Edição nº 16
 

Agricultura

O desafio agrícola

Publicado a 22-06-2011 10:43:00

O declínio da produção agro-pecuária angolana parece ter finalmente estancado. De 1975 a 1992, mercê da guerra, o país perdeu a sua posição de grande produtor mundial e passou de exportador a importador da maioria dos alimentos que consome. A contribuição da agricultura para o PIB estava então nos 8% e, com a estabilidade político-militar alcançada em 2002, passou para 10%. Hoje, a economia rural, que engloba a agricultura e agro-pecuária, já é o segundo maior sector produtivo depois do petróleo. O mérito do desenvolvimento agrícola não se mede apenas pelo potencial económico, mas, sobretudo, pelo emprego que absorve — 60% a 70%, ou seja dois terços da população.

Devido à sua inegável importância para o futuro do país, a questão da inovação e desenvolvimento agrícola foi objecto de um seminário organizado pelo Ministério da tutela e a empresa Agromundo.

Marcos Nhunga, director-geral do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), defendeu que o modelo de desenvolvimento do sector deve ser centrado na agricultura familiar e no apoio às comunidades rurais, do qual fazem parte cerca de 2,6 milhões de famílias. Acrescentou que “a agricultura contribui para a eliminação da fome e da pobreza das populações rurais e promove a sua integração no desenvolvimento socioe-
conómico do país”. Em Angola, contudo, ainda é uma actividade de subsistência que gera uma produção limitada de excedentes para comercialização.

Apoio à produção e comercialização


“Quem produz e não consegue vender, não volta a produzir mais”, alerta Afonso Canga, ministro da Agricultura
O IDA, segundo o responsável, tem desempenhado um papel importante no apoio aos pequenos produtores. Marcos Nhunga recordou que, desde 2009, o IDA distribui às explorações agrícolas familiares adubadores e semeadores manuais, que visam a modernização do trabalho no campo.

Para o futuro, o desafio a vencer passa pela promoção e reforço da assistência técnica e, sobretudo, da comercialização dos produtos agro-pecuários. “O objectivo principal é o de interligar a cadeia produtiva com os mercados, de modo a facilitar o escoamento dos produtos. A proposta é que os técnicos possam descer dos municípios para as comunas de maneira a interagir melhor com as populações”, disse.

Para cumprir esse objectivo, o responsável garantiu que além dos quadros que foram recrutados este ano para o Ministério de tutela, serão contratados mais técnicos para reforçar os sistemas de rega nos municípios.

Na sua intervenção de abertura, Afonso Pedro Canga, ministro da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, já tinha colocado a tónica na questão da distribuição. “Quem produz e não consegue vender não volta a produzir mais.”

Além do programa aprovado pelo Governo (que está a ser conduzido pelo Ministério do Comércio) para colmatar os problemas de escoamento da produção, o ministro também chamou a atenção para a importância das obras de reabilitação rodoviária que avançam no âmbito do Programa de Reabilitação de Infra-estruturas Rodoviárias (PRIR).

Parcerias com especialistas mundiais

O ministro reconheceu igualmente que para além do forte engajamento do Executivo em melhorar as práticas de cultivo, a modernização da agricultura exige uma forte troca de experiência com empresas estrangeiras. “Não basta o país ter muita terra e água. É igualmente necessário adoptar novas tecnologias de exploração dos recursos naturais e as melhores práticas mundiais de preparação de terras, sementeira, regadio, colheita e comercialização da produção”, admite, adiantando que “o país se encontra numa fase crítica, pois existe a necessidade de alimentar milhões de pessoas”.

Em consequência, Afonso Canga incentivou as empresas estrangeiras a investirem mais no país e anunciou que o executivo criará novas parcerias público-privadas no sector, com o apoio institucional e técnico dos institutos de Investigação Agronómica e Pesqueiro.  Jorge Jover, director da Agromundo, aproveitou a oportunidade para justificar que um dos objectivos do evento — onde participaram especialistas como a Lonagro, Seedco, Bauer, Plaaske, Syngenta, Afrinet e NWK — foi justamente o de apresentar à tutela algumas empresas estrangeiras capazes de ajudar o Executivo a aproveitar as potencialidades da agricultura angolana. Caso para dizer, oxalá esta semente possa vir a dar frutos.

Mapa do país agrícola

O que se produz em cada região

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Semear hoje, colher amanhã
 

Porque a agricultura tem potencial de crescimento em Angola


Vantagens naturais  Grande disponibilidade de terra arável, solos férteis, clima favorável, recursos hídricos elevados.

Legado histórico  Antes das três décadas de guerra, Angola era auto-suficiente em quase todos as culturas, excepto o trigo. Chegou a ser o quarto maior exportador mundial de café e foi um grande produtor de milho, algodão, cana-de-açúcar, sisal, banana e mandioca.

Potencial de crescimento  Agricultores usam menos de 10% dos 35 milhões de hectares de terra arável disponível; apenas 3,5% das terras com potencial de irrigação estão a ser irrigadas; crescimento anual da produção (por exemplo, milho ou feijão) estão abaixo do crescimento demográfico; apenas 46% 
da procura de alimentos são abastecidos pela produção nacional (56% resultam da importação).

Casos inspiradores...

Projecto agro-pecuário do Cacanda, na província de Lunda-Norte, poderá proporcionar 10 mil postos de trabalho após a conclusão, ainda este ano, das obras de reabilitação em curso, adjudicadas à empresa israelita grupo LR (veja EXAME n.º 13). Num investimento de 29 milhões de dólares, com 10 mil hectares de área de exploração, o projecto contará seis aviários, uma sala de selecção e conservação de ovos, uma nave para estufa, uma fábrica de rações, um matadouro industrial, um centro de formação, um posto clínico, um refeitório e residências para os técnicos. Localizada a 4 quilómetros da capital da província de Lunda-Norte, a reabilitação da Fazenda Cacanda, já está em 70% da sua implementação. Prevê-se que o projecto estará concluído no início de 2012.


Rede Camponesa é um projecto de âmbito social do grupo angolano Drago vai criar e gerir a primeira rede franchising de agro-negócios no continente africano. Gentil Viana, administrador da Rede Camponesa, explica que umas das vantagens do projecto consiste na expansão em franchising de uma vasta rede de franchisados (donos de uma loja Rede Camponesa) que vão adquirir e depois colocar no mercado a produção dos pequenos camponeses de cada província. O projecto prevê a construção de parques industriais e logísticos em várias províncias, dispondo de armazéns, escritórios, silos e mercados. Dois destes parques encontram-se já em construção. O primeiro deles situa-se em Lunda-Norte. O outro será na própria sede do projecto, na Estrada de Cacuaco, em Kifangondo, em Luanda, num terreno de 8 hectares, com uma área coberta de 23 mil metros quadrados, repartidos por armazéns, escritórios, lojas, supermercado, armazéns de frio, oficina de pesados, mercado rural e estação de combustíveis.

Projectos marcantes

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Por: Adão Gil
 

Comentários

  1. Domingos gonga
    2011-12-19 10:41:23
    Gostei das intervençoes do director do IDA E O Sr. Ministro, é obvio de que quem produz e nao consegue vender na proxima zafra fica desmotivado e assim corre se o risco dos agricultores de diminuir significativamente as areas trabalhadas
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