Edição nº 11
 

Gestão 2.0

O ano em que o tigre rugiu

Publicado a 28-12-2010 15:34:00

Este foi o ano em que a China tomou de assalto a economia mundial, dando razão aos que profetizavam a sua ascensão a potência global dominante no século xxi. Segundo as estatísticas, a China já é, neste momento, a segunda maior economia mundial ultrapassando o Japão. Mas o mundo já percebeu que o colosso não vai ficar por aqui. Há muito que vem preparando o futuro celebrando acordos com os países produtores de matérias-primas, entre os quais Angola, que se tornou o seu maior fornecedor de petróleo. A nível empresarial as firmas chinesas continuam “às compras”, desde produtoras de gás e electricidade nos Estados Unidos, Argentina e Brasil até à construtora sueca de automóveis Volvo. De produtora de bens a baixos preços, sem grande valor acrescentado, com base na mão-de-obra barata, as empresas chinesas começam a dar cartas nos mercados globais (caso da Huawey, cuja história a EXAME contou na edição n.º 8).

Este foi também o ano dos “emergentes”, os famosos “Brics”, popularizados pela Goldman Sachs. Do Brasil, à Rússia e à Índia todos eles têm em comum o elevado número de habitantes e o crescimento da classe média como factor de dinamismo do mercado interno. Este foi também o ano em que África começou a ser olhada pelos analistas económicos com redobrado interesse — a EXAME deu conta de dois estudos elogiosos para o continente das prestigiadas consultoras McKinsey e Boston Consulting Group. Também Vijay Mahajan, professor da Wharton School, lançou um livro intitulado Africa Rising, onde elege o continente como o mercado mais promissor do mundo: com 900 milhões de pessoas, onde abundam recursos naturais e uma população jovem. Um continente de futuro, portanto.

Não é por acaso que os últimos grandes eventos desportivos foram realizados na China (Jogos Olímpicos) e África do Sul (futebol) e que os próximos irão ocorrer no Brasil e na Rússia. Este foi também um ano positivo para Angola que recuperou rapidamente dos efeitos nefastos no preço do petróleo da crise mundial de 2009 e se prepara para regressar aos níveis de crescimento a dois dígitos.

Pela negativa este foi o ano em que os antigos vencedores da economia global voltaram a decepcionar. Os Estados Unidos, apesar do “efeito Obama”, não conseguem descolar e envolveram-se numa perigosa guerra cambial com a China. O Japão e a Europa, a braços com uma população descrente e envelhecida, são incapazes de sair da longa letargia em que mergulharam. O caso da Europa é o mais grave devido ao elevado endividamento dos países periféricos, conhecidos pelo acrónimo pouco simpático de “PIIGS”. Entre eles a Grécia e a Irlanda já atiraram a toalha ao chão e tiveram de pedir ajuda externa. Portugal, Espanha e Itália foram obrigados a prosseguir planos de austeridade cujas consequências são imprevisíveis. Caso para dizer que se os pacientes ainda não morreram da doença podem agora morrer com a cura.

Este foi também o ano em que Angola foi notícia em duas revistas de referência em Portugal e no Brasil devido ao hábitos de compra luxuoso de alguns clientes angolanos mais afortunados. Puro ruído. Não tardará muito que os mesmos articulistas lamentem a falta desses clientes que deixarão de fazer compras no estrangeiro à medida que as grandes marcas começarem a abrir lojas em Angola. Nesta edição contamos o caso da estilista Fátima Lopes que escolheu Luanda para a abertura da sua primeira loja internacional. Outros se seguirão certamente.

Termino com uma nota pessoal. Este foi também o ano em que faleceu uma das pessoas por quem tinha maior estima intelectual. O economista português Ernâni Lopes foi meu professor de faculdade, talvez o mais brilhante que jamais conheci. Desde então colaborámos várias vezes. Ernâni Lopes acreditava ferverosamente na importância das elites intelectuais e no papel da imprensa económica como formadora de opinião e, sobretudo, de “boas consciências”. Era um apaixonado pelos países de língua portuguesa e um defensor do aprofundamento das suas relações comerciais. Em sua homenagem e numa altura que Angola preside aos destinos da CPLP prometemos, ao longo do próximo ano, prestar uma atenção especial a esse conjunto de países, parceiros naturais de Angola. Em todos eles, já é possível assinar a edição impressa da “nossa” EXAME.

Por: Jaime Fidalgo
 
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