Capa Ridge Solutions
CLIQUE PARA AUMENTAR AS IMAGENS
Sabe-se muito pouco sobre o grupo Ridge Solutions. Ainda menos sobre o seu fundador Jorge Ferreira Ramos, de 46 anos, detentor de 90% do capital (os restantes 10% pertencem a um outro empresário angolano do qual apenas se sabe que é um antigo quadro dos petróleos). No entanto, trata-se de um grupo com activos avaliados em cerca de 15 mil milhões de dólares presente em Angola, no Dubai, Abu Dhabi, Hong-Kong, Pequim, Luxemburgo e Lisboa em actividades tão díspares quanto os serviços financeiros, imobiliário, agricultura, indústria e a construção de infra-estruturas. Ou seja, quase tudo.
Na entrevista que mantivemos com o fundador (uma ocasião única, dado que ele raramente concede entrevistas à comunicação social) ficámos a conhecer um pouco melhor as origens deste colosso empresarial cujo nome significa, numa tradução literal, “soluções de ponta” (a palavra ridge designa uma montanha íngreme e pontiaguda, que é, aliás, visível no logótipo da empresa). A conversa decorreu na sede, no último andar de um edifício com uma arquitectura original, em forma ondulada, localizado junto à Sagrada Família, um dos símbolos da chamada “nova Angola”.
A entrevista, avisou, era suposto durar apenas 45 minutos (na realidade foram duas horas), dado que o empresário iria partir no dia seguinte para os Emirados Árabes para tratar de assuntos relacionados com a Fundação Williams, cuja actividade, ligada à prevenção rodoviária, está a registar um grande entusiasmo neste país. O apelido Williams decerto soará familiar aos adeptos dos desportos motorizados. É que o grupo Ridge Solutions patrocina, desde 2009, uma das equipas com mais tradições na Fórmula 1 (F1), a ATT Williams. “Trata-se primeiro grupo africano a patrocinar uma equipa da F1”, diz com orgulho.
A scuderia britânica, recorde-se, terminou em sexto lugar no último campeonato mundial de construtores, tendo o brasileiro Rubens Barrichello e o alemão Nico Hülkenberg, como pilotos. A equipa, fundada por Frank Williams e Patrick Head, em 1997, já ganhou nove títulos mundiais.
Nos primeiros cinco anos, o sector imobiliário foi o negócio principal do grupo. Agora, a aposta é a indústria e a agricultura
Na primeira fase da internacionalização, o grupo criou a RS International Holdings, no Dubai, e depois, com parceiros chineses, a RS China-Africa em Hong-Kong e Angola. A Emirates Ridge Solutions Contracting, com sede em Abu Dhabi, foi a empresa que marcou a entrada do grupo nos grandes projectos de engenharia do Médio Oriente e África. A terceira fase da expansão internacional (através da RS Capital) passou pela criação de estruturas na Europa, dedicadas à gestão de capitais em Portugal e Luxemburgo. “Somos a única empresa africana registada neste pequeno país que é a segunda maior praça financeira da Europa”, afirma José Ramos, acrescentando que também tem uma consultora financeira registada nas ilhas Caimão.
O impulso dado pela F1 também “acelerou” a vitória do grupo nos concursos internacionais para grandes obras (como metropolitanos, caminhos-de-ferro, auto-estradas ou até a gestão de municípios) no Médio Oriente. “Fomos a primeira empresa africana a patrocinar uma equipa da F1. Com isso deixámos de ser encarados como uma empresa do terceiro mundo e passámos a competir directamente com as multinacionais”, diz.
De facto, ao percorrer os gabinetes da empresa, o ambiente é semelhante ao de uma multinacional onde o inglês é a língua franca. “Somos uma empresa multicultural cujas práticas de negócio nada ficam a dever às melhores da Europa, dos Estados Unidos ou da Ásia. Sempre procuramos atrair as melhores competências e os melhores talentos de todo o mundo.”
A este propósito é importante registar que o grupo apenas possui 137 quadros efectivos (a somar aos 5 mil colaboradores) provenientes de países tão díspares quanto Portugal, Estados Unidos, África do Sul, China, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Índia, Sudão, França, Moçambique, Brasil, São Tomé, Emirados Árabes Unidos e obviamente Angola.
O grupo nasceu há apenas seis anos. Desde então, segundo o seu fundador, teve um crescimento vertiginoso de 6000%. No início estava dividido por áreas de negócio, com ênfase nos projectos imobiliários de larga escala (que foram o core business nos primeiros cinco anos), através da RS Properties). Hoje, o grupo divide-se em dois grandes eixos: as actividades produtivas (onde se inclui a agricultura e a indústria); e os veículos financeiros que os suportam, através da RS Capital (que procura financiar e alavancar os projectos do grupo e atrair investidores locais e internacionais para negócios em Angola e na África Subsariana).
No imobiliário, os Jardins do Éden, em Luanda-Sul, projecto iniciado em 2005, é um dos mais emblemáticos. Dirigido à classe alta, tem actualmente 2400 casas vendidas (das quais 1550 já foram entregues) e está neste momento a desenvolver a segunda fase do projecto, com a construção de edifícios de vários andares para uso comercial e residencial e um centro comercial de grande dimensão (Kalandula Shopping) e equipamento social. Em 2006, deu-se início ao projecto da Torre Platinium, de 19 andares no coração de Luanda. Em 2009, e também na área de Luanda, iniciou-se a construção do Novo Kitulu, projecto dirigido às diversas classes sociais e implantado numa área de 789 hectares.
Ainda em Luanda, está também está a ser finalizada uma torre de 12 andares no centro da cidade (Marimba Palace) e um complexo de vivendas (Zambo Condomínios) e em construção um hotel de cinco estrelas (Kilamba), a somar ao que vai ser construído em Malange (Villas de Malange) e ao resort turístico junto à praia de Cabo Ledo (Ledo Cliffs). Apesar de muitos desses projectos ainda estarem com obras em curso, José Ramos pegou na máquina de calcular e estimou que, nos últimos três anos, o grupo já terá entregue cerca de 2987 vivendas e 3039 apartamentos. É obra!
O ano 2008 marcou o início dos projectos industriais do grupo (através da RS Industry) com o arranque do Parque Industrial de Botomona, em Catete. O espaço de 225 hectares visa instalar a industrias pesada, média e ligeira e oferece um centro logístico, retail park, centro empresarial, restaurante e hotel. A estreia do parque vai fazer-se com uma empresa do grupo (uma fábrica de telha e tijolo e blocos de cimento) que já está em construção.
O projecto terá uma área de produção de 1000 hectares e produzirá 6 mil toneladas de camarão-tigre, uma espécie muito apreciada pelos mercados europeus, asiático e norte-americano, onde o consumo do marisco tem vindo a crescer (só no Japão, estima-se que seja de 300 mil toneladas por ano). “O mercado interno também será importante”, estima Jannie Breed. A marca Camarão de Angola estará no mercado em Agosto de 2011.
O projecto foi desenvolvido com o apoio tecnológico de técnicos franceses, com grande experiência na cultura desta espécie em Madagáscar (líder africano em aquacultura), segundo os métodos biológicos aceites internacionalmente. A produção irá iniciar-se num projecto-piloto com 32 hectares e terá um forte impacte social na região do Ambriz incluindo um projecto de habitação social. Numa segunda fase, José Ramos prevê a possibilidade de adicionar valor ao produto (camarões já cozidos, com ou sem cabeça) e produzir filetes de tilapia (cacusso).
Outra actividade do grupo em fase de desenvolvimento acelerado é a agricultura. Em 2009, a RS Farming, direccionada para o desenvolvimento e gestão de projectos agrícolas, arrancou com a primeira fazenda no Huambo, estando em preparação o arranque de unidades similares em Benguela e no Bengo. No total, o grupo já terá adquirido cerca de 27 mil hectares de terra, mas o objectivo, a médio prazo, é chegar aos 500 mil hectares.
“Todas as fazendas terão uma forte componente industrial”, alerta o fundador. O grupo utilizou as mais modernas tecnologias para captar imagens do local, quantificar as parcelas de terras aráveis, avaliar a qualidade dos solos e as necessidades em termos de recursos hídricos. “Vai haver uma aposta forte no uso de energias limpas e na criação de mini-hídricas”, esclarece. Outra componente essencial será o centro logístico e de distribuição e a edificação de ramais ferroviários para o escoamento dos produtos para os principais pontos da África Austral.
Numa primeira fase, os projectos dirigem-se, sobretudo, ao mercado interno “de modo a combater o défice alimentar que ainda subsiste no país. Os excedentes serão canalizados para a exportação contribuindo assim para a diversificação da economia e para o equilíbrio da nossa balança de pagamentos. Cremos que esse esforço deve ser uma responsabilidade de todos os empresários e não só do Governo”, conclui José Ramos.
A área de actividade mais recente é o branding (gestão do portefólio de marcas do grupo), e que terá a parceria com a Williams como motor. “Em 2012 vamos entrar no segmento do lifestyle, com um forte cariz tecnológico, criando uma parceria onde a Ridge terá 75% do capital e a Williams 25%”, diz. O merchadinsing tem sido aliás uma grande fonte de receitas para as equipas, sendo a Ferrari um dos casos mais bem-sucedidos de extensão de marca.
José Ramos acredita que o investimento na F1 é elevado, mas compensa. “Os especialistas dizem que por cada dólar investido há um retorno de 586%”, diz. Além de ser uma das mais vistas, a modalidade é também das mais exigentes em termos de tecnologia e inovação (duas palavras mágicas para o fundador da Ridge). “Na Williams, por exemplo, são precisos 560 engenheiros só para gerir dois carros”, refere. Por todas estas razões, o investimento na F1 é para continuar. “Em 2014, podemos estar ligados aos motores de alta competição powered by Ridge Solutions”, diz.
Outra aposta forte do grupo é a responsabilidade social. A colaboração entre a RS e a AT&T Williams assume uma forte vertente social com a criação de uma fundação que visa contribuir para a promoção da segurança rodoviária no continente africano. O programa tem uma componente educativa e lúdica ligado à prevenção rodoviária e é dirigido essencialmente às crianças e jovens. É também a pensar neles, nomeadamente os mais desfavorecidos, que a Ridge Solutions apoia o Centro de Acolhimento Arnaldo Janssen (Lar de Crianças do Padre Horácio) garantindo alimentação, educação e cuidados de saúde a 375 crianças de rua.
Outro grupo-alvo que tem merecido uma atenção particular é o desporto adaptado. Desde a sua fundação que a Ridge Solutions se tornou o principal patrocinador dos atletas parolímpicos que representam Angola (José Ramos é vice-presidente do Comité) oferecendo um projecto para o centro de treino. Este ano, o grupo também apoiou outros eventos ligados ao entretenimento (caso do concurso Miss Angola 2010) e à cultura (foi um dos mecenas da 2.ª Trienal de Luanda). Fora das “pistas” do mundo dos negócios a Ridge Solutions também quer ser campeã.
Jardins do Eden: Um dos projectos imobiliários mais emblemáticos do grupo
Platinium: Torre de 19 andares no centro de Luanda
Williams: O novo carro tem o logótipo do grupo bem visível
Acordo histórico: José Ramos e Frank Williams no Mónaco (2009)
O piloto do grupo Ridge Solutions fala sobre as suas origens humildes
e o estilo de gestão
marcado pela curiosidade, ambição, sentido de
urgência e responsabilidade social
José Ramos é um empresário rico. Muito rico. Apesar de não gostar de
falar sobre isso (muito menos Pedro Paneiro, o director de comunicação
da Ridge Solutions, que levava as mãos à cabeça sempre que o fundador
avançava com mais um número) a EXAME apurou, através de várias fontes,
que José Ramos tem uma colecção de relógios de luxo avaliada em milhões
de dólares, dois iates, uma aeronave, um jacto particular e uma valiosa
colecção de automóveis onde pontificam dois Rolls-Royce.
O empresário é um conhecido apreciador de relógios (o dono da Boutique dos Relógios não perde o ensejo de o visitar sempre que vem a Luanda) e um grande aficionado de gadgets tecnológicos (já tem, obviamente, um iPad). É também um ávido coleccionador de arte. A sala de reuniões da Ridge Solutions, que mais parece um centro de conferências, ostenta três magníficos quadros da artista plástica Daniela Ribeiro, da sua colecção associada ao “tempo”.
Como gestor José Ramos gosta de imprimir uma velocidade vertiginosa aos
negócios do grupo. “Sempre tivemos um grande sentido de urgência”,
justifica. Considera-se uma pessoa pragmática, orientada para o futuro,
com uma visão global e empenhado na componente social dos negócios.
Define-se, sobretudo, como alguém que gosta de aprender e demonstra uma
curiosidade quase infantil perante o mundo que o rodeia. “Gosto de
descodificar o incógnito”, resume. Tem como ambição tornar a Ridge
Solutions uma empresa 100% angolana, mas com uma vocação global que
concilie “o melhor dos dois mundos”.
Nos tempos livres, José Ramos adora viajar. Apesar de se considerar um cidadão do mundo, fluente em inglês, nunca viveu fora de Angola, sendo Luanda a sua cidade de eleição para morar. É um entusiasta do desporto (a Ridge Solutions tem uma equipa de futebol e de atletismo) sendo o ténis a sua modalidade favorita. “Ainda jogo quando o meu joelho me deixa”, diz divertido. A empresa aliás patrocina o Master Series Ridge Solutions, o principal torneio de ténis em Angola. “Agora estou a tornar-me praticante de golfe.”
Curiosamente, nunca foi um fanático da Fórmula 1. “Aprendi a gostar”,
refere. Apesar dos benefícios inegáveis que a associação à modalidade
trouxe para a estratégia de internacionalização do grupo, nomeadamente
na Ásia e no Médio Oriente, José Ramos confessa que foi o lado humano
que mais o atraiu. “Fiquei fascinado com a personalidade de Frank
Williams desde o momento em que o conheci.” Para os menos familiarizados
com a Fórmula 1 convém referir que Sir Frank Williams, hoje com 68
anos, é paraplégico desde 1986, ano em que teve um grave acidente de
viação em França. A marca britânica, está aliás ligada a factos
trágicos, dado que foi ao volante de um Williams que o campeão
brasileiro Ayrton Senna faleceu em 1994.
A ligação à Williams também tem gerado benefícios para o pais.
“Promovemos o CAN lá fora, a custo zero”, recorda. José Ramos relembra
também a visita que Adam Parr, director-geral da Williams, fez a Angola
em Novembro de 2009, tendo sido recebido pela primeira-dama, na sua
qualidade de fundadora e presidente do Fundo de Solidariedade Social
Lwini. Nessa ocasião foi feita uma apresentação prévia do projecto Race
to Learn, no qual o Fundo Lwini está envolvido, cujo objectivo principal
são as acções de carácter educativo associadas à promoção do trabalho
em equipa e da competitividade escolar. “A metodologia foi desenvolvida
pela prestigiada Universidade de Cambridge. A Ridge Solutions não tem
qualquer interesse económico associado”, esclarece.
Existe ainda o programa Royal Safety ligado à prevenção rodoviária,
dirigido à sensibilização dos jovens nesta área e que contará com o
envolvimento da Direcção Nacional de Prevenção Rodoviária, da Polícia
Nacional. Terá ainda uma vertente dirigida às crianças portadoras de
deficiência, de maneira a que utilizem o desporto automóvel como forma
de aumentar a sua autoconfiança e vontade de vencer. Os planos de José
Ferreira não se ficam por aqui. Existe um plano para a criação de um
centro de formação para jovens pilotos e está em estudo a possibilidade
de construção de um futuro circuito de competição numa primeira fase
para as Fórmulas K e GP2 e, mais tarde, quem sabe, para a própria
Fórmula 1.
Confessa gostar muito do que fez. “Adoro fazer negócios. Não é uma
obrigação é um prazer. Considero a gestão o expoente máximo da arte.
Permite-nos criar necessidades, ver para além da cortina, tornar o mundo
um sítio melhor para viver. O mais importante não é o dinheiro, mas,
sim, o lado humano, o contributo que dá à sociedade. Nesta perspectiva
considero que faço negócios de uma forma quase romântica.” No que se
refere ao estilo de gestão diz identificar-se mais com o estilo sóbrio
de Warren Buffett do que com o espalhafatoso empreendedor britânico
Richard Branson. Revela a esse propósito que a Virgin também contactou a
Ridge Solutions para patrocinar a entrada da marca na Fórmula Um. A
julgar pelos resultados obtidos na estreia da Virgin o grupo apostou bem
ao preferir a Williams.
Apesar de liderar um grupo avaliado em 15 mil milhões de dólares José
Ramos revela uma simplicidade desarmante ao confessar as suas origens
humildes.
“Nasci no Kilongo dos Dembos, no Kwanza-Norte, num acampamento
de contratados (trabalhadores das roças de café)”. Chegou a Luanda aos
18 anos e ingressou numa empresa pública através de um concurso com mais
de 400 candidatos. Aos 22 anos, revela, já tinha ascendido a um cargo
de direcção de uma empresa de aviação. Começou a sua vida empresarial
privada, em 1993, quando deixou o emprego seguro numa empresa pública e
resolveu criar a sua primeira empresa de aviação e posteriormente uma
trading internacional. O grupo Ridge Solutions nasceu em 2004 e, segundo
o fundador, cresceu 6000% em apenas seis anos. José Ramos é sem dúvida
um gestor que trabalha em rotações elevadas.
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.