Edição nº 15
 

Fundos Africanos

Revolução chegou 
às Bolsas

Publicado a 11-05-2011 12:14:00

Desde o início do ano que o continente africano voltou a preencher as primeiras páginas dos principais jornais de todo o mundo, como resultado das tensões políticas no Norte de África. Primeiro foi a Tunísia, que mergulhou em estado de emergência a 14 de Janeiro, após o Presidente Zine El Abidine Ben Ali, no governo desde 1987, ter abandonado o cargo. Depois foi o Egipto, que desde meados de Janeiro parece estar a sofrer algo parecido à maldição ou “praga de morte” de Tutankhamon, lançada pelo mítico faraó contra aqueles que perturbassem o seu descanso eterno. Seguiram-se vários países da região, em particular na Líbia, onde os conflitos armados, à data de fecho desta edição, ainda persistem.

Alguns mercados estão a negociar as acções africanas com cotações 30% a 40% abaixo dos máximos
Nos mercados accionistas, a Revolução de Jasmin fez-se imediatamente notar, não fosse a Bolsa do Cairo responsável por cerca de 75% dos negócios diários realizados nas praças financeiras africanas (se excluída a Bolsa de Joanesburgo). Depois de um 2010 verdadeiramente explosivo para os investidores, com as suas carteiras a contabilizarem ganhos de dois dígitos, o primeiro trimestre deste ano trouxe uma realidade bem diferente. A agitação política no Norte de África fica espelhada pelo desempenho do índice S&P Pan Africa (veja gráfico), que replica a evolução das acções das 231 maiores empresas do continente. Se em 2010 os títulos africanos registaram uma rentabilidade média de 28,47%, entre Janeiro e Março deste ano, o S&P Pan Africa deslizou 4,8%.

Igual tendência ocorreu nos principais fundos de investimento que investem em acções africanas. Foi o caso do BPI África e do ES África, dois fundos geridos por Teresa Pinto Coelho e Ricardo Santos, respectivamente, que, em 2010, ofereceram aos seus subscritores ganhos superiores a 24% (o BPI África foi inclusivamente o fundo mais rentável do banco no ano passado). “O contexto era favorável, principalmente o mercado da África do Sul, que teve um óptimo momento em termos de apreciação das acções e de valorização da moeda”, referiu Teresa Pinto Coelho.

Este ano, os conflitos políticos na região produziram danos colaterais. No caso do fundo do BPI Gestão de Activos, actualmente com mais de 46 milhões de euros de activos sob gestão, os primeiros três meses ficaram marcados por uma desvalorização de 9,3%, enquanto o fundo africano da Espírito Santo Activos Financeiros (ESAF) deslizou 13% no mesmo período.

A queda só não foi maior porque os dois gestores se anteciparam à possibilidade de haver uma disseminação da instabilidade política e económica por mais países. O fundo do BPI, por exemplo, optou por, em Março, eliminar qualquer exposição ao Norte de África e o fundo da ESAF tem vindo a reduzir a exposição a esses mercados. No relatório de Fevereiro do ES África, Ricardo Santos refere que “no curto prazo, ainda é expectável alguma volatilidade no Egipto, pela indefinição da situação política, porém sabemos que o caminho para o desenvolvimento não é uma linha recta pelo que teremos de continuar a avaliar os os cenários resultantes da crise.” Neste sentido, será natural esperar que nos próximos tempos os mercados do Magrebe e do Egipto venham a registar novas correcções e a contabilizar a saída de capital dos investidores internacionais.

Previsões económicas são positivas

Isso não significa que o dinheiro sairá do continente. Pelo contrário. “Continuamos a acreditar que as acções são o activo certo para ganhar exposição ao continente africano”, referiu à EXAME John Mackie, gestor do fundo de acções africanas Nordea African Equity. O especialista acrescenta que “é difícil não estar optimista em relação aos mercados africanos do ponto de vista económico”. A confiança de Mackie é confirmada pelas últimas estimativas do Fundo Monetário Internacional que aponta para um crescimento do PIB das economias pan-africanas em 2011 de cerca de 5,6%. Trata-se de “um nível de crescimento muito saudável em comparação com o esperado para a maioria dos mercados”, conclui o gestor do Nordea African Equity.

Novas oportunidades no horizonte

As opiniões dos especialistas quanto ao futuro de curto e de médio prazos das economias do Norte de África parecem coincidir num sentido bastante positivo. A retórica oficial dos banqueiros, líderes de negócios e dos políticos da região é de que os tumultos serão contidos e dissipados no curto espaço de tempo, não havendo risco de se alastrarem pelo resto do continente.

A agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) concorda que a ocorrência de uma revolta pan-africana concertada e contagiosa é muito baixa. Segundo o relatório da S&P divulgado em Março, “os sinais de contestação nos Camarões, Uganda, Senegal e Angola, tiveram reduzida participação e pouca relevância. Embora alguns dos factores subjacentes que levaram à revolta no Norte de África (rápido crescimento da população, elevado desemprego e governos centralizados) também serem evidentes nalguns países da África Subsariana, acreditamos que as aparentes semelhanças são ofuscadas pelas diferenças vitais”, escreve Ravi Bhatia, analista da S&P.

Danos colaterais no indíce: As acções africanas contabilizaram perdas médias inferiores a 5%, nos primeiros três meses do ano. 
Hoje já estão novamente a subir

Para os mais optimistas, a agitação política no Norte de África até poderá ser um bom prenúncio para o crescimento económico destes países no longo prazo, pois irá acelerar o processo de reformas estruturais. Foi isso que Masood Ahmed, director do Fundo Monetário Internacional para o Médio Oriente, defendeu em Davos, na Suíça, no decorrer do Fórum Económico Mundial deste ano. Segundo Ahmed, “existe hoje uma crescente preocupação sobre os níveis de desemprego crónico entre os jovens no Médio Oriente, e estes eventos têm mostrado que os governos precisam de enfrentar esse problema”.

Com um maior grau de optimismo está o presidente da Bolsa do Cairo, Khaled Serry Siam, que, numa entrevista a um programa televisivo local, deixou claro que o mercado de capitais do país e a economia nacional continuam atractivos apesar de estarem a viver momentos de stresse. Serry Siam relembrou, por exemplo, as favoráveis perspectivas de crescimento para 2011 do banco de investimentos Goldman Sachs, que colocou o Egipto entre as próximas 11 economias emergentes. Também a prestigiada revista britânica The Economist, chegou a citar o Egipto como uma das seis melhores economias emergentes da década.

No plano financeiro, John Mackie, do Nordea African Equity, não tem dúvidas de que a maioria dos mercados africanos continua a apresentar oportunidades de grande potencial. “Muitos mercados africanos continuam a negociar acções cujas cotações estão 30% a 40% abaixo dos seus valores máximos em 2007 e 2008.” O gestor acredita que “devido aos seus fundamentais económicos, os mercados africanos têm o potencial de se valorizar em cerca de 10% a 20% este ano.” No que diz respeito às áreas de negócio mais promissoras, os especialistas referem que as maiores oportunidades de investimento estão nos sectores financeiro, mineiro, telecomunicações, infra-estruturas, turismo e consumo.

É essa também a fotografia do portefólio actual da maioria dos fundos africanos. O BPI África, por exemplo, tem como principais apostas o sector financeiro, as matérias-primas e as telecomunicações. No capítulo geográfico, tal como grande parte dos seus concorrentes, apresenta uma forte exposição ao mercado sul-africano, seguido da Nigéria. O fundo do BPI dificilmente repetirá o brilharete de 2010, onde obteve a rentabilidade de 29,5% (24,3% desde o lançamento), um facto que teve honras de campanha publicitária). Mas o optimismo para 2011 mantém-se.

As eleições na Nigéria são importantes para a Bolsa

Em entrevista à Exame Angola, Sebastian Kahlfeld, responsável pela gestão do fundo de acções africanas DWS Invest Africa, revela porque África enfrenta um ano de enormes mudanças (repleto de eleições políticas), mas também de grandes desafios. Para o especialista, os investidores que no início do ano fecharam as suas posições no continente com receio de que os tumultos no Norte de África pudessem contagiar os restantes países deverão voltar em breve.

Para os investidores que queiram adoptar uma estratégia de longo prazo, Kahlfeld não tem dúvidas em apontar as infra-estruturas e o consumo doméstico como os sectores que mais beneficiarão com o crescimento económico do continente.

Como é que as tensões políticas 
no Norte de África afectaram 
o comportamento dos mercados 
de capitais do continente?

Sebastian Kahlfeld: “Haverá um número elevado de eleições em África este ano”
Como o mercado egípcio esteve fechado quase dois meses, todos os investimentos no Egipto estiveram congelados até 23 de Março, data em que o mercado reabriu. Nessa altura, muitos investidores começaram a vender acções egípcias e as cotações caíram. Este movimento não foi surpreendente, pois o mercado esperava a reabertura da Bolsa do Cairo com ansiedade. Mas desde que as mudanças em curso nos sistemas políticos não alastrem para sul, pensamos que, mais cedo ou mais tarde, os investidores regressarão.

Quais são as vossas expectativas quanto
a um possível contágio para a economia 
das restantes nações africanas?

Em termos de implicações económicas, os efeitos nos preços do petróleo saltam à vista. Os países produtores de petróleo como Angola podem, hoje, beneficiar da subida dos preços desta matéria-prima. A inflação do preço dos bens alimentares é também um problema comum a África e ao resto do mundo. Os países cujos níveis de preços no consumidor tenham uma grande exposição a bens alimentares estão a sofrer com este evento. Julgamos que essa pressão poderá ser aliviada ao longo do ano com notícias positivas sobre o desempenho real das economias africanas.

Que perspectivas tem para
o continente para o resto deste ano?

O ano já se avizinhava difícil, mesmo antes dos tumultos no Norte de África, pois em 2011 haverá o maior número de actos eleitorais no continente nos últimos anos. Acreditamos que a volatilidade dos mercados africanos continue elevada, mas esperamos que alguns países tenham boas oportunidades para crescer. Enquanto os preços do petróleo se mantiverem em alta, alguns países da África Subsariana, como Angola e a Nigéria, vão surpreender pela positiva. Consumidores e empresas vão beneficiar disso se os governos cumprirem com as suas promessas de estabilidade económica e redistribuição de riqueza.

Quais os países e sectores que, na sua 
opinião, oferecem actualmente as melhores oportunidades de investimento?

O DWS Invest Africa tem uma exposição significativa à Nigéria e, particularmente, aos bancos, que enfrentaram uma tempestade em 2008. Vemos boas oportunidades e avaliações atractivas para estes activos, desde que as eleições na Nigéria decorram de forma tranquila (à data da realização da entrevista ainda não se conheciam os resultados). No longo prazo, cremos que as empresas expostas às infra-estruturas e ao consumo doméstico deverão beneficiar do crescimento económico do continente.

Quais são os principais 
desafios que enfrentam 
hoje os mercados africanos?

A carência de liquidez e de transparência continuam a ser uma preocupação constante no continente. Esperamos que estas barreiras desapareçam com o tempo, mas não nos podemos esquecer de que se tratam de processos que demoram vários anos. Com empresas a melhorarem e a promoverem-se junto dos investidores de uma forma mais aberta, novos investidores podem vir a interessar-se por estes mercados que geram, sem dúvida, oportunidades de investimento lucrativas.



Por: Manuel Cruz
 
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