Edição nº 14
 

Mulheres

Negócios 
no feminino

Publicado a 11-04-2011 9:35:00

Capa

O historiador Filipe Zau, doutorado em Ciências da Educação e mestre em Relações Interculturais, recorda, num texto magistral que escreveu sobre a importância da mulher na sociedade angolana, que a tradição cultural bantú é caracterizada por um predomínio da mulher como mãe, que gera e define a linhagem. Tal princípio é expresso na célebre frase “educar uma mulher é o mesmo que educar uma família”.

Dinita Crespo, dona do Coconuts e do Cafe del Mar: "Sou perfeccionista e não consigo deixar de levar o trabalho para casa"

Porém, não obstante os enormes esforços registados em Angola ao nível da eliminação das desigualdades entre homens e mulheres (expresso, por exemplo, no número crescente de governantes e de deputadas), muito há ainda por fazer nesse capítulo. O inquérito integrado sobre o bem-estar da população (IBEP 2008-2009), divulgado no final de 2010, revela que o índice de desigualdade no género, no que diz respeito ao acesso aos ensinos primário e secundário, ainda é elevado. O inquérito demonstra também que a maioria das mulheres (62%) tem filhos antes de completar 20 anos de idade e que apenas 18% usam algum tipo de método contraceptivo. E que a proporção de mulheres, entre os 15 e os 24 anos de idade, que não sabe ler e escrever é de 32% (chegando aos 59% nos meios rurais). São números que dão que pensar.

O passado mês de Março, tradicionalmente dedicado à mulher, é uma excelente ocasião para o fazer. Durante esse mês presta-se tributo às heroínas de Angola (Limbânia Jiménez Rodriguez escreveu um livro fantástico sobre o tema); as associações de mulheres (como a OMA, dirigida por Luzia Inglês) são homenageadas entusiasticamente; a ministra da Família e Promoção da Mulher, Genoveva Lino, desdobra-se em declarações públicas por todo o território nacional, glorificando as virtudes da mulher angolana tais como a coragem, a força de vontade, o espírito de sacrifício e a determinação.

O que poucos sabem é entre essas virtudes está uma capacidade — o espírito empreendedor — que, em regra, é mais associada aos homens. O estudo Global Entrepreneurship Monitor de 2008, no qual participaram 43 países (em Angola a sondagem resultou de uma parceria entre a Universidade Católica e a Sociedade Portuguesa de Inovação, com o apoio do BFA), revela que há muitos empreendedores em Angola (23 em cada 100, o que é a quarta taxa mais alta do mundo).

Acrescenta, no entanto, um dado curioso e inédito à escala mundial: um quarto da população adulta do género feminino (25,3%) está envolvida em actividades empreendedores early-stage (ou seja, em negócios nascentes) enquanto nos homens essa taxa (designada por TEA) ascende apenas a 20,3%.

Ou seja, as mulheres angolanas, para além do papel central que exercem na educação e protecção da família (tal como Filipe Zau aludia), revelam igualmente uma elevada propensão para a criação de novos negócios. Aguardamos com expectativa a publicação do novo estudo relativo a 2010 (que a EXAME irá divulgar, em primeira mão, na edição de Junho) para verificar se a mulher angolana repetirá essa proeza que não acontece em nenhum outro país.

Sondagem às mulheres empresárias

Outro estudo, lançado em 2007 pela Assomel (Associação das Mulheres Empresárias da Província de Luanda), que abrangeu 101 empreendedoras, permite conhecer melhor o seu perfil. A sondagem revela que a maioria dessas empresárias iniciou os negócios com fundos próprios (ainda que com o apoio do marido ou da família) sem recorrer ao financiamento bancário. Grande parte delas tomou essa decisão por necessidade (ou por se encontrarem desempregadas ou para ajudar o sustento do lar), mas a maioria acreditou estar perante uma boa oportunidade de negócio.

 

Formação, burocracia legal, acesso ao crédito e falta de pessoal qualificado são as principais dificuldades
Ao nível dos sectores, o comércio em geral, a restauração e a roupa (ou a moda num sentido mais lato) foram os mais populares. O resultado não surpreende. Durante o período da guerra muitas mulheres optaram por ganhar a vida (ou “arredondar o salário”) cozinhando para fora ou importando roupa do estrangeiro. Nada mais natural por isso, que, em tempo de paz, elas terem prosseguido esses negócios de uma forma mais profissional.

 

No que diz respeito às dificuldades iniciais, as inquiridas revelaram que a ausência de formação (em áreas como a gestão, a contabilidade e finanças, a liderança ou o marketing e comunicação) assim como o acesso à tecnologia foram as mais sentidas. Na fase seguinte, a desenvolvimento do negócio, elas queixam-se também da falta de recursos financeiros para a compra de equipamentos e matérias-primas, ou para novos investimentos. O difícil acesso ao crédito bancário, as burocracias associadas à legalização e a falta de mão-de-obra qualificada foram outros obstáculos invocados. Não obstante, a maioria confessou estar optimista quanto ao futuro dos seus negócios.

A receita de Dinita Crespo

Neste artigo de capa da EXAME escolhemos cinco exemplos de mulheres que ousaram criar negócios de sucesso. São casos inspiradores que poderão motivar outras empreendedoras a seguir as suas pisadas.

No campo da restauração é sabido que grande parte dos estabelecimentos foi fundada e gerida por mulheres. Só em Luanda, encontramos desde restaurantes reputados (como o Embaixador, a Tia Maria, o da Fortaleza ou o Ásia Longe), até aos de refeições rápidas (como a Sandwich.com ou o Carpoli) ou aos referidos serviços ao domicílio (catering).

Uma das pioneiras do sector é Edine Crespo que fundou, há 12 anos, o Coconuts, um dos ex-líbris da ilha de Luanda, e o “vizinho” Café del Mar (que já tem dez anos de história). Dinita, como é carinhosamente tratada, é natural de Benguela (veio para Luanda em 1984) e uma apaixonada por restauração, “Gosto de servir. Gosto de bem servir. O segredo está em escolher uma equipa coesa e capaz. Sou exigente e sei que para oferecermos qualidade temos de ser exigentes”, sintetiza. A sua empresa, a Coconuts Hotelaria e Turismo, engloba vários empreendimentos: “Temos o Coconuts, o Café del Mar e a Pastelaria Alvalade, que abriu há cerca de um ano e meio. Também estamos a fazer a gestão do restaurante do aeroporto doméstico de Luanda, e brevemente abriremos um novo restaurante no aeroporto internacional.”

A paixão pela restauração começou com o Coconuts: “O sonho do meu marido sempre foi ter um restaurante à beira-mar. Eu não possuia qualquer experiência no negócio. Tinha trabalhado na ONU e nos petróleos, mas resolvi arriscar e criar o Coconuts. O espaço começou por ser uma simples casa de quintal que servia comidas típicas. Na altura havia pouca concorrência: o Miami, o Bordão, o Barracuda. Os primeiros anos foram complicados. Mas fomos sempre crescendo, sem pressas, até hoje”, recorda.

À medida que o negócio foi evoluindo surgiu a ideia de separar os dois conceitos. Hoje, o Coconuts é conotado como um restaurante de família e um local de eleição para almoços ou jantares de negócios, com 30 mesas e capacidade para 100 pessoas. “Costumo dizer, em tom de brincadeira, que o Coconuts é um lugar mais sério. Os clientes são mais exigentes. Cria-se uma relação de amizade com alguns deles. Muitas pessoas vêm aqui apenas para ter uma conversa agradável. Na esplanada podemos estar de fato de banho, mas é preciso vestir uma roupa mais formal para jantar.” O facto de estar junto à praia, e de ter uma decoração alegre onde impera o laranja (também patente no uniforme dos empregados) dá-lhe um ar descontraído: “O laranja é vida. É alegre e, ao mesmo tempo, ameno. Nós gostamos de transmitir alegria. Queremos que o cliente, vindo de dia stressante após o trabalho, se sinta bem-disposto”, explica. A própria Dinita gosta de sorrir e dar dois dedos de conversa aos clientes fiéis.

Já o Café del Mar, segundo Dinita, é mais informal (o nome inspirou-se num conhecido bar de Ibiza). Abre a partir das 17h30 até à uma ou duas da manhã. Tem música ambiente. É um espaço frequentado por uma faixa etária mais jovem. “É um ponto de encontro para a noite, onde as pessoas comem algo mais leve e convivem com os amigos. Nunca foi nossa intenção competir com as casas nocturnas da ilha. Não queremos ser um bar ou discoteca. O Café del Mar oferece a oportunidade de beber um copo, ouvir uma boa música ou ver uma exposição. Queremos apostar cada vez mais na cultura. Já organizámos actividades culturais de grande envergadura. Lembro-me do Mil e Uma Noites, com a Rita Oliveira e a Mónica Anapaz, que foi um sucesso”, frisou. No que respeita à animação, o Coconuts também tem música ao vivo uma vez por semana. Mas o ponto alto do ano são as disputadas festas de aniversário, com bar aberto (a última das quais albergou 1500 clientes).

Porém, o maior trunfo dos restaurantes é mesmo a cozinha, com menus variados e uma cuidadosa selecção dos alimentos. “A cozinha está aberta. Apostamos muito na higiene e segurança.” No Coconuts destaca-se o peixe e o marisco. Os pratos que saem melhor são a espetada de peixe e marisco, a posta de garoupa e as caudas de lagosta e o steak au poivre. No Café del Mar as pizzas, são as preferidas pelos clientes.

A melhor parte do negócio, segundo Dinita, “é saber que os clientes apreciam o espaço e passam a mensagem aos amigos. Já tivemos aqui actores famosos. O Presidente fez aqui um cocktail”. O mais difícil, acrescenta, é recrutar pessoal qualificado.

Hoje, Dinita conta com 200 funcionários e conhece-os a todos pelo nome. O trabalhador mais antigo é o avô N’Gola, de quem ela fala com carinho. “O avô tem 70 anos, e é um funcionário sem igual. Por várias vezes quis que se reformasse, mas ele recusou. Apesar da idade, ainda faz exercícios diários na praia. Eu dou-lhe sempre uma semana de trabalho e uma de folga, para que ele descanse mais um pouco. Digo sempre aos outros funcionários que o avô N’Gola parece ser mais jovem do que eles”, conta.

Mãe de dois filhos, Rodrigo e Catarina, Dinita tem na sua família o seu alicerce. “O apoio do meu marido foi fundamental. Vivemos juntos há 18 anos, mas casámos há dez. Curiosamente eu até não cozinho particularmente bem. Prefiro provar e dar a minha opinião. Já o meu marido é um bom garfo e está envolvido no negócio de importação de produtos alimentares, o que ajuda muito. Mas enquanto eu sou perfeccionista e levo o trabalho para casa, o meu marido consegue cortar. Temos procurado reinvestir no negócio tudo o que conseguimos ganhar”, refere.

Apesar de ter tido uma infância feliz confessa não ser saudosista: “Nasci e cresci no Lobito. Brincava muito com os meus quatro irmãos”, recorda. Da sua mãe herdou o amor por causas sociais. “Quando éramos mais novos, dizíamos que a nossa casa era a ‘Santa Casa da Misericórdia’, pois dávamos guarida a muitas pessoas. Desde então continuo a participar em acções sociais, mas sem grande publicidade. Acho que o mais importante é ajudar e não publicitar. A minha mãe sempre disse que quem dá, recebe”.

Desde então a empresária tenta sempre transmitir esses valores aos seu filhos: “Sou uma pessoa muito exigente com os meus filhos. Sempre os fiz entender que nada é dado de bandeja. Tento mostrar-lhes que há princípios, tais como o amor ao próximo e o respeito pelos mais velhos, que são primordiais para o nosso crescimento salutar como seres humanos.”

Uma marca chamada Analtina

 

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Analtina Dias, apresentadora de televisão e empresária: "O estatuto de figura pública ajudou-me no mundo dos negócios"

Outra das empresárias mais carismáticas de Angola é Analtina de Fátima Dias Chicambi. A popular apresentadora de televisão nasceu em Luanda, mas foi na província do Huambo que passou a sua infância. Na cidade do Huambo completou os estudos primários, secundários e até o ensino médio (em Matemática e Física). Foi lá também que formou um grupo de dança e venceu o concurso que lhe abriu as portas para a televisão. Ao mudar para Luanda frequentou uma universidade privada onde fez três anos do curso de Ciências Económicas até que resolver mudar para Comunicação Social, licenciatura que concluiu em 2008. Frequentou também vários cursos de formação de televisão e inclusivamente para actriz (por sugestão da direcção da TPA, canal televisivo em que trabalha há 22 anos) e hoje também faz rádio.

 

Mãe de dois filhos, Helvécio e Sinésio, confessa que o estatuto de figura pública nunca lhe colocou barreiras. “Pelo contrário só me ajudou”, diz. A vertente de empresária surgiu em 2004 durante uma visita ao Brasil. “Vi várias bonecas com nomes de apresentadoras e pensei “por que não?”, recorda com o bom humor que lhe é característico. Na altura o programa Janela Aberta que apresentava, era o líder das audiências. Muitos pais dirigiam-se à portaria da TPA, acompanhados de bebés que se chamavam Analtina. “Eles davam o meu nome às suas filhas. Um dia cheguei à porta e disseram-me: ‘Analtina está aí mais uma Analtina bebé’, olhei para a menina, uma negrinha linda. Foi nessa ocasião que me lembrei do que tinha visto no Brasil e tomei a decisão de que iria fazer a boneca. Não foi fácil. Muita gente não acreditou. Mas hoje aí está a Analtina bebé e as outras 11 da marca que são as bonecas mais queridas e apreciadas pelas crianças de Angola”, diz com orgulho.

Na verdade, a apresentadora confessa que sempre adorou bonecas. “Nós crescemos com bonecas de pano que a minha mãe, a minha avó e a minha tia Nela faziam para mim e para as minhas irmãs. Quando era pequena não pude ter bonecas como as da Analtina, feitas de vinil macio com fragrância. Agora vivo rodeada delas. Estou muito feliz.” Apesar das bonecas serem vendidas principalmente no mercado angolano, também estão disponíveis noutros países, compradas por muitos angolanos na diáspora. A colecção já vai em 11: Analtina Bebé (a pioneira), Nené, Tremelique, Bebé Banho, Mwangolê e Mucubal (com 1 metro de altura), Mumuíla e Mucubal, Bessangana, Rainha Ginga e Mwangole (com 45 centímetros).

Analtina tem particular orgulho nas bonecas da colecção “Conheça Angola”, vestidas com as roupas tradicionais das várias regiões do país e que se fazem acompanhar de uma roupa igual para a menina se vestir como a boneca. Elas têm no umbigo um aparelho que explica, em dois idiomas (português e inglês), onde fica a província, as línguas, o clima e os povos. O conceito de Analtina foi sempre o de primar pela vertente educativa. “As nossas crianças precisam de conhecer melhor Angola, as suas gentes e cultura” acrescenta. A marca chamada Analtina também inclui material escolar, tal como a colecção de cadernos do “Mundo da Analtina”, várias opções de mochilas e pastas escolares.

O estilo de Lisete Pote


 

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Lisete Pote, estilista e empresária: "Faltam escolas de formação para os criadores de moda"
O mundo da moda atrai muitas outras empresárias angolanas. Um caso sério de determinação e longevidade é o da estilista Lisete Pote que já trabalha no sector há 12 anos. Os amigos definem-a como uma pessoa “exigente, franca e aberta”. A atracção pela moda começou desde criança. “Quando era ainda muito pequenina pedia à minha mãe que me ensinasse a coser. Sempre gostei de trapos, era muito vaidosa e queria andar vestida de um modo diferente dos outros. Com o passar dos anos descobri que a moda era a actividade a que me queria dedicar de corpo e alma”, recorda.

 

Apesar de ter vivido a maior parte do tempo em Angola, em 1979 partiu Portugal, onde permaneceu até 1986, devido à instabilidade que se vivia no país. Na altura achou que emigrar seria a melhor oportunidade para salvaguardar o futuro dos filhos.

Lisete Pote descreve essa etapa como “uma fase muito difícil em que se viu obrigada a trabalhar para sobreviver, coisa que, até então, nunca tinha feito. Mas foi igualmente uma fase bonita, em que fui secretária de direcção de uma empresa de importação e exportação de madeiras, mas também fazia desfiles”. Foi também em Portugal que fez o curso de Estilismo, que terminou com média de 18 valores. “Já sabia costurar, mas não tinha noção nenhuma de como se trabalhava como criadora.” Mais tarde, fez formação em belas artes e artes plásticas na escola industrial.

Hoje, mãe de quatro filhos e com sete netos, Lisete, confessa ser uma mulher realizada, embora reconheça que gostaria de fazer mais desfiles internacionais. Crê que ainda é difícil trabalhar no sector. “A ausência da indústria têxtil e a falta de escolas para a formação de criadores são as principais dificuldades a vencer”, argumenta. Panos africanos, rendas, organzas, linhos, sedas e malhas, são os materiais com que mais trabalha, com a ajuda de vários costureiros, das filhas, sobrinhas e irmãs.

Pioneiras no segmento infantil
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Teresa e Cláudia Lopes + Tatiana: "Não frequentámos cursos de formação, aprendemos coma experiência"

Tal como sucede com Lisete Pote, muitos negócios em Angola são construídos em torno da família. É o caso das lojas de crianças Kanukus, cuja primeira loja nasceu no Maculusso, em Luanda. No ano passado, foi criada uma segunda loja, mais pequena, na Rua Rainha Ginga. No início deste ano, surgiu a terceira, em Benfica, no Centro Comercial Escravo do Lazer. Mas a maior aposta surgirá, em breve, no shopping Gika, que promete ser o maior espaço comercial da cidade. Nos planos da família (composta por três gerações de empreendedoras: a mãe Teresa, a filha Cláudia Lopes e cunhada Tatiana) está ainda a abertura de um novo restaurante no Centro Comercial Atrium, no Nova Vida.

Porém, as origens das lojas Kanukus (nome que significa “crianças”) são humildes. No início Cláudia Lopes viajava para a África do Sul para comprar roupas de senhora e de criança que depois vendia no apartamento da mãe. Seguiram-se as viagens para o Brasil em busca de roupa mais jovem e com um design atraente. À medida que o negócio crescia a família arrendou o andar do porteiro e, numa segunda fase, a actual loja no rés-do-chão (que foi posteriormente alargada aos brinquedos). Toda a família ajudava. O irmão decorou a loja, o pai (que tinha financiado o arranque) tratou das questões legais. As empreendedoras aprenderam tudo sobre o negócio à sua custa. “Não frequentámos nenhum curso de formação. Fomos aprendendo com a experiência. Sempre reinvestimos o que ganhávamos. Só recorremos ao financiamento bancário na fase de ampliação da loja”, confessam.

Nessa altura as crianças (desde a roupa, aos brinquedos e artigos para bebés) passaram a ser o principal segmento alvo da Kanukus que tinha nos preços acessíveis para a classe média, o seu maior trunfo. “Sempre acreditámos que este segmento iria crescer. Os angolanos têm muitos filhos e havia poucas lojas para bebés e crianças. Já representamos várias marcas conhecidas, através de importadores da Europa, do Brasil, África do Sul e China, pelo que os clientes já não precisam de comprar no estrangeiro. Muitos deles dizem que os nossos preços são melhores e chegam a comprar em Angola os presentes para oferecer aos familiares que vivem lá fora”, revela Cláudia Lopes.

O Natal é a altura mais “quente do ano” em termos de vendas. “O último ano e meio foi um período de grande crescimento. Hoje, as nossas lojas facturam cerca de 50 mil dólares, isto apesar de nunca termos investido em marketing. Na altura das festas, as vendas chegam a ser três vezes superiores.” Os enxovais para recém-nascidos e os artigos para bebés são os mais procurados. Nas roupas para crianças, as que estão associadas a “personagens” são as mais populares. Agora que o número de lojas cresceu a família foi forçada a diversificar esforços. Cláudia e a mãe Teresa cuidam das lojas do centro de Luanda. A de Benfica e o futuro restaurante no Atrium ficarão a cargo de Tatiana. Com apenas 12 empregados, o trio de empreendedoras põe realmente a “mão na massa”. “Fazemos um pouco de tudo. Tentamos liderar pelo exemplo”, dizem.

O grande salto vai ocorrer com a abertura da loja no Gika. “O grande problema de Luanda é o custo do espaço. Tivemos a sorte de ter vagado uma loja mesmo por baixo do prédio onde vivia a minha mãe. Mas agora só o custo da jóia no Gika é de 350 mil dólares, a somar à renda mensal que andará à volta dos 7 a 9 mil dólares. Para fazer esse investimento teremos de nos financiar novamente junto dos bancos, o que é sempre um processo moroso e burocrático”, confessa.

A MENINA DO SHOPPING

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Jessica Simões - GEOX, Peter Murray e Ever Rose: "Se acreditam que uma ideia de negócio pode resultar, sigam em frente"
A jovem Jessica Simões (cujo caso apresentámos no primeiro número da EXAME) conhece bem esse problema do elevado custo das rendas nos centros comerciais. Ela é proprietária de três lojas no disputado Belas Shopping, de Talatona: a Geox, marca famosa de calçado italiano; a Peter Murray, marca portuguesa de vestuário casual e a Ever Rose, uma marca própria de lingerie. Os três negócios fazem parte da empresa familiar JSL Grupo, criada em 2007, por Jessica Simões com o apoio do marido.

Como conselho a todas as mulheres que ambicionam criar o seu próprio negócio, Jessica Simões (modelo em part-time e empresária a tempo inteiro) recomenda: “Não bloqueiem na parte do investimento. Se acreditam que uma ideia de negócio pode resultar, sigam em frente.” Foi com este espírito positivo que, segundo os dados do Global Entrepreneurship Monitor, uma em cada quatro mulheres angolanos se tornaram empreendedoras. Um número que faz inveja a muitos países do mundo e inclusivamente aos empresários masculinos. Decididamente, no que diz respeito ao empreendedorismo, são elas que mandam.




Elas são mais empreendedoras do que eles...

Em Angola cerca de um quarto (25,2%) da população adulta do sexo feminino está envolvida em actividades empreendedoras na fase early-stage (negócios nascentes, que o estudo designa por taxa TAE). No caso dos homens, essa proporção desce para um quinto (20,3%). Nenhum outro país do mundo, entre os 43 analisados pelo estudo Global Entrepreurship Monitor, tem uma maior proporção de empreendedoras do que de empreendedores.

 

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...mas eles acham que são mais capazes do que elas

Segundo o mesmo estudo, cerca de metade (50,7%) das mulheres angolanas crê que reúne os conhecimentos e as competências necessárias para iniciar um negócio. Nos homens, essa percentagem sobe para 53,2%. Eles são menos modestos do que elas.

 

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10 mulheres angolanas notáveis

Em homenagem ao mês de Março dedicado à mulher, o Belas Shopping de Talatona, lançou uma exposição com retratos e breves perfis de 33 mulheres excepcionais. Salientamos as que nasceram em Angola

1.ª - Luzia Inglês

A actual secretaria-geral da OMA (Organização da Mulher Angolana) foi a primeira mulher angolana a ostentar o título de general (era conhecida pelo título de “General Inga”). Com um passado glorioso de resistência viveu parte da sua vida em Kinshasa (República Democrática do Congo).

2.ª - Njinga a Mbande

Iniciou a carreira política em 1962 quando dirigiu, a pedido do seu irmão, uma embaixada de Ngola a Luanda para negociar a paz com os portugueses, pois nessa altura o reino de Ngola era palco de batalhas costantes e sangrentas. Demonstrou possuir uma enorme habilidade negocial e diplomática.

3.ª - Maria Haller

Professora, jornalista e escritora, foi a primeira mulher angolana designada para o cargo de embaixadora. A sua carreira diplomática iniciou-se no reino da Suécia em 1978.

4.ª - Eunice Inácio

Esteve entre as nomeadas para o Nobel da Paz devido às suas contribuições para a paz e a tolerância em Angola. Nasceu na província do Bié. Trabalhou no Ministério da Assistência e Reinserção Social e na ONG Development Workshop.

5.ª - Micaela Reis

Modelo e actriz, foi eleita Miss Angola em 2007. No mesmo ano obteve o 2.º lugar no Miss Mundo (a melhor classificação de sempre de Angola) e o 7.º no Miss Universo. Venceu o concurso de Miss Mundo para o continente africano.

6.ª - Maria Luísa Fançony

Foi a primeira mulher angolana a dirigir um órgão de comunicação social. Tem um passado notável na rádio (trabalhou no Rádio Clube Bié, Rádio Renascença e RNA, onde foi directora de programas). Ganhou o Prémio Maboque de Jornalismo em 1997.

7.ª - Anabela Leitão

Nasceu em Benguela e foi a primeira mulher doutorada em Angola depois da independência.

8.ª - Gabriela Antunes

Professora e escritora, nasceu na província do Huambo e foi uma das principais impulsionadoras do ensino da língua portuguesa em Angola.

9.ª - Maria de Brito Jeovetty (“Soraya”)

Foi a primeira mulher angolana a assumir publicamente a sua condição de seropositiva. Contraiu o vírus em 2000, tornando-se uma activista no combate ao HIV/SIDA.

10.ª - Carolina Cerqueira

Foi a primeira mulher nomeada ministra da Comunicação Social (cargo actual). Jornalista e jurista, natural do Kwanza-Norte, passou pela RNA e foi eleita deputada em 2008.

 

 

Por: Hadjalmar el Vaim, Jandira Miranda, Jaime Fidalgo e Joana Simões Piedade
 

Comentários

  1. Carmen Marques
    2011-06-11 15:26:54
    Boa tarde Somos uma empresa Portuguesa que exporta fraldas de pano para vários países na europa e américa do sul. Procuramos empresas em angola interessadas em comercializar os nossos produtos nas suas lojas. Gostariamos de saber se possivel o contacto da empresa Kanukus para lhe apresentarmos os nosso produtos de preferencia por e-mail. Agradecemos o contacto. Cumprimentos, Mundo da Fraldas mundodasfraldas@iol
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