaios e estrangeiros. O maior foi a empresa espanhola Acerinox, que colocou 1,3 mil milhões de dólares para instalar uma siderurgia na região
A crise obrigou à alteração da estratégia malaia para atrair investimentos. “Tínhamos muitas conversas encaminhadas para trazer grandes nomes do mercado financeiro, mas, alguns deles, já nem sequer existem. Hoje, preferimos ir à procura de empresas da economia real”, diz Arlida Ariff, directora da Iskandar Investment, agência responsável pela atracção do investimento estrangeiro.Ela continua optimista. Apesar da crise, os principais interessados em Iskandar — como a Índia, a China e algumas nações do Médio Oriente — continuam a querer espaço e mão--de-obra qualificada para instalar as suas empresas de tecnologia e multimédia.
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