Moda
Quem não conhece Fátima Lopes e a vê pela primeira vez, com o seu corpo franzino e um olhar cativante, com um sorriso aberto e jovial, não imagina que tem à sua frente uma empresária forte e determinada que muitos apelidam de “uma verdadeira força da natureza”. Porém, basta ouvi-la falar por uns instantes e facilmente nos apercebemos de que estamos perante uma mulher de garra com uma paixão contagiante pela vida. “Sempre fui assim. Tive de lutar muito para chegar aqui. Não sou capaz de estar parada. Trabalho sete dias por semana. Este ano ainda não gozei férias. Ninguém no mundo da moda trabalha tanto como eu. Costumo dizer que não há impossíveis, só difíceis”, diz.
O facto de ter nascido numa ilha (Madeira) terá, segundo ela, contribuído para cimentar essa determinação. “Eu não gostava do que havia na ilha da Madeira, por isso comecei a desenhar as minhas roupas. Fui viver para Lisboa porque achava o Funchal demasiado pequeno. Depois achei que Lisboa também era demasiado pequena e fui para Paris. Mas Lisboa continua a ser a minha cidade favorita para viver.” Os paralelismos com o conterrâneo Cristiano Ronaldo são evidentes. “Tal como eu, ele teve de se afirmar e ir à luta. Gosto muito dele como ser humano. Nunca se esqueceu das origens. Ronaldo tem um dom, mas todos os treinadores dizem que ele trabalha mais do que os outros. Além disso, tem uma figura e um corpo fantástico”, diz divertida.
Ocasião também para recordar outro conterrâneo igualmente determinado, Joe Berardo que também emigrou e fez fortuna na África do Sul e é seu amigo e parceiro de negócio. Em comum com o empresário, tem ainda a recusa em divulgar números. “São a alma do negócio”, justifica.
Quando se mudou para Lisboa, em 1990, já tinha como objectivo seguir a carreira de estilista. Começou por abrir um loja, com uma amiga, chamada Versus, onde vendia roupa de criadores internacionais.
No ano seguinte, participa no Portugal Fashion e começa a desenhar acessórios de moda e sapatos, quer para o público feminino, quer o masculino. Em 1996, dá o grande “salto”: abre a primeira loja na Rua de Grenelle, que, na altura, era o sítio mais in de Paris “Naquela cidade tudo muda muito depressa. Hoje, a rua perdeu o charme e foi invadida por sapatarias.”
A loja foi vendida há seis anos, mas isso não impediu Fátima Lopes de triunfar na capital mundial da moda. Desde 1999 que a estilista participa, duas vezes por ano, no selectivo Salão da Moda de Paris. “Acabei de apresentar a minha colecção. Foi tudo muito cansativo. Trata-se de um desfile onde participam 90 grandes nomes da moda mundial, durante nove dias. Este ano também participou Filipe Oliveira Baptista, de origem portuguesa, que está radicado em França há muitos anos.”
Fátima Lopes acredita que o esforço compensa. “O Salão é uma montra para o mundo. O público é muito exigente composto por jornalistas especializados e potenciais compradores. Foi o facto de estar lá que me permitiu ser convidada para desfiles em inúmeros países desde o Brasil à Turquia, Coreia do Sul ou Japão. Há dez anos, eu era uma ilustre desconhecida. Hoje, estou na primeira divisão mundial da moda”, diz com orgulho.
A saída definitiva para as luzes da ribalta surgiu devido a uma brincadeira. “Em Paris tive de contratar um assessor de imprensa. É um apoio fundamental. Ele passava a vida a dizer-me que eu tinha de ser diferente e chamar a atenção. Aconselhou-me a desfilar como modelo pois achava que eu tinha corpo para isso. Eu respondi em tom de brincadeira que só se fosse vestida de diamantes. Ele levou a ideia a sério e conseguiu que uma multinacional belga fosse a patrocinadora”, recorda.
Depois disso, Fátima Lopes desenhou também a Barbie Alta Costura, a Barbie Alta Joalharia e foi uma das 50 estilistas mundiais convidadas para criar uma Barbie comemorativa dos 50 anos da marca.
Desde então, Fátima Lopes tem estado envolvida noutras iniciativas mediáticas. Fez os vestidos para o Festival da Canção e para o Festival de Cannes, em França. Desenhou o guarda-roupa da série Earth Links, em Hollywood. Vestiu várias actrizes famosas. Entre elas, recorda, em particular, o desenho das roupas de Jane Birkin na sua digressão mundial. Vestiu também a selecção de Portugal nos últimos seis anos e a de Angola durante o CAN.
Em toda a sua carreira sempre teve muitos clientes angolanos fiéis. “Há 18 anos que tenho mercado em Angola. Nunca fiz publicidade disso. São clientes muito refinados e exigentes, com uma grande cultura de moda, que só querem o melhor”, diz.
Nos últimos anos, confessa que tem comunicado com esses clientes por Skype. “Tenho uma conversa com eles onde percebo quais são as suas expectativas e depois envio as propostas por e-mail. Nunca delego essa tarefa. Sou eu própria que desenho os vestidos. Devo ser a única estilista que não tem um gabinete criativo. Faço a roupa como se fosse para mim. Não consigo desenhar nada que eu não goste”, afirma.
Apesar de Fátima Lopes receber muitos pedidos de Angola para vestuário exclusivo e vestidos de noiva (os preços médios rondam os 6 mil euros), a estilista assegura que tem oferta para todas as bolsas. Para além da alta-costura, a sua loja em Luanda, disponibiliza uma gama diversificada que vai desde a roupa casual para o dia-a-dia, acessórios de moda, jóias, sapatos, óculos ou fatos-de-banho, tanto para a mulher como para o homem. “Só não terá ainda a minha linha de produtos para o lar. Isso ficará para uma segunda fase. Mas está disponível o catálogo completo para quem quiser encomendar esses produtos.”
PRIMEIRO O DESFILE: Colecção de Verão teve estreia em Luanda
Recorde-se que a loja foi inaugurada no dia 28 de Novembro no Hotel de Talatona. A cerimónia foi acompanhada de um desfile, onde Fátima Lopes apresentou a sua colecção de Verão e onde fez questão de só participarem modelos angolanos.
“Recordo que foi a Nayma que vestiu o meu primeiro desfile, há 18 anos. Desde essa altura que ela foi uma espécie de embaixadora da minha marca.”
A abertura da loja em Luanda marcou o início de uma nova etapa para Fátima Lopes. “Até agora, estive concentrada em afirmar a marca e em diversificar a minha linha de produtos que estão presentes em em vários locais desde os Estados Unidos, aos países árabes ou em diversos países europeus através de lojas multimarca. Mas chegou a altura de iniciar um projecto de internacionalização mais ambicioso, com lojas próprias”, diz.
Depois a inauguração: Loja no Hotel Talatona tem a sua assinatura
Depois de Luanda, Paris é a cidade que se segue. “Vou abrir uma loja na Rua Saint--Honoré que é a zona chique do momento onde estão as grandes marcas. No passado, a minha origem portuguesa era um handicap em Paris. Hoje, isso é uma mais-valia. Muitas marcas de alta costura estão a fabricar em Portugal. Se tudo correr bem, a loja deverá estar pronta dentro de seis meses. O Brasil e a China são dois outros mercados prioritários. A minha ambição é estar presente em todos os continentes”, diz.
Recorde-se que, como empresária, Fátima Lopes tem outros negócios para além da moda. É dona da agência de modelos Face; do restaurante Unique, em Lisboa (está a tentar comprar a posição do sócio maioritário) e da discoteca Beach Club, em Vilamoura. Na vida pessoal confessa gostar de uma boa festa, mas ultimamente tem procurado evitá-las. “Gosto de acordar cedo. Agora o luxo, para mim, é ficar em casa.”
Em termos gastronómicos, Fátima Lopes prefere a comida saudável. “Nunca precisei de dietas. Mas nunca como gorduras ou fritos”, diz. Apesar de gostar muito de viajar lamenta ainda não ter tido tempo para conhecer melhor o país. “Adoro a simpatia das pessoas. Os angolanos sabem receber muito bem. No início da minha carreira eles foram ter comigo a Portugal. Agora é a minha vez de retribuir e vir ter com eles a Angola. Só não percebo porque é que a minha loja é a primeira de um criador internacional. Os outros devem andar distraídos”, conclui a estilista.
Nascimento: Funchal (1965)
Áreas de negócio: Moda (alta costura, prét-à-porter, acessórios de moda, sapatos, jóias, produtos para o lar); entretenimento (restaurante Unique, em Lisboa e discoteca Beach Club, em Vilamoura, ambas em Portugal)
Lojas: A marca está presente em vários países através de lojas multimarca. Abriu a sua primeira loja em Luanda (28 de Novembro). Em 2011 vai inaugurar em Paris. Brasil e China são próximos alvos.
Trabalhadores: 35 efectivos (e centenas de colaboradores).
Facturação anual: “Nunca divulgo.”
Licínio de Assis representa a marca de Fátima Lopes em Angola, através da empresa Folie Creation, um nome que, nas suas palavras, representa “glamour, leveza e diversão”. O empresário, hoje com 46 anos, nasceu em Luanda. Aos 17, emigrou para Portugal onde estudou Línguas e Literaturas Modernas, na Universidade Nova de Lisboa. Teve várias expe-riências profissionais na área comercial e de marketing e em consultoria de recursos humanos e contabilidade.
Regressou a Angola quando tinha 30 anos. Foi director de formação e recursos humanos da FMC Technologies e, depois, da Barloworld Equipments. O cargo mais recente foi o de administrador do grupo imobiliário Imocom. Esteve ainda ligado aos negócios do transporte de combustível e das pescas e foi professor do ensino secundário e universitário de Português e Inglês.
Como se vê Licínio de Assis teve uma carreira diversificada embora sem qualquer relação aparente com o mundo da moda. Importa perguntar o porquê da ligação a Fátima Lopes. O empresário esclarece que foi o seu amigo e parceiro de negócio José Santos que o apresentou à estilista.
“Quando a conheci conversámos um pouco e o acordo foi quase imediato. Eu já admirava Fátima Lopes, mas fiquei agradavelmente surpreendido com a sua simplicidade”, recorda. Outra razão que facilitou o acordo foi o facto da estilista estar muito interessada em abrir uma loja em Angola. “Ela conhece bem o mercado pois sempre teve muitos clientes angolanos”, justifica. Como empresária, Licínio de Assis considera-a “uma mulher determinada que sabe sempre o que quer. Acrescenta que a criatividade e a ousadia são os dois grandes trunfos da marca Fátima Lopes.
Se o acordo foi rápido, o início do negócio foi ainda mais veloz. Fátima Lopes veio a Angola em Outubro para ver o espaço: uma loja no distinto Hotel de Talatona cujo preço de aluguer ronda os 5 mil dólares por mês. A inauguração oficial ocorreu pouco depois, no dia 28 de Novembro, após o desfile da sua colecção de Verão. “É muito fácil trabalhar com Fátima Lopes. Foi ela própria que desenhou o espaço a seu gosto e que escolheu os materiais. Ela nunca hesita na hora de tomar decisões. Sabe exactamente o que é preciso para ter êxito”, confessa Licínio de Assis.
Licínio de Assis
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