Capa BIC
Em Março de 2012 será celebrado o contrato de compra do Banco Português de Negócios (BPN) pelo BIC, no valor de 40 milhões de euros. Com a conclusão do processo, o logótipo do banco angolano será visível em 175 balcões em Portugal. Para Fernando Teles, presidente do banco de capitais luso-angolanos, fundado em 2005, a compra do BPN permitirá estará mais “próximo de outros mercados europeus fazendo a ponte entre Angola e o resto do mundo”. Após esta mediática aquisição o BIC já espreita os passos seguintes. A prioridade está nos países vizinhos de Angola. Segundo Fernando Teles, numa primeira fase já foram feitas prospecções de mercado nos dois Congos, Namíbia, Zimbabué e África do Sul. “No próximo ano, já deveremos anunciar novidades”, promete. Ainda este ano poderá haver outra aquisição em perspectiva. O BIC já se mostrou interesse na aquisição do BPN Brasil. A criação de uma offshore em Cabo Verde é outro cenário provável.
A mesma ambição de crescimento também é patente em Angola. Fernando Teles inaugura no final deste mês a nova sede do banco, um edifício de dez pisos, em Talatona (Luanda-Sul). A pensar no futuro também já foi adjudicada a construção de uma moderna torre na Mutamba (baixa de Luanda) de 31 andares, que será a futura sede. As novidades não se ficam por aqui. A estratégia de crescimento prevê a abertura, ainda este ano, de mais 30 balcões, elevando o número total para 173 agências. A cobertura nacional “mesmo em municípios onde não teremos rentabilidade”, é uma bandeira do banco liderado por Fernando Teles, que assume a ambição de lutar pela liderança do mercado (segundo a Deloitte o BIC está em quarto lugar com uma quota de mercado de 12,85%).
O objectivo principal foi a compra da rede de balcões que nos permite aumentar a presença do BIC em Portugal, passando a ser um banco com uma rede de retalho. Vamos estar mais perto da clientela angolana e apoiar as empresas portuguesas que trabalham com Angola. Outra vantagem tem que ver com os expatriados que trabalham em Angola. Nós só tínhamos sete agências em Portugal e isso era uma limitação para que eles abrissem contas connosco.
Tinha a sensação de que o Estado não tinha grandes alternativas devido ao momento que a economia portuguesa e europeia atravessa. Mas a principal razão de confiança é que nós somos um banco com capacidade e credibilidade para vir a ressuscitar o banco.
Eu acho que não há valores baixos, nem elevados. Há valores negociados e valores de mercado. Fizemos uma proposta que foi discutida intensamente durante cinco dias e estes foram os valores a que chegámos. Nós temos consciência de que hoje, com a crise global, o mercado europeu não é muito aliciante para se investir. Mas é nessas alturas que se podem fazer os melhores investimentos.
Nós fizemos um acordo de princípio e agora estamos a formalizar o contrato. O problema é que a proposta que recebemos da parte do Estado português inclui alguns pontos que não foram previamente discutidos durante a negociação.
A distribuição de dividendos nunca tinha sido abordada. Penso que a cláusula não faz sentido, pois já existe o compromisso de pagarmos um prémio se os lucros forem superiores a 60 milhões de euros, nos próximos cinco anos. A compra de acções por parte dos trabalhadores só foi introduzida no último dia da negociação. A lei prevê que possamos recomprar esses 5% de capital. Se isso acontecer, não haverá qualquer problema. Nós só queremos manter a mesma estrutura accionista em Portugal e Angola.
Estou certo que sim. Nós temos urgência em fechar o negócio até porque temos a consciência de que a situação do banco se vai degradando. Estamos inclusivamente disponíveis para pagar de imediato o valor acordado com o Estado português.
Isso é um assunto que ainda está em análise. Aquilo que propomos é que das 220 agências do BPN, ficar, no mínimo, com 175. Aliás nós vamos ficar com todas e depois escolher, entre aquelas que tenham menor rentabilidade, as que terão de encerrar. Temos uma ideia de quais são, mas ainda não há uma decisão definitiva.
Temos excelentes relações com a administração do Montepio. É possível que, a posteriori, lhe possamos ceder alguns balcões. Do mesmo modo que podemos ficar com alguns balcões do Montepio, resultantes da aquisição do Finibanco. Há abertura dos dois lados para que esse tipo de acordos possam acontecer.
Quem está no mercado tem de estar atento às oportunidades.
Para já não estamos cotados. Mas é possível, que a prazo, possamos vir a estar, tanto em Portugal como em Angola (quando a Bolsa for criada). É uma decisão que cabe aos accionistas. Recentemente o Bic Angola foi avaliado por um banco suíço que gostaria que alienássemos 25% do capital em Londres.
As firmas angolanas podem beneficiar muito com as aquisições em Portugal. Só se está a falar das privatizações de grandes empresas. Mas há pequenas fábricas que estão em dificuldades e podem ser direccionadas para produzir para o mercado angolano. Há clientes nossos que têm comprado empresas com esse objectivo. Portugal é um país com bons técnicos. Angola precisa de instalar novas fábricas e esse know-how pode ser importante.
Nós temos fundos para continuar a investir em Angola. Tanto o banco, como os seus accionistas têm grandes investimentos em curso. Ainda recentemente fomos desafiados para apoiar o credito à habitação na nova cidade do Kilamba Kiaxi e nós estamos disponíveis. Temos liquidez tanto em Angola como em Portugal.
Sim. Onde houver boas oportunidades de investimento nós vamos continuar a explorá-las. Sobretudo os países africanos vizinhos de Angola e eventualmente o Brasil são hipóteses em aberto...
A prioridade consiste em abrir bancos, ou sucursais, nos países limítrofes de Angola. Já estamos a estudar a presença nos dois Congos, Zimbabué, Namíbia, Cabo Verde e África do Sul.
A Namíbia e o Zimbabué. Mas acredito que há uma enorme oportunidade nos dois Congos. O Congo Democrático possui mais de 60 milhões de habitantes e só tem agências nas grandes cidades. O mesmo se passa no Congo Brazzaville. Eu já reuni com os ministros das Finanças dos dois países e existe abertura. O capital inicial não é elevado, o problema é a estabilidade dos dois países. O Zimbabué entrou em descalabro, tem uma inflação elevada e só está a usar o rand e o dólar. Os bancos estão descapitalizados.
Estamos a analisar. Contratámos recentemente o Luís Pisoeiro, um quadro experiente que trabalhou no BAI, BNI e KPMG, que será assessor do presidente para a área da internacionalização. Para fechar negócios dessa envergadura temos de ter quadros à altura. Ele ficou de apresentar um estudo detalhado já no próximo mês. A seguir nós vamos ao terreno e começamos a tomar decisões.
No próximo ano, vamos anunciar novidades. Podemos inclusivamente avançar em duas ou três frentes em simultâneo. Por exemplo, criar uma offshore em Cabo Verde é um processo rápido. Criar um escritório de representação na África do Sul também. Criar um banco comercial já é algo um pouco mais demorado, mas tudo depende dos quadros locais que viermos a contratar.
Ainda hoje conversámos sobre isso na reunião do conselho de administração. Há três anos, o empresário Américo Amorim falou-nos da oportunidade de lançar o banco Único e na altura não avançámos. O problema é que o BIC não tinha nenhum quadro experiente dedicado a tempo inteiro a essa área. Agora já temos.
Estamos a estudar o BPN Brasil (banco participado pelo BAI em 20%), que também está a venda. Creio que há outro candidato, mas nós já demonstrámos o interesse na operação. Trata-se de um banco pequeno, com poucas agências e problemas por resolver. Mas poderia ser uma forma de entrar no Brasil. Estamos a olhar para os números e vamos apresentar uma proposta rapidamente.
Somos um banco que tem consciência de que tem ao seu lado uma Angola a crescer. Temos mais de 600 mil clientes. Somos um dos bancos de referência e o principal banco dos importadores angolanos. Somos o privado com a maior rede de agências ao nível dos municípios. Estamos em todo o país, não apenas nas capitais de província. Temos 143 agências e este ano vamos abrir mais 30. Temos também uma nova sede, um edifício de dez pisos em Luanda-Sul, que foi inaugurado este mês..
O investimento foi de 15 milhões de dólares. O objectivo é o de centralizar operações. Nós estávamos espalhados por sete edifícios em Luanda. Cremos que assim vamos ganhar eficiência. Por outro lado, nos espaços agora desocupados, vamos criar novos centros de empresa. Além dos 14 centros que já temos, vamos criar mais cinco. E a área do private banking, além do escritório em Alvalade, vai ter uma extensão em Luanda-Sul.
Sim. Esta será a sede provisória para os próximos três a quatro anos. Mas a futura sede será no centro de Luanda. Estamos neste momento a adjudicar a obra, um edifício moderno com 31 pisos.
Queremos estar nos principais municípios do país e nos arredores de Luanda, nos locais onde ainda estamos presentes ou não somos suficientemente fortes. Acredito que a banca deve estar próxima dos clientes. Claro que vai haver um momento em que o atendimento personalizado será mais importante do que a expansão da rede. Mas as novas agências que estamos a construir já têm balcões mais pequenos para apenas quatro ou cinco colaboradores. A tendência é estar em mais locais, com menos trabalhadores.
Já falei com o governador e ele está sensível para o tema. O Governo pode cobrar menos impostos a quem crie balcões nos municípios menos rentáveis. Ou condicionar o licenciamento de agências nas grandes cidades à abertura nos municípios mais desfavorecidos.
Há clientes importantes onde não estamos. Por exemplo, ainda não conseguimos entrar no sector dos petróleos. As multinacionais, em regra, só trabalham com bancos que tenham mais de cinco anos de actividade. Eu tive essa experiência no BFA. Só ao fim de cinco anos é que tivemos o primeiro cliente dos petróleos.
O crédito utilizado pelos clientes é de 2,4 mil milhões de dólares. Temos ainda mais crédito aprovado, cerca de 600 milhões a 700 milhões de dólares, que não foi utilizado. Isso significa dizer que nos propusemos a financiar novos edifícios, novos hospitais, novas clínicas, novos hotéis e essa verba já está comprometida. Por outro lado, somos um banco com 4,4 mil milhões de dólares em depósitos. E temos fundos próprios que ultrapassam os 600 milhões de dólares. Nos primeiros quatro anos o banco não distribuiu lucros. O dinheiro que os accionistas ganharam foi investido no banco. Os números mostram que temos uma boa saúde financeira e uma boa gestão. Por isso temos condições para continuar a crescer.
Nós estamos em quase todos os sectores de actividade. Estamos na agricultura e na pecuária, no crédito habitação, no crédito imobiliário. Basta ver quantos prédios em Luanda têm a placa do BIC como banco financiador.
Somos um banco construído com angolanos. Em 1350 trabalhadores, temos apenas nove expatriados. Sempre que nós conseguimos eliminar mais um expatriado e pôr mais um angolano no quadro, nós fazemos isso. Não quer dizer que não tenhamos cá um expatriado ou outro para funções que não haja know-how em Angola. Mas somos um banco que privilegia e dá emprego aos angolanos...
Se me perguntar: mas vocês fazem tudo bem? Com certeza que não fazemos tudo bem. Há-de haver um cliente ou outro que diz que o atendimento podia ter sido melhor. A verdade é que nós damos emprego a muita juventude. Nós temos uma média etária de 26 a 27 anos. Quase todas semanas admitimos pessoas. Ainda hoje recrutámos um ex-futebolista em Portugal, que regressou a Angola e já tem mais de 30 anos. Este ano, já admitimos 200 quadros e vamos admitir mais, porque temos muitos balcões em obras.
Tem sido muito útil. Se tivermos uma dificuldade numa determinada área, nós sabemos onde é que está um quadro que nos pode vir apoiar. E esse quadro não precisa de viver em Angola. Basta vir cá uma semana ou duas para resolver problemas. Sobretudo em áreas mais problemáticas, como a informática ou auditoria, ou onde há inovação e são necessários técnicos para as introduzir. Além disso, nós fazemos muito intercâmbio. Enviamos os nossos elementos directivos, os nossos gerentes para fazer formação lá fora. E os de lá de fora também vêm conhecer o funcionamento do país. Por exemplo, quando um angolano chega a Portugal de férias, ou em trabalho, pode ser recebido por alguém que já o conhece. O meu principal adjunto em Angola, hoje é administrador do BIC em Portugal. Está lá para receber a comunidade angolana que chega e quer ser atendida por uma pessoa que conhece a empresa e que pode resolver os problemas mais facilmente.
Temos apoiado inúmeros projectos. Vou dar só dois exemplos: o Hotel Skyna, foi financiado pelo banco BIC. A principal fazenda de Cacuso (tem mais de 5 mil cabeças de gado) é financiamento BIC. Se falar com os empresários de Huíla conclui que grande parte dos fazendeiros tem créditos nossos. Idem em Benguela. Temos quadros que conhecem muito bem a realidade do país. Eu próprio cresci em Angola. Fiz aqui a tropa. Comecei a trabalhar na banca no país, quando tinha apenas 14 anos, em 1966.
O Ministério da Agricultura está a fazer um grande esforço para fixar as populações. Mas para lá chegar vamos ter de ensinar mais as pessoas. Foram muitos anos de guerra em que todos desaprendemos. Nós temos terras férteis, mas falta gente capaz de tirar partido delas. Infelizmente as pessoas que tinham esse conhecimento vieram para as cidades. Passaram a ser comerciantes ou funcionários públicos, que ganham o suficiente para viver, mas não para terem os filhos a estudar em boas escolas.
Sim. Mas não vou dizer que estamos a apoiar muito os camponeses. Apoiamos quem já têm rentabilidade na agricultura. Com os incentivos que o Ministério da Agricultura está a criar, nós estaremos disponíveis para dar pequenos créditos aos camponeses e municiar linhas de crédito, monitoradas pelo Ministério, mas com o nosso acompanhamento no risco de crédito. Posso dar um exemplo: estamos a financiar os projectos do Fundo Coca-Cola para a província do Bengo, em que grande parte do risco é nosso.
Temos muitos apoios à indústria. Estamos a financiar fábricas de cimentos; tijolos, água ou granitos. Há muitos transportadores que estão na rua com os nossos apoios. Queremos continuar a aumentar o desenvolvimento do país em termos de crédito. Mas temos de ter consciência de que Angola teve muitos anos de guerra e só privatizou a economia em 1992. Vinte anos é pouco. Há empresários que começaram há quatro ou cinco anos. O período de aprendizagem é curto. Muitos não acumulam o que ganham na sua actividade e investem tudo. Começam a comprar as melhores marcas de carros e de aviões e depois, quando se dá uma pequena crise, têm dificuldade em pagar aos bancos. O empresário também tem de ter uma almofada de poupança para sobreviver.
Nós aderimos a algumas orientações do BNA. Sempre fomos um banco com crédito ao consumo nos balcões, por isso fazemos publicidade do crédito automóvel ou do crédito pessoal. Não vou esconder que, às vezes, temos problemas. Por exemplo, no ano passado fecharam muitas empresas do sector dos diamantes, cujos trabalhadores tinham crédito connosco. Quando chegámos ao Uíge concedemos crédito aos polícias e aos militares só que depois eles passaram as contas para o BPC e nós tivemos dificuldades na recuperação do crédito. O mesmo sucedeu em Benguela e no Uíge. Felizmente que hoje os funcionários públicos já podem receber o salário em qualquer banco.
O Estado devia apoiar a abertura de agências bancárias nos munícipios mais pobres, reduzindo os impostos
Nós somos um dos principais bancos de financiamento de crédito à habitação. Há muitas pessoas que compraram casa em Luanda, sobretudo nos novos complexos do Luanda-Sul — Patriota, Nova Vida e Edurb — com crédito do BIC. Para resolver o problema dos nossos próprios trabalhadores estamos a financiar quatro prédios em Luanda que serão vendidos ao preço de custo. Na Mateba, em Luanda-Sul, financiamos 54 prédios de quatro pisos, onde já estão a viver quadros do banco. Um bancário, quando começa a sua vida, tem possibilidades de imediato de comprar uma casa com preço entre 70 mil e 100 mil dólares. É esse tipo de casas, dirigidas à classe média, que tem de aparecer no mercado.
Não me choca. O importante é que as pessoas se habituem a vir ao banco e vejam o trabalhador bancário como alguém que aconselha, que ajuda, que guarda o dinheiro, que dá remunerações pelas aplicações e que faz pequenos empréstimos.
Apoiamos a UTANGA e a universidade Lusíada, por exemplo. Em Luanda-Sul, a Oscar Ribas. Em Benguela estão mais duas universidades apoiadas por nós. Nós precisamos de fazer um grande esforço para melhorar o ensino. Já temos muitas universidades. O mais urgente agora é melhorar a qualidade. E isso significa levar os melhores alunos para o ensino. Também temos de dar mais formação suplementar aos quadros das empresas, através de cursos rápidos. Por exemplo, na Europa as licenciaturas passaram de cinco para três anos. As pessoas a seguir fazem mestrados, pós-graduações e cursos suplementares. Nesta fase, a oferta nacional de técnicos é insuficiente e ainda temos de trazer estrangeiros, a juntar aos angolanos que estão a formar-se lá fora e aos que se formaram no país. Mas nós precisamos de técnicos como de pão para a boca. É importante que os técnicos regressem a Angola.
Nós ainda não criámos uma linha de crédito específica para os estudantes universitários. Mas estamos disponíveis para vir a criar. Dos 1300 trabalhadores do banco BIC, temos entre 150 a 200 licenciados e muitos deles estão a estudar na universidade. Nós apoiamos totalmente que os nossos colaboradores estudem porque isso é importante para o banco e para o país. O banco faz um grande investimento anual em formação. Trazemos quadros da província que ficam alojados em suites que temos na Multiperfil. Esse é, sem dúvida, o principal desafio para o futuro do país.
Data da fundação Maio de 2005
Administradores Fernando Mendes Teles (presidente); Isabel José dos Santos; Fernando Aleixo Duarte; Graziela Rodrigues Esteves; José Manuel Cândido; Pedro Nunes Mbidigani; Hugo Silva Teles
Volume de Negócios (2010) 6308 milhões de dólares
Activo líquido (2010) 4868 milhões de dólares
Resultado líquido (2010) 142 milhões de dólares
Agências (estimativa 2011) 135 (*)
Colaboradores 1290
Internacionalização Banco BIC Portugal (**)
(*) Inclui agências; centros de empresas e de investimentos; private banking e balcões empresas.
(**) Em 2012 irá incorporar o BPN. Está em estudo a entrada noutros países africanos e no Brasil.
Fernando Teles, 55 anos, presidente do BIC, tem a terra no coração. Nasceu na freguesia rural de Alvarenga, concelho de Arouca, no Norte de Portugal, na qual possui casa e família (tem oito irmãos, inúmeros sobrinhos, dos quais dez são angolanos e um filho que também trabalha no BIC). Ainda hoje, fiel às suas raízes, todos os meses visita a terra natal. “Sempre que tenho a reunião do conselho do BIC em Portugal aproveito para lá passar o fim-de-semana.” Artur Neves, presidente da Câmara de Arouca, resolveu atribuir-lhe em Maio a medalha de ouro de mérito municipal. O pretexto foi a abertura de uma agência do banco BIC que deu um novo dinamismo à localidade. “Alvarenga é uma terreola, que no passado era conhecida pela produção de volfrâmio. Hoje, onde lá ainda vivem famílias com tradição, muitos licenciados e portugueses que fizeram fortuna no Brasil.” Artur Neves elogiou o facto de Fernando Teles “levar a banca a lugares que outros não consideram rentáveis, estimulando o desenvolvimento das terras e a inventiva das gentes”.
A mesma virtude é observada em Angola. O BIC já é o banco privado com mais agências nos municípios. Isso só é possível porque Fernando Teles diz conhecer o território de lés a lés. Ele emigrou para Angola quando tinha apenas 14 anos. O seu primeiro emprego foi na Junta Autónoma das Estradas onde trabalhou seis meses. Ainda com 14 anos foi para o Banco de Crédito Comercial e Industrial (pertencente ao extinto Banco Borges & Irmão) onde começou como arquivista na secção de informações. “Dois anos depois, o meu chefe foi despedido e eu, aos 16 anos, já preparava o crédito e dirigia a secção, embora formalmente não tivesse esse cargo. Foi uma boa oportunidade pois o banco criou mais de cem agências durante a época colonial e isso permitiu-me conhecer a Angola profunda”, recorda.
Fruto desse conhecimento Fernando Teles acredita que a agricultura e a pecuária são o futuro de Angola. “Quem investiu neste sector vai ser premiado porque as terras vão valorizar-se muito.” Ele próprio, juntamente com outros sócios, possui quatro fazendas em Huíla, Cunene, Kwanza-Sul e Uíge. “Procuro visitá-las pelo menos uma vez por mês.” No total as fazendas têm mais de 2 mil cabeças de gado e fazem alguma agricultura de subsistência, nomeadamente a produção de ananás, banana e mandioca. Tem também uma representação de tractores e alfaias agrícolas.
Fernando Teles não enjeita a possibilidade de se dedicar a tempo inteiro à agricultura quando se reformar. Mas por enquanto a sua paixão ainda é a banca. Ele fundou no final de 2002 o Banco de Fomento de Angola (BFA) que, três anos depois, era líder de mercado. A saída, segundo o próprio, deveu-se ao facto do principal accionista (o banco português BPI) se ter comprometido a abrir o capital a sócios angolanos e esse processo se estar a arrastar por demasiado tempo. Fernando Teles resolveu então criar um banco próprio, o BIC, (onde hoje detém 20% do capital), cujos quatro administradores eram ex-quadros do BFA. “Numa fase inicial é natural que os meus antigos colegas tivessem ficado melindrados. Hoje, isso está ultrapassado. Há uma óptima relação e até temos accionistas comuns”, justifica.
A verdade é que o BIC continua a “morder nos calcanhares” dos rivais. Segundo a Deloitte o banco é o quarto do mercado, depois do BPC, BFA e BAI. “Já conseguimos em apenas seis anos criar um banco de referência em Angola e de nível europeu.” Mas o presidente não esconde que a sua meta é chegar a n.º 1.
Nos tempos livres, Fernando Teles divide os fins-de-semana entre as visitas às fazendas ou o descanso na casa no Mussulo. “Gosto de pescar e conviver com os amigos. À minha mesa nunca tem menos de 20 a 30 pessoas.” Diz ser um ávido leitor de jornais, revistas e livros de economia e gosta de ouvir música — “o meu iPhone tem cerca de 2 mil musicas.” Entre os artistas favoritos destaca Yola Semedo, “que esteve há pouco tempo na festa de aniversário do BIC” e Rui Veloso. Hoje, diz já não ter tempo para fazer desporto, mas enquanto jovem jogou no Futebol Clube de Luanda e fez remo no Clube Naval. Confessa, que ainda segue o futebol. “Sou benfiquista e ainda vou ao estádio da Luz dado que o presidente do clube é meu amigo. Fernando Teles vive no bairro de Alvalade, mas o BIC patrocina do Benfica... de Luanda.
FUTURO FAZENDEIRO:
Fernando Teles é dono de quatro fazendas em Huíla, Kwanza-Sul, Cunene e Uíge onde possui mais de 2 mil cabeças de gado
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Eka, N’Gola, 33 Export e da nova Skol.