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No dia 15 de Abril, a seguradora estatal ENSA assinalou 33 anos. É uma idade especial para os católicos (aquela em que Cristo morreu na cruz), uma alusão que não podia ser mais apropriada, dado que as comemorações deram-se em vésperas da Páscoa. A data também serviu para a ENSA fazer um balanço interno da sua “ressurreição”. Esta talvez seja uma palavra demasiado forte para designar o processo de restruturação que a empresa iniciou há quatro anos. A verdade é que hoje os resultados estão à vista. Não se tratou propriamente de um “milagre”, mas, sim, de um esforço colectivo, que visou tornar a seguradora estatal mais jovem, eficiente e preparada para os novos desafios do sector. A mudança impunha-se porque o monopólio do seguros terminou no ano 2000. Hoje já existem dez seguradoras licenciadas, das quais sete estão em operação. A ENSA continua a ser líder destacada com uma quota que, segundo as estatísticas divulgadas pela companhia, está entre os 50% a 60%. Com o acréscimo da concorrência e as novas oportunidades (nomeadamente as novas regulamentações que impõe seguros obrigatórios às empresas e aos cidadãos) a ENSA teria forçosamente de se preparar para o futuro.
O projecto de restruturação iniciado há quatro anos, foi justamente designado “ENSA Futuro”. Visou mudar quase tudo: desde o modelo de negócio, à estrutura organizacional, ao modo de distribuição dos produtos e à optimização dos activos financeiros e imobiliários. No que diz respeito aos canais de distribuição, hoje, a ENSA tem 29 agências (mais do dobro do que tinha há quatro anos) e é a única seguradora nacional presente em todas as províncias. Para além da duplicação da rede própria, a ENSA celebrou um protocolo com os CTT (9 de Novembro de 2010) através do qual passou a ser possível comprar seguros, nomeadamente o automóvel, em 54 agências da rede dos correios. Foram celebradas outras parcerias com o canal bancário para a venda de seguros associados ao crédito (tais como multirrisco, habitação e automóvel). E, por fim, a rede de mediadores e correctores também foi alargada.
A aproximação aos clientes foi outro eixo importante da ENSA Futuro. A seguradora criou um call center, que funciona das 8 às 16 horas, para onde podem ser solicitadas informações ou fazer alertas de sinistros. E passou a permitir o pagamento dos prémios por multicaixa e a alertar os clientes através de mensagens escritas (sms). A melhoria tecnológica também permitiu a optimização dos sistemas de regularização de sinistros cujo taxa média de espera, segundo referiu o presidente Manuel Gonçalves à EXAME, sofreu uma redução de 40% a 50% no ano passado.

A oferta de produtos também se alargou (hoje são 38). Há desde os dirigidos ao mercado de massas (como os seguros automóvel, de saúde, assistência em viagem ou acidentes de trabalho) e os vocacionados para empresa (desde a protecção para incêndios, transportes marítimos ou obras de engenharia). Os primeiros são os mais populares, mas os segundos são os mais rentáveis.
A explicação é simples. “Angola tem rácios de sinistralidade muito elevados quer no seguro automóvel quer nos de saúde”, afirma Manuel Gonçalves. Hoje, como é sabido, Angola ainda revela grandes deficiências na saúde. Estatísticas como a taxa de mortalidade infantil ou a incidência de doenças como a malária, continuam muito elevadas, inclusivamente por comparação com as da África Subsariana (veja Exame n.º 10). Porém, o presidente da ENSA acredita que nos próximos anos o mercado ficará mais estável. À medida que a economia for crescendo, são de esperar melhorias na prestação de cuidados de saúde e na qualidade de vida das populações. Além disso, adverte, “a maior eficácia dos nossos sistemas de controlo interno vão permitir o combate às fraudes, fenómeno que infelizmente ainda está presente.”
O caso do seguro automóvel é diferente. Tal como foi largamente noticiado na imprensa (veja Exame n.º 4) a procura não teve mãos a medir quando, em Fevereiro de 2010, a nova legislação do seguro automóvel obrigatório foi introduzida. Segundo a ENSA, no primeiro trimestre do ano passado a procura ultrapassou largamente as expectativas. Depois seguiu-se um período de normalidade, mas no final do ano sucedeu o inverso: ou seja, a procura ficou muito aquém do esperado. Para Manuel Gonçalves o problema está na falta de fiscalização. “A falta de seguro obrigatório é a penalidade mais grave do novo código da estrada. Só que ninguém pede ao condutor pelo seguro. A fiscalização devia ser mais apertada. Quando isso acontecer o número de apólices voltará a crescer.” A queixa é comum às outras seguradoras. Fernando Assunção, presidente da Mundial Seguros, afirmou recentemente ao Semanário Económico, que “apenas 30% do parque nacional automóvel estão segurados”.

COLECÇÃO ENSA-ARTE: O livro reúne as obras de várias gerações de artistas
A ENSA tenciona tirar partido dessas oportunidades. Uma das medidas em curso é o “desdobramento” das suas linhas de produtos mais populares. No que diz respeito aos seguros de saúde, por exemplo, o cliente pode optar por vários pacotes de cobertura consoante as suas preferências e, obviamente, a sua carteira. A questão do preço é importante dado que, no final do ano passado, a ENSA aumentou os prémios em 30%. “Nós nunca tínhamos actualizado os preços apesar das clínicas terem aumentado as tarifas em cerca de 70%”, justifica. Um dos custos que mais subiu, segundo o presidente, foi o das evacuações de emergência. “Há dez anos, o preço da evacuação para o estrangeiro era cerca de metade. Só a aeronave custa, em média, 54 mil dólares e o total da operação pode facilmente chegar aos 100 mil dólares”, exemplifica. Já no preço do seguro automóvel não se prevêem alterações. “O produto tem tarifas próprias definidas pelo Executivo que já incluem uma taxa de indexação anual”, esclarece.
Outra área onde a ENSA conseguiu gerar mais-valias foi na rentabilização do património imobiliário (a seguradora tem cerca de 100 edifícios em Luanda, Lobito, Huambo e Namibe). A estratégia consistiu na actualização das rendas mais antigas (que oscilavam entre 14 e 30 dólares) para um valor mínimo de 150 dólares (ainda assim, bem longe dos preços “loucos” que se praticam no mercado imobiliário). Em consequência, a seguradora passou de uma receita com os arrendamentos de apenas 2,5 milhões de dólares, em 2006, para 20 milhões, em 2010. Um aumento que, segundo o presidente, vai ser reinvestido na reabilitação desse património e em novos projectos imobiliários. “Daremos prioridade aos locais onde já temos parcelas de terrenos”, diz.

Desde então, o Prémio ENSA Arte tornou-se uma referência das artes plásticas (pintura e escultura) em Angola. Os trabalhos passaram a fazer parte da colecção ENSA que agrupa várias gerações de artistas. Segundo Manuel Gonçalves, “é um dos maiores acervos disponíveis sobre a história da arte angolana”.
Ainda na área da responsabilidade social, a ENSA criou o grupo desportivo Visa — Vitoria Seguros de Angola e é o patrocinador oficial do Comité Olímpico angolano e a seguradora dos Palancas Negras nas principais competições desportivas (desde o futebol, ao basquetebol e ao andebol).
Para assinalar os seus 33 anos, a ENSA decidiu criar mais uma iniciativa de carácter cultural. Trata-se de um novo prémio ligado à música. A periodicidade também é bianual (alterna com o ENSA Arte). A diferença é que em que vez de distinguir os artistas consagrados, o objectivo do ENSA Música é revelar os novos talentos.
A meta parece ter sido conseguida logo na primeira edição. O concurso contou com a participação de 625 candidatos, cujos trabalhos foram apreciados por um júri composto por Jomo Fortunato, Carlitos Vieira Dias e Nelo Paim. Os melhores trabalhos foram compilados num CD, com 16 músicas, e os seis artistas finalistas, tiveram direito a apresentar as suas canções, ao vivo, no Cine Tropical (infelizmente um deles não compareceu).

Viteix: Venceu a primeira edição do prémio com a obra Banda Jazística
No fim da gala do Cine Tropical ainda houve tempo para ouvir mais duas “estrelas” (desta vez internas — Valdo Frota e Avelino) e o próprio presidente (acompanhado pelo irrequieto saxofonista Nanutu e o virtuoso guitarrista Derito). Manuel Gonçalves, mais uma vez, não perdeu o ensejo de actuar perante os seus funcionários que, por sua vez, não lhe regatearam palmas. Um fecho de ouro para um ano que a ENSA tão cedo não esquecerá.
Data da fundação 1978 (monopolista até ao ano 2000)
Principal accionista Estado
Subsidiárias ENSA (seguros) e Ango Re (resseguro)
Participações Dez empresas em sectores como o imobiliário, a hotelaria, o comércio e os serviços
Colaboradores 670
Volume de negócios (2010) 332 milhões de dólares (crescimento de 85% face ao ano anterior)
Quota de mercado 50% a 60%
Prémios (2010) 182 milhões
Número de agências 56 (em todo o território nacional)
Número de clientes 150 mil
Número de apólices 156 mil (ramo Vida) e 65 mil (Não Vida)
Tipo de seguros automóvel, saúde, acidentes de trabalho (os três mais populares, por ordem de importância), multirrisco habitação, acidentes pessoais, roubo, responsabilidade civil, incêndio, assistência em viagem, vida crédito, transportes, aerotripulações, aeronaves, agro-pecuário, engenharia, estruturas, fronteira, fundos de pensões, marítimo, mineiro, petroquímica
Na parte da manhã participaram 21 pessoas (divididos em três grupos de sete), os líderes de cada processo-crítico do negócio. Nos dois primeiros exercícios práticos pediu-se aos grupos que identificassem e sequenciassem os passos de prevenção e de reacção a uma ameaça ou um incidente. O terceiro exercício foi uma simulação de um incidente concreto (um incêndio na sede) e a listagem dos passos sobre como a empresa deveria lidar com o problema.
Da parte da tarde foi efectuado mais um jogo em que os participantes teriam de escolher qual a probabilidade e o grau de impacto interno da ocorrência de um cenário de risco.
O último exercício foi um teste de escolha múltipla onde dois grupos apenas erraram uma resposta tendo sido necessário fazer a pergunta de desempate para apurar o vencedor.
Foi, em suma, uma forma pedagógica e divertida de reflectir sobre um tema sério. A sessão foi animada por dois gestores seniores da Deloitte: o partner João Frade e o manager (especializado na área de entreprise risk services) Bruno Soares. De referir que este tipo de exercícios são feitos regularmente pelas grandes seguradoras mundiais no âmbito do que se designa como “gestão de crises”.
Segundo os consultores, o modelo usado em Luanda está alinhado com os standarts e as melhores práticas internacionais. “Nós optámos por realizar já este plano de continuidade ainda antes de surgir legislação angolana que os torne obrigatórios.” Mais um exemplo de como o slogan da ENSA “segurando o futuro” se justifica.
“Então o que é que achou?”, perguntava Manuel Gonçalves (cujo nome artístico é “Né Gonçalves”) após a sua emocionante actuação (ele não só cantou, acompanhado pela Banda Voga e o saxofonista Nanutu, como também tocou viola acústica electrificada) no Cine Tropical, no final da gala de atribuição do Prémio ENSA Música. Não é todos os dias que somos questionados pelo presidente de uma maiores empresas angolanas sobre os seus dotes musicais. Manuel Gonçalves é assim mesmo. Descontraído e com um entusiasmo quase juvenil, tão depressa cumprimentava as individualidades e dava ordens ao seu staff sobre a forma como a gala deveria decorrer, como minutos depois despia a postura de executivo e subia ao palco do espectáculo sob uma chuva de palmas da plateia.
“A música na ENSA é um factor de união das pessoas. Nunca tive dificuldade em conciliar esta liderança mais informal e mais próxima das pessoas com a necessidade de rigor e disciplina.” A música corre decididamente nas veias do gestor (diz com orgulho que os seus filhos também tem sensibilidade musical). “Para mim é um poderoso anti-stresse. Tirem-me a música e eu trabalharei de forma menos profissional.” Né Gonçalves ainda pratica viola com a regularidade possível (também faz diariamente natação, outra das suas receitas para fugir ao stresse). Em 1993, chegou a editar o CD “Luanda, Meu Semba” que venceu o Prémio UNAC na categoria revelação. No ano seguinte, a música Menino de Rua foi a canção do ano segundo a Rádio Nacional Angolana (RNA). No mesmo ano teve uma canção incluída na colectânea de música africana de uma editora austríaca. É também dele a autoria da banda sonora do filme Cidade Vazia, de Maria João Ganga e de um spot publicitário do Belas Shopping. O CD da ENSA agora editado (que reúne as melhores músicas a concurso) inclui três faixas da sua autoria, cujas letras são alusivas à própria seguradora. Não surpreende, por isso, que o presidente tenha sido o mentor deste prémio bianual que se propõe descobrir os novos talentos.
A arte é outra das suas paixões. Manuel Gonçalves também é coleccionador (a sua aquisição mais recente foram obras do artista alemão Daniel Sambo-Ritcher, cuja exposição esteve patente no Elinga Teatro). “Foi uma sorte ter vindo trabalhar para uma empresa com esta tradição e compromisso com a cultura angolana.” Embora já seja presidente da ENSA há quatro anos, considera que esta passagem pelo mundo dos negócios é algo transitório.
“Estou emprestado à gestão. A minha verdadeira vocação é a toga”, confessa. Manuel Gonçalves é licenciado em Direito pela Universidade Agostinho Neto e foi o primeiro bastonário da Ordem dos Advogados.
Nascido em Luanda, há 52 anos, tem duas filhas advogadas, facto que o enche de orgulho. Começou a tocar viola com apenas 7 anos e pisou o palco pela primeira vez integrado no grupo infantil Mini Craques do bairro do Prenda. Hoje, como pode testemunhar quem esteve no Cine Tropical, continua craque. Sempre fiel ao semba, o seu estilo de música predilecto.
As comemorações do 33.º aniversário foram marcados por três iniciativas mediáticas: a apresentação dos resultados de 2010 (que incluiu o balanço do processo de reestruturação iniciado há quatro anos); a gala de atribuição do primeiro Prémio ENSA Música e, por fim, a divulgação do “Plano de Continuidade de Negócio” (um plano que permita assegurar a continuidade do negócio caso ocorra um incidente ou um desastre).
O objectivo desse exercício foi, segundo Manuel Gonçalves, “em face de cenários de natureza externa, eliminar com rapidez os obstáculos surgidos e repor o normal funcionamento da empresa”. Só que ao invés de uma mera palestra sobre o tema a seguradora decidiu, com o apoio da consultora Deloitte, realizar uma sessão animada e interactiva que decorreu no Hotel Trópico, em Luanda.
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