Edição nº 14
 

Ásia

Quando é que a China vai dominar o mundo?

Publicado a 28-04-2011 8:29:00

No seu admirável livro sobre a China, escrito há pouco menos de 100 anos, o intelectual inglês Bertrand Russell traçou, num dos capítulos, o perfil do carácter chinês. Mistura de filósofo, matemático e historiador, Russell, que morou vários anos na China, questionou o mito da “subtileza inescrutável chinesa”, mas sublinhou uma outra característica que o impressionou. “Os chineses, ao contrário dos ocidentais, não pensam em décadas, mas, sim, em séculos.” Bertrand Russell previu que apesar de a China, naquela altura, ser uma espécie de colónia das potências ocidentais, no futuro o país haveria de disputar com os Estados Unidos a liderança mundial.

No início do século xx, esta afirmação parecia disparatada. A China vivia o “século da humilhação”. Fora derrotada pela Inglaterra nas duas Guerras do Ópio, em meados do século xix, e vencida pelo “vizinho” Japão, em 1904. Uma revolta de guerreiros chineses — os boxers — contra a ocupação ocidental foi destruída violentamente. A China pagou a factura de ser militarmente fraca. “O melhor soldado, às vezes, é o que não luta”, está dito no Tao Te King, um dos livros cultivados fervorosamente pelos chineses. É possível que a China tenha levado tais conselhos demasiado a sério.

Prioridade à investigação científica

A profecia de Russell estava certa. A China acaba de superar oficialmente o Japão como a segunda maior economia do mundo. O seu PIB, avaliado em 5,5 biliões de dólares só é menor do que o dos Estados Unidos (quase três vezes maior). Mas a distância está a diminuir rapidamente graças ao crescimento explosivo da economia chinesa nos últimos 30 anos (média anual de 10%) a par do longo ciclo de estagnação dos Estados Unidos. No livro When China Rules the World (“Quando a China dominar o mundo”), de Martin Jacques, prevê-se que a China chegará à primeira posição mundial em 2050.

Usando uma imagem que foi recentemente usada no Fórum Económico Mundial em Davos, o comboio chinês já partiu rumo à liderança. A dúvida é quando ele chegará ao destino. Embora os chineses raciocinem em séculos, como avisou Russell, o comboio só arrancou há pouco mais de 30 anos, quando o então líder chinês Deng Xiaoping flexibilizou a economia e permitiu que os empreendedores chineses montassem os seus próprios negócios .

Em paralelo ao avanço chinês, os Estados Unidos e a União Soviética, as duas superpotências dos dias de Deng (na China, o nome da família vem primeiro), foram marcando passo. Os Estados Unidos, para usar uma expressão que está na moda, vivem hoje um “Momento Sputnik”. A referência é ao satélite artificial que há meio século deu vantagem competitiva à Rússia na corrida espacial, algo que humilhou e espicaçou o orgulho norte-americano.  


A exaustão dos recursos naturais 
e o crescimento das desigualdades sociais preocupam o governo
E agora será que os Estados Unidos estão em condições para responder ao desafio chinês? Não são muitas as pessoas que apostam na manutenção da liderança americana no longo prazo — ou até mesmo no médio. Não, pelo menos, na “Era dos 10%”, como definiu o economista Nouriel Roubini. Nessa era de que fala Roubini, enquanto a China cresce 10% ao ano, os Estados Unidos debatem-se com um desemprego também de 10%.

Enquanto isso, a China prepara o futuro. O governo lançou as bases do 12.º Plano Quinquenal, onde a prioridade está no desenvolvimento científico. O último relatório da Unesco refere que a China está prestes a ultrapassar os Estados Unidos em número de investigadores. No ranking elaborado pelo jornal britânico The Times, há quatro universidades chinesas entre as 50 melhores do mundo. E na última avaliação da Unesco, os alunos chineses foram os melhores do mundo em Ciências, Leitura e Matemática (veja Exame n.º 13).

A ciência é essencial para que a China consiga cumprir a meta de ter uma xiaokang — uma sociedade com padrão de vida elevado. Apesar dos avanços, a China ainda oferece à maior parte dos seus cidadãos um padrão de vida inferior ao das potências ocidentais. Paralelamente há, entre os chineses, o desejo de que a flexibilidade dos últimos 30 anos se acentue e se desloque da economia para a política. “A marcha da China em direcção à economia de mercado exige mais, e não menos, flexibilidade”, afirma Wang Shuo, editor do Caixin Media, um grupo jornalístico chinês. Shuo lamenta que, em lugar de ser admirada pela sua vitalidade económica, a ascensão da China seja encarada como uma ameaça pelo o resto do mundo.

Disparidades sociais em crescimento

A grande questão do momento é como será um mundo dominado pela China? Ao contrário das paranóias que circulam sobre o “perigo amarelo”, os historiadores acreditam que os receios são infundados. A China nunca foi militarista. Como escreveu Bertrand Russell, os chineses não consideram que “a habilidade em matar” seja uma virtude numa pessoa, ou num país. Uma mudança bem mais provável é que muitos ocidentais tenderão a trabalhar na China. Mas eles terão de aprender mandarim se quiserem agarrar as formidáveis oportunidades que se abrirão.

Porém, entre os intelectuais chineses, o crescimento rápido gera apreensão. “Hoje, o povo chinês lembra mais os ocidentais do século xix, do que os de hoje”, afirma Xu Jilin, professor de História da Universidade da China Oriental. “Há nas pessoas um espírito burguês marcado pelo desejo intenso de bens materiais.” Xu teme que se perca o ancestral carácter confucionista (recorde-se que Confúcio, um filósofo que viveu há 2500 anos, pregava as virtudes da simplicidade e da frugalidade).

Num país que já exporta quase 20% de todos os bens manufacturados do mundo, crescer é uma obsessão (é também uma forma de sobrevivência política da elite do Partido Comunista). A novidade dos últimos meses é que, até no interior dessa elite, se começa a questionar esse modelo. A exaustão dos recursos naturais e o crescimento acelerado das desigualdades sociais são contas que começam a ficar caras de mais até para os elevados padrões chineses.

O coeficiente de Gini, termómetro universal que mede a disparidade de rendimento (veja gráfico na pág. 96), está em franca subida na China. Vale a pena lembrar que o país não tem uma rede social de protecção — os cidadãos estão abandonados à própria sorte. Devido a esse quadro, o governo de Pequim estabeleceu a distribuição mais justa dos rendimentos (a par da referida aposta na ciência), como reforma prioritária no seu 12.º plano quinquenal (relativo ao o período entre 2011 e 2015). “Há mais de 200 milhões de emigrantes chineses em busca de melhores condições de vida. E existe uma incrível disparidade entre o que se ganha nas cidades e no meio rural, o que torna o problema mais complexo”, diz o economista Ajay Chhibber, director para a Ásia e Pacífico do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

A mensagem do mundo árabe

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Entre os ideólogos do Partido Comunista — o único permitido no país, mas pragmático o suficiente para promover uma economia de mercado — a preocupação é real. Eles temem que o enriquecimento do país aumente as desigualdades sociais. “A subida do nível de vida tem sido acompanhada por uma crescente disparidade na distribuição da riqueza”, afirma Yu Keping, do Comité Central do Partido Comunista. “As virtudes da justiça social parecem mais importantes do que nunca. O crescimento económico, por si só, não diminui as desigualdades sociais”, afirma o dirigente.

Yu também prevê uma mudança do foco, da economia para a política. A estabilidade política “estática” do país, marcada por restrições, deve, segundo ele, dar lugar a uma “estabilidade dinâmica”, à base de liberdade de expressão. “Se perdermos a oportunidade de promover reformas políticas ao lado do desenvolvimento científico, os problemas vão agravar-se. A credibilidade do governo e os ganhos gerados pelo crescimento poderão perder-se”, alerta.

Os acontecimentos no Médio Oriente mostram o que pode acontecer quando não há reformas políticas durante períodos prolongados. Claro que a situação da China é diferente — um país que cresce 10% ao ano há três décadas provoca orgulho, mais do que insatisfação, nos cidadãos. Ainda assim há no mundo árabe em convulsão uma mensagem para o governo chinês: entre os artigos que as pessoas aspiram a consumir, o mais precioso é a liberdade.



Por: Paulo Nogueira e Thiago Bronzatto
 
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