Edição nº 18
 

Ciência política

A história venceu

Ele ficou mundialmente conhecido, em 1992, quando publicou o livro O Fim da História e o Último Homem, que se tornou rapidamente um best-seller global. O sociólogo americano (de origem japonesa) Francis Fukuyama defendia que com o avanço da democracia como sistema político dominante em todas as nações do mundo, poder-se-ia dizer que a história estava na fase final do seu sistema evolutivo.

Com esta tese simples, o autor conseguiu algo ra­ríssimo no mundo académico. Tornou-se um autor popular na área da ciência política e uma personalidade pop no soporífero meio da sociologia. O legado do referido livro rendeu-lhe uma fortuna. Quando se mudou para Palo Alto, na Califórnia, onde dá aulas de Estudos Internacionais na prestigiada Universidade de Stanford, Fukuyama comprou uma mansão mais ao estilo dos milionários da internet do que ao de um simples professor universitário. A fama tem as suas vantagens.

Mas também tem um preço. Com a obra, Fukuyama ganhou o ódio eterno da esquerda mundial, que o vê como o mentor intelectual de ícones dos neoliberais como Ronald Reagan ou Margaret Thatcher.

 A sua tese do “fim da história” é frequentemente ridicularizada nos meios intelectuais, sobretudo após a eclosão da crise financeira nas principais economias do mundo e a ascensão de países emergentes como a China (que está longe do modelo das democracias liberais). Nos últimos anos, Fukuyama tem sofrido igualmente severas críticas à direita. O seu distanciamento das figuras-chave do establishment da era Bush é visto como uma traição aos falcões da política externa americana. Em entrevista recente à Newsweek, Fukuyama não poupou o Partido Republicano, considerando-o “um deserto de homens e de ideias”. Nas suas palavras, “o sonho de exportar a democracia e a economia de mercado pela força do Exército só produziu mais antiamericanismo”.

As suas críticas, na verdade, vão mais longe. Fukuyama acredita que, ao contrário da China que revela uma invejável capacidade de adaptação, os Estados Unidos estão prisioneiros de um ambiente político polarizado e extremamente rígido. O fenómeno é ainda mais estranho num país que sempre foi famoso pela existência de diferentes pólos de poder e pela capacidade de resposta da sociedade aos novos desafios.


A vitória do modelo ocidental  

Para alguém tão citado (e criticado), Fukuyama é paradoxalmente pouco lido. Quase 20 anos depois, a tese central do livro O Fim da História parece incrivelmente actual. Dizia Fukuyama que, com o colapso do comunismo, a procura por um modelo moderno de sociedade havia chegado ao fim. Democracia e economia de mercado seriam a melhor combinação — e é só nesse sentido que, segundo Fukuyama, a história havia terminado.

Ele nunca afirmou, justiça lhe seja feita, que esse modelo de economia e política seria necessariamente abraçado por todos. Cada país é senhor do seu destino, e é provável que coexistam formas alternativas de organização. Nem mesmo a China, com o seu incrível poder e capacidade económica, consegue galvanizar o mundo na luta pelos corações e as mentes. A discussão, hoje, é até quando os chineses vão aceitar viver sob uma ditadura — e não quando os americanos, franceses, alemães, indianos, brasileiros ou africanos abraçarão o totalitarismo. Até onde a vista alcança, o modelo ocidental ainda reina sozinho.

Por isso mesmo, diz Fukuyama, a pergunta mais interessante agora não diz respeito ao futuro. Falta entender a nossa caminhada até aqui. No seu novo livro, The Origins of Political Order (As Origens da Ordem Política), ele tenta explicar como os homens evoluíram das suas origens tribais para os complexos arranjos políticos da actualidade.

Numa era em que os académicos se tornaram mais especialistas e menos generalistas são cada vez mais raras as chamadas “metanarrativas”, explicações mais amplas dos fenómenos sociais. É isso que propõe Fukuyama — o subtítulo do livro, “Dos tempos Pré-Humanos à Revolução Francesa”, ilustram o fôlego da empreitada (os dois últimos séculos serão analisados num segundo volume). Trata-se de  um tributo à história humana, curiosamente empreendido pelo homem que ficou conhecido por anunciar o seu fim.

As origens do Estado

O primeiro passo rumo aos governos — tal como os conhecemos actualmente — deu-se com a passagem dos bandos às tribos. O salto, porém, viria com a China. Mais precisamente com a dinastia Qin, iniciada em 221 a. C., quando cerca de 10 mil indivíduos passaram a viver sob um mesmo Estado. Esse foi, segundo Fukuyama, o embrião do longo caminho até chegarmos ao modelo actual. A força motriz foi a necessi­dade de financiar guerras.

Com uma erudição à altura da sua fama, o autor disseca o funcionamento das sociedades em locais diversos, da ­Índia ao Islão, do Império Otomano à Europa. O sucesso virá, acredita Fu­kuyama, na combinação exacta de três elementos: a criação de um império da lei que se estenda a todos os cidadãos; o surgimento de um Estado forte; e um equilíbrio tal que o governante seja submetido a alguma prestação de contas dos seus actos (embora isso não suceda neces­sariamente pela via eleitoral).

Parece uma fórmula óbvia, mas Fukuyama relembra que foram necessários alguns milénios ­para que o homem chegasse a estes princípios, primeiro na Inglaterra, depois na Di­namarca e, aos poucos, nos demais países da Europa. A dificuldade é que os três elementos entrelaçam-se, mas isso nem sempre acontece de forma virtuosa.

Por exemplo, a formação de um Estado forte, uma peça vital na ordem política, gerou muitas vezes governantes excessivamente poderosos, uma violação dos dois outros elementos necessários para um go­verno moderno. Uma constante da história, aliás, é o surgimento de grupos de interesse que, aos poucos, conseguem submeter o resto da sociedade e aniquilam as suas hipóteses futuras de prosperidade.

Uma história sem fim

Um dos males de tantos países do mundo não é exactamente a dificuldade de enquadrar os governantes na lei? Nesses países, os grupos de interesse não são frequentemente mais poderosos do que o próprio Estado? Criar instituições que favoreçam o crescimento, abrindo espaço para a criatividade humana, não é, talvez, o maior desafio das sociedades? Estes são temas recorrentes na história que se mantêm actuais.

Fukuyama discorre ao longo de muitas páginas sobre o problema do “mau imperador”, um dilema sempre presente nas sociedades autoritárias. Como garantir que um governante que não está submetido ao escrutínio popular tome medidas correctas? Talvez seja esse o desafio actual dos chineses, que durante muito tempo viveram sob um “mau imperador”, Mao Tsé-tung. (Em entrevista recente, Fu­kuyama mostrou-se relativamente optimista quanto à China por julgar que os governantes são muito mais sujeitos aos humores do seu povo do que julgam os ocidentais). Curiosamente, Fukuyama recorda que aos momentos de auge do passado sempre se seguiram períodos de declínio. Logo ele acaba por confessar que a história, afinal, dificilmente terá um fim.

The Origins of Political Order
 

Editora  
P. Farrar, Straus and Giroux, 585 págs.

Autor  
Francis Fukuyama


A história política foca-se 
em dois temas: os esforços 
para criar um Estado impessoal
livre de tribalismos e alianças familiares 
e a luta — por vezes sangrenta — entre as elites poderosas 
que conseguem apropriar-se do Estado e bloquear as reformas. Paradoxalmente o primeiro modelo de um Estado 
moderno sucedeu na China durante a dinastia Qin.

Por: André Lahóz
 
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