Canadá
Cinema imax
em Toronto:
Em 2006, a empresa estava à venda.
O negócio só não se realizou devido à falta de interessados
A história recente da empresa canadiana Imax daria um filme de Hollywood. Na última década, a empresa especializada na exibição de filmes 3D de alta qualidade, projectados em ecrãs gigantes de 36 metros de comprimento por 30 de altura, foi colocada à venda em duas ocasiões. Os negócios só não foram fechados porque não havia compradores interessados. Criada em 1971 e especializada em documentários sobre a exploração espacial e a natureza, filmados com câmaras especiais Imax, a empresa parecia seguir o argumento clássico de uma inovação tecnológica sem qualquer interesse comercial.
Até 2008, os prejuízos repetiam-se ano após ano. A partir daí, porém, as receitas de bilheteira dos cinemas Imax triplicaram, atingindo 600 milhões de dólares, e o valor das suas acções foi multiplicado por dez. A primeira das grandes mudanças que ajudaram a tirar os canadianos do buraco aconteceu em 2002. A empresa desenvolveu um processo para converter filmes convencionais, de películas de 35 milímetros, em 70 milímetros sem perder qualidade, o que aumentou o seu catálogo. Mas foi só cinco anos depois que o departamento de investigação e desenvolvimento conseguiu dar a notícia que os gestores de topo esperavam há anos: a entrada do Imax no mundo digital, com a mesma qualidade.
Antes cada cópia em película de um filme Imax de 45 minutos pesava 180 quilos e custava 7 mil dólares. O equipamento de projecção pesava 2 toneladas. Com a tecnologia digital, cada cópia passou a custar 30 dólares e a pesar menos de 1 quilo. O custo para montar uma sala com projectores 3D Imax caiu de 7 milhões para menos de 1 milhão de dólares. “Era o que Hollywood estava à espera para entrar nesse mercado”, afirma Jim Goss, analista especializado no mercado de entretenimento da Barrington Research.
Antes da passagem da película para o digital, já Hollywood tinha vivido uma experiência marcante para a nova era dos ecrãs gigantes. Em 2003, o filme Matrix Reloaded foi o primeiro de um grande estúdio a estrear simultaneamente no formato Imax e no convencional. “Nessa altura ainda não tínhamos massa crítica para bater recordes nas bilheteiras. Facturámos apenas 14 milhões de dólares, mas conseguimos mostrar ao mercado que o formato Imax funcionava para filmes repletos de efeitos especiais como foi o caso de Matrix”, diz Geoff Atkins, vice-presidente da Imax.
Cinco anos depois, já com a revolução digital em curso, o realizador Christopher Nolan (recentemente galardoado nos Óscares com A Origem) foi pioneiro em filmar com câmaras Imax grande parte das cenas de Batman, O Cavaleiro das Trevas. “As receitas de bilheteira não eram o mais importante: nós procurávamos — e julgo que conseguimos — causar impacto no público. A repercussão foi incrível”, diz Dan Fellman, director comercial dos estúdios Warner Bros, nos Estados Unidos.
“O realizador James Cameron não faria o filme se não existisse o Imax, e a Imax não estaria onde está hoje, se não fosse Cameron. Foi a união da arte com a tecnologia, com um resultado fabuloso para o negócio”, afirma Jon Landau, produtor de Avatar. Actualmente, os estúdios disputam a oportunidade de estrear um filme no Imax — a pequena quantidade de salas faz com que apenas 20 longas-metragens sejam exibidos por ano.
Mesmo após a expansão recente da tecnologia, há apenas 650 salas de cinema 3D no mundo. Elas foram responsáveis por 25% dos 400 milhões de dólares arrecadados pelo filme Tron: O Legado, da Disney. “A taxa média de ocupação da sala Imax é de 80%, enquanto nas salas convencionais é de 30%”, diz Ademar Oliveira, responsável pela sala Imax de São Paulo. E essa não é a única vantagem em termos do negócio. O bilhete para ver as imagens em 3D é mais caro, mas o custo de operação da sala é o mesmo das convencionais.
O crescimento e a promessa de ganhos atraíram a atenção de Wall Street. Especula-se que a Sony e a Disney estariam interessadas em comprar a Imax. Os executivos da empresa, antes rejeitada e hoje desejada, fazem-se “caros”. Dizem que a alienação da empresa, atrapalharia a sua relação com os estúdios concorrentes. O sucesso da tecnologia Imax já chegou ao promissor mercado asiático. O primeiro filme não americano que usou o formato — o chinês Aftershock — está em cartaz nas 38 salas Imax na China. Para uma empresa que até há bem pouco tempo não valia quase nada, esta “reviravolta” parece ser uma história com um final feliz.
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