Liderança

Carlos Cunha, 54 anos , casado e pai de dois filhos
A Casa 70 é a maior sala de espectáculos de Angola. Passados 12 anos da sua fundação, os mais de 500 shows já realizados naquela casa mítica, situada no número 70 da Avenida da Liberdade, em Luanda, enchem de orgulho aquele que um dia ousou transformar a antiga Casa do Alentejo num dos melhores locais do país para se assistir a um bom espectáculo de música.
Contrariamente ao que se podia esperar, a entrada de Carlos Cunha no mundo dos negócios não começou com a Casa 70. Herdeiro dos genes empresariais vindos do seu avó e do seu pai, a construção do grupo que hoje se intitula Valoeste começou em 1990, com a criação de um trading, com o mesmo nome, que assume a “paternidade” (holding) das áreas de negócios em que está envolvido (veja caixa à direita).
Nessa altura, a necessidade de importar bens do exterior, a maioria dos quais vindos de Portugal, era evidente. O sucesso nesta fase inicial do grupo foi tão grande (a título de exemplo foi quem mais vinhosvendeu, em 1992, em
Tal como sucedeu durante a fase da importação, também o negócio dos supermercados Valoeste correu bem. Embora confinada a Luanda, Carlos Cunha diz ter a rede de supermercados que mais vende na capital, com uma facturação de cerca de 2500 dólares por metro quadrado (valor obtido pelo rácio entre a facturação mensal e o número de metros quadrados do espaço). O empresário gosta de fazer a distinção entre o supermercado e a boutique alimentar, um conceito personalizado, virado para o público das classes média e alta, que vende, em média, 1 milhão de dólares por ano (por comparação, o supermercado Nzamba 1, no Cazenga, fica-se pelos 800 mil dólares por ano).
Fiel à alcunha de “homem dos sete ofícios”, Carlos Cunha associou-se à construtora portuguesa Teixeira Duarte para a criação da Maxi Cash Carry, para a área grossista, com uma participação de 40%. Era o seu maior negócio de sempre.
A chegada da paz em Angola serviu de pretexto para pôr em marcha uma das suas maiores ambições: regressar à terra natal, Kwanza-Sul, e reencontrar-se com a terra, criando um projecto agro-pecuário. Para realizar esse sonho teve de arriscar tudo e vender a participação na Maxi Cash Carry aos outros sócios. “Passados 35 anos, sentia uma grande ansiedade em voltar ao local onde nasci. Mal surgiu a paz, em 2002, propus à Teixeira Duarte a compra do meu maior negócio. Depois de um ano de árduas negociações vendi a minha quota e investi todo o dinheiro na província do Kwanza-Sul”, explica.
Ciente dos riscos do negócio, o empresário partiu para a realização de mais um sonho, por sinal o mais apetecido, num período de incertezas que nem a paz conseguiu apagar. O caminho foi repleto de inquietações. “Na altura, para chegar à terra prometida, levava-se quase um dia para percorrer cerca de 300 quilómetros. Não havia quase nada, cheguei a dormir um ano numa caravana”, recorda.
A aposta na agro-pecuária começou com a aquisição de duas fazendas, a que veio juntar-se uma outra, que já era pertença da família, todas na província do Kwanza--Sul. Foram baptizadas com nomes em kimbundu, a sua língua nativa. Duas delas — a Mulundo (nome de um morro) e a Kanduma (na confluência entre dois rios) — tiveram como referência a localização. A terceira, Mbuenzo, recebeu o nome da sua avó. O empresário espera que o projecto esteja consolidado daqui a três anos.
Entretanto, o trabalho já vai bem avançado. Além da pecuária, existem 100 mil cabeças de gado bovino e 500 de gado caprino. Os terrenos agrícolas são servidos por uma tecnologia de rega norte-americana tida como mais avançadas nos campos de regadio. Daqui a seis meses, segundo estima o empresário, as fazendas do grupo Valoeste produzirão 2 mil toneladas de milho, 800 toneladas de feijão e 2 mil toneladas de batatas.
Ao mesmo tempo que foi desenvolvendo o negócio agro-pecuário, Carlos Cunha também foi criando pequenas estruturas de apoio como um restaurante, uma padaria e até uma pequena residencial. Elas servem não só os 300 trabalhadores que operam no campo, mas também as populações locais. A este propósito, Carlos Cunha diz, com orgulho, que tem tido um papel activo na comunidade onde já construiu 130 casas sociais, instalou 1000 famílias em 400 hectares de terra, construiu um chafariz e, com o apoio do governo local, construiu dez jangos sociais, um posto médico e prevê a construção de uma escola. “É essa a nossa obrigação como empresários. Em África as diferenças sociais não são importantes. Temos de saber dividir. O patrocínio tem de fazer parte da vida de qualquer empresário”, justifica. Com um brilho nos olhos, Carlos Cunha assume que, enquanto homem de negócios, aquilo que lhe dá mais gozo é a agro-pecuária, onde já investiu mais de 12 milhões de dólares entre capitais próprios e financiamentos.
O próximo desafio é a construção de uma fábrica de sumos, com marca própria (provavelmente terá o nome de Mbuenzo, em homenagem à sua avó). Carlos Cunha está igualmente atento às oportunidades de negócio noutras províncias. Tenciona construir um matadouro no Kwanza-Norte e montar um laboratório de análises clínicas e veterinária em Catete, na província do Bengo. Entretanto, vai piscando o olho ao ramo da construção civil, onde já possui três cerâmicas, uma em Catete, outra em Porto Amboim e a terceira no Waku- -Kungo. Está já em marcha o plano de construção de uma quarta fábrica em Catete, com capacidade de produção diária de 70 mil tijolos, um investimento de 15 milhões de dólares para uma fábrica moderna que pretende ser uma das maiores do país. “A cerâmica consiste em converter barro em dinheiro”, diz divertido. “Julgamos que se trata de um bom negócio, onde conseguimos actuar com qualidade”, justifica.
Em consequência, o grupo, que emprega 850 trabalhadores, investiu durante os anos 2009 e 2010 mais de 30 milhões de dólares. “Foi um investimento um pouco a contraciclo do mercado”, sublinha. Carlos Cunha crê que os próximos dois anos serão os de maior aposta na agro-indústria. “Os anos seguintes já exigirão certamente um menor investimento inicial, até porque o grupo não é rico e será necessário consolidar os negócios existentes”, justifica.
A Casa 70 tem um lugar à parte no coração do empresário. Os primeiros passos para a fundação da mítica sala de espectáculos foram dados nos anos 1983 e 1984, embora a inauguração oficial só tivesse ocorrido em 1998. As brasileiras Alcione e Simone, a cabo-verdiana Cesária Évora e os angolanos Bonga e Paulo Flores são apenas exemplos da enorme galeria de cantores que passaram pela Casa 70.
O segredo, segundo Carlos Cunha, está na relação de confiança que se criou entre os artistas e o dono do espaço. “Nós pagamos menos do que os outras salas de espectáculos. Nalguns casos chegamos a pagar menos de metade. Isso é um sintoma de qualidade. Os artistas sentem-se valorizados quando actuam connosco. Eles sabem que estar na Casa 70 é estar no top. Também os jovens artistas já sabem que, para se afirmarem como músicos, têm de passar pela nossa Casa. Isso aconteceu com Paulo Flores, Yuri da Cunha, Matias Damásio e tantos outros. Não é uma arrogância dizer isso, é a pura realidade”, conclui.
Regresso às origens: Carlos Cunha construiu 130 casas sociais, um chafariz e um posto médico. Só falta uma escola
Outro ciclo que se interrompeu foi a da própria liderança de Carlos Cunha à frente da Casa 70. Hoje, essa responsabilidade foi passada aos progenitores, Marcos e Vladimir Cunha. O fundador não esquece os inúmeros espectáculos que marcaram a Casa. Tenciona, em breve, publicar um livro onde partilhará essas experiências. Confidenciou à EXAME que os três espectáculos que mais o marcaram foram os da Maria Bethânia, Luís Calaf e Percy Sledge. “A Bethânia realizou o show mais empolgante de sempre. Nunca vi uma pessoa cantar 42 músicas e recitar oito poemas em apenas 1 hora e 20 minutos. Também foi fantástico reviver o passado com o Luís Calaf, um merengue único. Também Percy Sledge, um músico que marcou a juventude estudantil do anos 70, foi uma grande referência para mim. Vou escrever as minhas memórias, onde contarei essas experiências”, diz. Nos próximos tempos estará certamente demasiado ocupado, tendo em conta os negócios em curso na sua amada terra natal: o Kwanza-Sul.
1990
- Fundador
Carlos Cunha
- Trabalhadores
850
- Áreas de negócio
Uma casa de espectáculos (Luanda), dois supermercados (Miramar e Cazenga); três fábricas de cerâmica (Catete, Porto Amboim e Waku-Kungo) e três fazendas para a agro-pecuária (Kwanza-Sul).
- Investimento em 2009 e 2010
Mais de 30 milhões de dólares (dos quais cerca de metade são relativos à nova fábrica de cerâmica).
- Projectos futuros
Nova fábrica de cerâmica (Catete), matadouro
(Kwanza-Norte) e laboratório de análises clínicas e veterinária
(Catete).
1998 Casa 70
a maior sala de espectáculos do país

2004 Agro-pecuária
2008 Cerâmicas
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