Fundos Africanos
Desde o início do ano que o continente africano voltou a preencher as primeiras páginas dos principais jornais de todo o mundo, como resultado das tensões políticas no Norte de África. Primeiro foi a Tunísia, que mergulhou em estado de emergência a 14 de Janeiro, após o Presidente Zine El Abidine Ben Ali, no governo desde 1987, ter abandonado o cargo. Depois foi o Egipto, que desde meados de Janeiro parece estar a sofrer algo parecido à maldição ou “praga de morte” de Tutankhamon, lançada pelo mítico faraó contra aqueles que perturbassem o seu descanso eterno. Seguiram-se vários países da região, em particular na Líbia, onde os conflitos armados, à data de fecho desta edição, ainda persistem.
Igual tendência ocorreu nos principais fundos de investimento que investem em acções africanas. Foi o caso do BPI África e do ES África, dois fundos geridos por Teresa Pinto Coelho e Ricardo Santos, respectivamente, que, em 2010, ofereceram aos seus subscritores ganhos superiores a 24% (o BPI África foi inclusivamente o fundo mais rentável do banco no ano passado). “O contexto era favorável, principalmente o mercado da África do Sul, que teve um óptimo momento em termos de apreciação das acções e de valorização da moeda”, referiu Teresa Pinto Coelho.
Este ano, os conflitos políticos na região produziram danos colaterais. No caso do fundo do BPI Gestão de Activos, actualmente com mais de 46 milhões de euros de activos sob gestão, os primeiros três meses ficaram marcados por uma desvalorização de 9,3%, enquanto o fundo africano da Espírito Santo Activos Financeiros (ESAF) deslizou 13% no mesmo período.
A queda só não foi maior porque os dois gestores se anteciparam à possibilidade de haver uma disseminação da instabilidade política e económica por mais países. O fundo do BPI, por exemplo, optou por, em Março, eliminar qualquer exposição ao Norte de África e o fundo da ESAF tem vindo a reduzir a exposição a esses mercados. No relatório de Fevereiro do ES África, Ricardo Santos refere que “no curto prazo, ainda é expectável alguma volatilidade no Egipto, pela indefinição da situação política, porém sabemos que o caminho para o desenvolvimento não é uma linha recta pelo que teremos de continuar a avaliar os os cenários resultantes da crise.” Neste sentido, será natural esperar que nos próximos tempos os mercados do Magrebe e do Egipto venham a registar novas correcções e a contabilizar a saída de capital dos investidores internacionais.
Isso não significa que o dinheiro sairá do continente. Pelo contrário. “Continuamos a acreditar que as acções são o activo certo para ganhar exposição ao continente africano”, referiu à EXAME John Mackie, gestor do fundo de acções africanas Nordea African Equity. O especialista acrescenta que “é difícil não estar optimista em relação aos mercados africanos do ponto de vista económico”. A confiança de Mackie é confirmada pelas últimas estimativas do Fundo Monetário Internacional que aponta para um crescimento do PIB das economias pan-africanas em 2011 de cerca de 5,6%. Trata-se de “um nível de crescimento muito saudável em comparação com o esperado para a maioria dos mercados”, conclui o gestor do Nordea African Equity.
As opiniões dos especialistas quanto ao futuro de curto e de médio prazos das economias do Norte de África parecem coincidir num sentido bastante positivo. A retórica oficial dos banqueiros, líderes de negócios e dos políticos da região é de que os tumultos serão contidos e dissipados no curto espaço de tempo, não havendo risco de se alastrarem pelo resto do continente.
A agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) concorda que a ocorrência de uma revolta pan-africana concertada e contagiosa é muito baixa. Segundo o relatório da S&P divulgado em Março, “os sinais de contestação nos Camarões, Uganda, Senegal e Angola, tiveram reduzida participação e pouca relevância. Embora alguns dos factores subjacentes que levaram à revolta no Norte de África (rápido crescimento da população, elevado desemprego e governos centralizados) também serem evidentes nalguns países da África Subsariana, acreditamos que as aparentes semelhanças são ofuscadas pelas diferenças vitais”, escreve Ravi Bhatia, analista da S&P.
Danos colaterais no indíce: As acções africanas contabilizaram perdas médias inferiores a 5%, nos primeiros três meses do ano. Hoje já estão novamente a subir
Com um maior grau de optimismo está o presidente da Bolsa do Cairo, Khaled Serry Siam, que, numa entrevista a um programa televisivo local, deixou claro que o mercado de capitais do país e a economia nacional continuam atractivos apesar de estarem a viver momentos de stresse. Serry Siam relembrou, por exemplo, as favoráveis perspectivas de crescimento para 2011 do banco de investimentos Goldman Sachs, que colocou o Egipto entre as próximas 11 economias emergentes. Também a prestigiada revista britânica The Economist, chegou a citar o Egipto como uma das seis melhores economias emergentes da década.
No plano financeiro, John Mackie, do Nordea African Equity, não tem dúvidas de que a maioria dos mercados africanos continua a apresentar oportunidades de grande potencial. “Muitos mercados africanos continuam a negociar acções cujas cotações estão 30% a 40% abaixo dos seus valores máximos em 2007 e 2008.” O gestor acredita que “devido aos seus fundamentais económicos, os mercados africanos têm o potencial de se valorizar em cerca de 10% a 20% este ano.” No que diz respeito às áreas de negócio mais promissoras, os especialistas referem que as maiores oportunidades de investimento estão nos sectores financeiro, mineiro, telecomunicações, infra-estruturas, turismo e consumo.
É essa também a fotografia do portefólio actual da maioria dos fundos africanos. O BPI África, por exemplo, tem como principais apostas o sector financeiro, as matérias-primas e as telecomunicações. No capítulo geográfico, tal como grande parte dos seus concorrentes, apresenta uma forte exposição ao mercado sul-africano, seguido da Nigéria. O fundo do BPI dificilmente repetirá o brilharete de 2010, onde obteve a rentabilidade de 29,5% (24,3% desde o lançamento), um facto que teve honras de campanha publicitária). Mas o optimismo para 2011 mantém-se.
Em entrevista à Exame Angola, Sebastian Kahlfeld, responsável pela
gestão do fundo de acções africanas DWS Invest Africa, revela porque
África enfrenta um ano de enormes mudanças (repleto de eleições
políticas), mas também de grandes desafios. Para o especialista, os
investidores que no início do ano fecharam as suas posições no
continente com receio de que os tumultos no Norte de África pudessem
contagiar os restantes países deverão voltar em breve.
Para os investidores que queiram adoptar uma estratégia de longo prazo, Kahlfeld não tem dúvidas em apontar as infra-estruturas e o consumo doméstico como os sectores que mais beneficiarão com o crescimento económico do continente.
Em termos de implicações económicas, os efeitos nos preços do petróleo saltam à vista. Os países produtores de petróleo como Angola podem, hoje, beneficiar da subida dos preços desta matéria-prima. A inflação do preço dos bens alimentares é também um problema comum a África e ao resto do mundo. Os países cujos níveis de preços no consumidor tenham uma grande exposição a bens alimentares estão a sofrer com este evento. Julgamos que essa pressão poderá ser aliviada ao longo do ano com notícias positivas sobre o desempenho real das economias africanas.
O ano já se avizinhava difícil, mesmo antes dos tumultos no Norte de África, pois em 2011 haverá o maior número de actos eleitorais no continente nos últimos anos. Acreditamos que a volatilidade dos mercados africanos continue elevada, mas esperamos que alguns países tenham boas oportunidades para crescer. Enquanto os preços do petróleo se mantiverem em alta, alguns países da África Subsariana, como Angola e a Nigéria, vão surpreender pela positiva. Consumidores e empresas vão beneficiar disso se os governos cumprirem com as suas promessas de estabilidade económica e redistribuição de riqueza.
O DWS Invest Africa tem uma exposição significativa à Nigéria e, particularmente, aos bancos, que enfrentaram uma tempestade em 2008. Vemos boas oportunidades e avaliações atractivas para estes activos, desde que as eleições na Nigéria decorram de forma tranquila (à data da realização da entrevista ainda não se conheciam os resultados). No longo prazo, cremos que as empresas expostas às infra-estruturas e ao consumo doméstico deverão beneficiar do crescimento económico do continente.
A carência de liquidez e de transparência continuam a ser uma preocupação constante no continente. Esperamos que estas barreiras desapareçam com o tempo, mas não nos podemos esquecer de que se tratam de processos que demoram vários anos. Com empresas a melhorarem e a promoverem-se junto dos investidores de uma forma mais aberta, novos investidores podem vir a interessar-se por estes mercados que geram, sem dúvida, oportunidades de investimento lucrativas.
Conheça melhor a Cuca, com 80% do mercado, dona da Nocal,
Eka, N’Gola, 33 Export e da nova Skol.