Bancos
Não é todos os dias que podemos ver reunidos à mesma mesa os responsáveis dos maiores bancos nacionais (BAI, BFA, BESA, BIC e Millennium) acompanhados pelo vice-governador do Banco Nacional (António André Lopes) e o presidente da Associação Angolana de Bancos (Amílcar Santos). O jornal Expansão está, por isso, de parabéns pela realização do 1.º Fórum Banca que decorreu no Hotel Trópico, no mês passado.
EMíDIO PINHEIRO, do BFA: “Contratar consultores externos é muito caro, mas é igualmente caro recrutar e manter os melhores quadros nacionais”
O perigo de uma iniciativa deste género seria o dos oradores optarem pelo elogio mútuo e pelas projecções optimistas. Felizmente isso não sucedeu. Os intervenientes abordaram com clareza, quer as virtudes quer os constrangimentos da actividade bancária. Entre eles, houve unanimidade na maioria dos pontos, mas também houve discordância (e até provocações). O público também participou activamente. Que mais se pode querer de um seminário?
No que diz respeito aos constrangimentos, um dos mais apontados foi a tecnologia. O problema não está do lado da procura. Os oradores foram unânimes em considerar que os clientes angolanos aderem muito rapidamente aos novos serviços. Emídio Pinheiro, deu como exemplo o internet banking do BFA. Luis Lelis referiu que a adesão ao mobile banking, lançado pelo BAI em Maio, foi surpreendente. “A banca em Angola é moderna. Os maiores bancos de Angola fazem tudo o que de melhor se faz na Europa. Por exemplo, o BIC, três meses depois do lançamento, já
LUiS LELIS, do BAI: “Custos com as comunicações são elevados. É preciso entrarem mais operadores e aumentar a largura de banda”
O problema que falta resolver está no custo associado a esses serviços. “Ainda há lacunas básicas ao nível das infra-estruturas”, disse Emídio Pinheiro. Fernando Teles queixou-se, sobretudo, da factura. “Há balcões que trabalham com três fornecedores de telecomunicações em simultâneo. Quando um vai abaixo ligamos o outro. Por vezes, nenhum funciona. Precisamos que a fibra óptica chegue a todos os lares de Angola.” Luis Lelis também referiu que as telecomunicações são um dos custos mais altos do banco. “É preciso entrar mais operadores e aumentar a largura de banda”, sugeriu.
Um segundo constrangimento é relativo aos recursos humanos. “Contratar consultores externos é muito caro, mas é igualmente caro manter os quadros nacionais”, disse Emídio Pinheiro. Fernando Teles queixou-se inclusivamente do “roubo” de colaboradores. “Muitos quadros, sobretudo nas províncias, estão a ser aliciados pela concorrência. Felizmente alguns até nos interessa que saiam”, afirmou divertido. Para resolver o problema da escassez de quadros qualificados a solução está na formação. A esse propósito Luis Lelis referiu que o BAI vai inaugurar ainda este ano uma academia de formação. “É um investimento superior a 30 milhões de dólares que, em três a quatro anos, pode tornar-se um instituto superior.” Manuel Reis acrescentou que o BESA também está, neste momento, a construir um centro de formação de raiz.

No que diz respeito aos desafios os oradores elegeram o crescimento como prioridade. Fernando Teles defendeu que “a banca tem de estar presente em todos os municípios de Angola”. O seu banco, segundo referiu, está a dar o exemplo, dado que possui a maior rede da banca privada. Porém, na sua opinião, faltam incentivos do Estado à presença nos municípios mais longínquos. “Nos primeiros anos, esses balcões darão prejuízo. Mas é do interesse do Estado em que haja, pelo menos, um banco em cada município.” Acusou também alguns concorrentes de abrirem balcões em locais onde já existe oferta bancária. “Se abrirmos todos no mesmo sítio não haverá dinheiro para todos”, rematou com humor.
JOSÉ REINO COSTA, do MILLENNIUM: “Balcões tendem a tornar-se pontos de aconselhamento”
Recorde-se que na intervenção inicial, Amílcar Santos, presidente da associação do sector, referiu que o nível de bancarização atinge actualmente os 20% da população activa e 10% da população total. “Mais de 50% dos municípios do país já contam com mais de uma agência bancária”, garantiu.

MANUEL REIS, do BESA: “O crescimento da banca virá de outros segmentos como o sector não petrolífero e o interior do país”
Outro desafio importante é a internacionalização. Neste ponto, as opiniões divergiram entre os representantes de bancos que já têm, ou não, um grupo internacional como accionista de referência. No primeiro grupo, Emídio Pinheiro, do BFA, defendeu que a prioridade não é a abertura de bancos noutros países, mas, sim, ser parceiro nos mercados financeiros internacionais. “Os resultados do rating para Angola foram positivos. Mas o ambiente ainda é muito doméstico. Não podemos viver apenas dos depósitos dos nossos clientes.” Manuel Reis, do BESA, também considera importante as parcerias com a banca internacional nas operações de funding e na adopção das melhores práticas internacionais relativas aos acordos de Basileia.
Emídio Pinheiro salientou ainda mais dois desafios estratégicos: a regulamentação e a inovação. A primeira questão já tinha sido abordada na intervenção inicial de António André Lopes, vice-governador do BNA, que enunciou as medidas recentes aprovadas pelo Banco Central que visam a “desdolarização” da economia e o aumento da liquidez do kwanza.
Entre essas normas estão o impedimento da concessão de crédito de curto prazo (para consumo, compra de automóvel ou microcrédito) em moeda estrangeira; a imposição de um rácio de solvabilidade regulamentar (aumentando a ponderação dos capitais em moeda estrangeira); a redução do coeficiente das reservas obrigatórias em moeda nacional (de 25% para 20%); a redução da taxa de redesconto (hoje nos 20%) de forma a fazer baixar as taxas de juro e, por fim, o programa de educação financeira (uma campanha publicitária está em curso nos media) que visa o aumento da taxa de bancarização.
José Reino defendeu que os bancos podem tirar partido dessa tendência criando comunidades on-line, através da quais poderão fazer testes para o desenvolvimento de novos produtos. Outra alternativa é apostar em campanhas virais de marketing (citou o exemplo da campanha do Millennium na Polónia baseada em vídeos feitos por clientes no You Tube) e melhorar a conveniência do serviço. O responsável recordou ainda que, segundo as estatísticas internacionais, as vendas de smartphones vão ultrapassar as de computadores já em 2012. “Nos países mais desenvolvidos os clientes raramente vão aos balcões que hoje se transformaram em pontos de aconselhamento. O self-service — internet ou mobile banking — está a ser mais usado do que os call centers. Isto muda os critérios de segmentação dos bancos outrora mais voltados para o património do cliente e que hoje devem ser mais focados no modo como o cliente contacta com o banco”, alertou.
Num país onde os bancos ainda não chegam a todos os municípios do país talvez este cenário seja demasiado futurista. Mas os angolanos já provaram que são muito rápidos na adopção das novas tecnologias. Convém, por isso, estarmos atentos às tendências do sector. Até porque, conforme sustentou João Pedro Tavares, da Accenture, “o sector bancário angolano tem uma oportunidade de hipercrescimento. Mas para isso o seu sistema financeiro terá de ser do século xxi.”
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