Economia social
Em 1992, os peritos do Programa de Desenvolvimento da ONU desenharam uma tabela que demonstrava a concentração da riqueza no mundo em 1992. Os peritos repartiram a população mundial em cinco partes e concluíram que 20% das pessoas mais ricas do mundo eram donas de 82,7% de toda a riqueza do planeta enquanto os 20% mais pobres detinham apenas 1,4% do rendimento mundial.
O gráfico obtido tinha um perfil semelhante a uma taça. Mais concretamente a uma taça de champanhe, cujo formato, segundo reza a lenda, foi moldado com base nos seios da rainha Maria Antonieta. Grande admiradora do delicioso néctar produzido na província de Champagne, ela foi tragicamente decapitada nove meses depois do seu marido, o rei Luís XVI, ter sido guilhotinado pelos líderes da Revolução Francesa ao som dos cânticos de “liberdade, igualdade e fraternidade”.
Na altura os revolucionários acreditavam que assassinando os monarcas a riqueza passaria a ser mais bem distribuída. Infelizmente isso não foi suficiente. Nem na altura da Revolução Francesa nem agora.
Quanto mais desigual é um país, piores são os seus indicadores de desenvolvimento humano e social
Nos últimos meses, surgiram diversas iniciativas políticas e académicas, para estudar os factores que conduziram ao alargamento do fosso entre ricos e pobres. Hoje, tais estudos estão livres da carga ideológica associada à utopia igualitária do comunismo (que, onde triunfou, criou sociedades onde alguns eram mais iguais do que a maioria). Mas a verdade é que o sistema capitalista apenas acentuou o abismo. Ironicamente o francês Dominique Strauss-Kahn presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o grande ícone do capitalismo, deu o primeiro passo para a discussão. Strauss-Kahn defendeu que a desigualdade de rendimentos não é apenas um sinal de uma distorção económica que, uma vez corrigida, resolve o problema. Para ele, a desigualdade “corrompe o tecido social. Quanto mais desigual é um país, piores são os seus indicadores de desenvolvimento humano”.
Obviamente que o economista que dirige o FMI não está a dizer que o mundo deve nivelar a riqueza por baixo. O que ele defende, assim como muitos académicos, é que, quando o abismo que separa os ricos dos pobres é profundo e intransponível, as políticas dos governos são menos eficientes para combater a pobreza. Dito por outras palavras, para que todos vivam melhor, inclusivamente os mais ricos, o ideal é que o fosso social seja menos profundo. Tudo funciona melhor, inclusivamente as acções dos governos, num ambiente económico com diferenças sociais menos agudas.
Quem melhor materializou essa abordagem pós-ideológica da desigualdade foi a dupla de economistas ingleses Richard Wilkinson e Kate Pickett, autores do livro The Spirit Level. Os autores apontam os fenómenos sociais que são mais influenciados pela desigualdade de riqueza.
Algumas conclusões do livro são do mais puro senso comum enquanto outras são verdadeiras revelações. No primeiro caso, situa-se a conclusão de que as desigualdades dentro de uma cidade são mais graves do que as verificadas entre países. Já dizia o ditado popular: “É melhor ser um grande homem numa pequena cidade, do que um homem comum numa grande cidade.”
Na segunda categoria, a das descobertas notáveis, Wilkinson e Pickett dizem que as disparidades sociais destroem a confiança, aumentam a ansiedade e as doenças.
Por exemplo, a percentagem de pessoas obesas e propensas a doenças cancerígenas tende a ser maior em países mais desiguais. O mesmo sucede com outros indicadores como a saúde mental, o número de viciados em drogas, a violência doméstica, os maus tratos a menores ou o número de adolescentes com filhos não desejados. A que se devem estes efeitos colaterais? Os autores acreditam que onde existe uma forte desigualdade de riqueza, os indicadores sociais tendem a piorar todos ao mesmo tempo.
O livro também surpreende quando faz análises comparativas mais detalhadas. Os Estados Unidos, por exemplo, é um dos países mais ricos do mundo, mas é também dos mais desiguais. Não surpreende, por isso, que seja um dos locais do planeta onde há mais pessoas com diabetes ou onde se cometem mais crimes violentos.
Wilkinson e Pickett compararam as estatísticas sobre os crimes ocorridos no País de Gales (região com um dos menores índices de desigualdade do mundo), com os da cidade de Chicago (onde as disparidades sociais são enormes). As curvas dos gráficos de crime, por idade, são idênticas. Elas também coincidem no que se refere ao sexo dos criminosos. O que varia é a curva do volume dos delitos. O número de crimes em Chicago é 30 vezes maior do que o registado no País de Gales.
Os autores poderiam ter feito mais análises comparativas noutro tipo de estatísticas sociais como o desemprego, o número de lares desfeitos com o divórcio, a percentagem de crianças fora da escola, ou a taxa de concentração populacional. A verdade é que esses males são uma consequência óbvias da desigualdade. E este livro de Wilkinson e Pickett decerto será lembrado como uma obra que seguiu uma abordagem pouco convencional para apresentar o problema da desigualdade. Só por isso merecia um brinde menos amargo.

Editora Penguin, 352 páginas
Autores Richard Wilkinson e Kate Pickett
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