Edição nº 20
 

Empresas

Guiché Único: simplificar é fácil

Publicado a 13-10-2011 10:22:00
Imagine que você é um empreendedor que decide criar o negócio com que sempre sonhou. Depois de arranjar o financiamento, eventuais sócios e a documentação necessária dirige-se a uma repartição pública para dar início à sua actividade. É nessa altura que teme o pior. Longas filas de espera, mau atendimento, uma multidão de “intermediários” que se oferecem para lhe “facilitar” o processo, em troca de uma generosa “gasosa”. Este é o pesadelo típico de qualquer candidato a empresário.

Isabel Tormenta dos Santos, directora-geral do Guiché Único de Empresas

Imagine agora que ao dirigir-se ao local, abre a porta e depara com um ambiente limpo, agradável e bem sinalizado. À sua direita está o aparelho onde recolhe uma senha para ser atendido. Enquanto aguarda no ecrã gigante pelo seu número, pode servir-se de um chá ou café e sentar-se comodamente. Poucos minutos depois é chamado ao balcão central, onde um dos três funcionários lhe esclarece todas as dúvidas. Começa por se dirigir ao balcão seguinte, onde escolhe a denominação social da sua firma, sabendo de antemão, se a designação está, ou não, disponível. Depois, no balcão à direita, entrega o pacto social da sua empresa (basta levá-lo numa simples pen drive) ou solicita ajuda ao funcionário para o elaborar (ou rectificar). A tarefa seguinte consiste em dirigir-se à Direcção Nacional de Impostos (também no local) para lhe ser atribuído o número de identificação fiscal. Já na posse de todos os documentos (se porventura lhe faltar alguma cópia pode usar as fotocopiadoras que existem no local) é altura de se dirigir à agência bancária (também no local) para pagar os emolumentos. Após entregar a documentação completa, pode começar a contar o tempo. É que essa repartição tem a fama de completar o processo, em média, em apenas três horas.

A leitura da escritura é feita numa sala reservada, onde o documento é projectado no ecrã, ao mesmo tempo que é lido em voz alta. Essa repartição, ao contrário do que é norma no funcionalismo público, não fecha a seguir ao almoço. O horário de atendimento prolonga-se até às 20 horas (os funcionários estão organizados por turnos pelo que não fazem cara “feia” quando se aproxima a hora de saída). Logo, se iniciar o processo pela manhã, dificilmente sairá do local sem a sua empresa legalmente constituída.

O sistema é fechado à corrupção. a proibição de cobrança de taxas de urgência está afixada

O leitor, por esta altura, deverá imaginar que estamos a narrar uma história fictícia, ou que se passa noutro local do mundo. Mas não. O cenário é real e acontece diariamente em plena Avenida Marginal, em Luanda, onde funcionam as instalações do Guiché Único da Empresa (GUE), criado pelo Governo em 2003, com o objectivo de simplificar e desburocratizar o processo de constituição jurídica de empresas. A ideia é concentrar no mesmo local todos os organismos públicos necessários à criação de uma empresa, evitando que o cidadão tenha de se deslocar de um lado para o outro, numa cidade pouco propícia à mobilidade. Por outro lado, a proximidade entre os organismos também favorece a simplificação dos procedimentos internos. É que dentro desse espaço estão três delegações do Ministério da Justiça (que tutela o GUE); Cartório Notarial (que faz a escritura pública); Conservatória do Registo Comercial (que faz o registo comercial da empresa); Ficheiro Central de Denominações Sociais (que emite o certificado de admissibilidade); Direcção Nacional de Impostos (que faz a atribuição do número de identificação fiscal); Instituto Nacional de Segurança Social e Instituto Nacional de Estatística (que também registam a empresa depois de constituída) e a Imprensa Nacional (que emite o recibo de pagamento necessário para depois se fazer a publicação no Diário da República).

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A verdade é que nem sempre foi assim. Isabel Tormenta dos Santos, nascida em Luanda e licenciada em Direito, pela Universidade Agostinho Neto (fez uma pós-graduação na Universidade Clássica de Lisboa), trabalhava no 3.º Cartório Notarial, quando foi convidada a assumir a direcção-geral do GUE em Dezembro de 2006 (o serviço só começou a funcionar em 2004). “Foi um convite que me apanhou de surpresa. Não foi, porém, algo totalmente estranho dado que, devido à minha actividade como notária, tinha de me descolar muitas vezes ao GUE e

deparava com vários constrangimentos no serviço”, recorda.

mudança envolveu os funcionários

Assim que entrou em funções, Isabel Tormenta iniciou uma verdadeira revolução. O mais importante foi criar um sistema fechado à corrupção. “Temos uma ordem de serviço, afixada nas paredes, onde se diz que é proibido cobrar taxas de urgência.” A responsável confessa que houve alguma resistência à mudança. “No princípio tive de fazer de polícia. O segredo é ser um director presente. Durante o dia, circulo pelas áreas do GUE. Procuro estar perto das pessoas e ir perguntando como é que as coisas estão a correr.” Mas nem tudo foram rosas. “Procurei colocar os funcionários mais jovens, sem os vícios típicos do funcionalismo público, no front-office, a atender os clientes. Os mais problemáticos ficaram noutras funções, nos bastidores, e alguns tiveram mesmo de ser afastados. Mas a esmagadora maioria dos funcionários aderiu. Hoje temos uma excelente equipa”, resume.

Centro em luanda: Com a abertura de guichês nas províncias os empresários já não precisarão de vir à capital para criar uma empresa

Outro dos problemas a resolver foi a questão da assiduidade. “Nós temos relógio de ponto e quem falta, sem justificação, tem o dia descontado no ordenado”, afirma. Outra receita de Isabel Tormenta foi promover a rotação do pessoal. “A formação é feita no local. Um funcionário mais experiente ensina ao mais jovem até ele estar pronto para executar sozinho. E todos sabem fazer tudo. Assim se alguém faltar, o serviço nunca para.”

Um dos segredos para manter a equipa motivada foi a atribuição de estímulos. “Nós temos receitas próprias pois cobramos uma comissão pelo serviço. Uma parte desse valor é distribuído pelos funcionários consoante a sua categoria profissional e o seu desempenho, em particular ao nível da assiduidade e pontualidade. Essa remuneração chega a ser superior ao próprio salário.” Para mais, acrescenta, há outros estímulos não financeiros. “Os trabalhadores têm acesso à assistência médica gratuita e ao cartão Jumbo para compras de supermercado”, exemplifica.

questionário e livro de reclamações

Outra mudança importante foi a reorganização do espaço de maneira a que o cliente se desloque de uma forma lógica e sequencial pelos vários departamentos. As consequências destas mudanças foram visíveis. O tempo médio

de atendimento passou de 30 dias, em 2007, para apenas três horas, quatro anos depois. “A redução foi gradual. Fez-se através de pequenas conquistas. Hoje, o prazo de três horas é apenas uma média. Às vezes demora mais, outras menos. Mas o prazo só começa a contar depois de o cliente entregar o processo completo (veja passo 5), já com os documentos na sua posse e o pagamento feito”, adverte a directora-geral.

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Porém, muitos clientes queixam-se de que os verdadeiros problemas burocráticos começam depois. Por exemplo, quem já tem a empresa constituída depois não consegue obter o alvará comercial com a mesma facilidade. “Estava previsto que o Ministério do Comércio também tivesse uma delegação no GUE, mas isso ainda não aconteceu. Trata-se de um processo mais complicado do que o nosso, por isso é natural que demore mais tempo.”

Outro tipo de críticas prende-se com os valores em causa, quer os do montante mínimo de capital social quer o dos emolumentos. Isabel Tormenta não considera a exigência de capital social muito elevada (1000 dólares para uma sociedade por quotas e 10 mil para uma anónima). “No caso das sociedades anónimas esse depósito pode ser de um terço do capital e, em qualquer caso, esse dinheiro não vai para o Estado — é do empresário e fica disponível na sua conta bancária.” Já na questão dos emolumentos, a responsável considera que talvez devesse haver taxas mais reduzidas para as sociedades com menor capital social (veja simulação).

Qualidade no atendimento: Depois de tirar a senha, não espera mais de 15 minutos. Enquanto isso, pode servir-se de um chá ou de um café
No que diz respeito à qualidade do atendimento, Isabel Tormenta faz questão de que os utilizadores do GUE preencham um questionário de satisfação no final do processo. A lista de perguntas vai desde as instalações (por exemplo, a temperatura, limpeza e higiene, instalações sanitárias) até à qualidade do serviço (tempo de espera, simpatia e profissionalismo dos colaboradores) e outros itens mais genéricos (como o preço, tempo de execução do serviço, a melhoria desde o último contacto ou a eficácia no tratamento de reclamações). A este propósito, refira-se, que o GUE tem um livro de reclamações. “Eu vejo sempre o livro. Pode haver um caso ou outro de mau atendimento, mas a maioria só o usa para fazer elogios. Há até casos caricatos. Uma vez um cliente pediu o livro para reclamar porque o chá estava com demasiado açúcar e não havia adoçantes”, recorda com um sorriso.


novos centros e certificação de qualidade

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Para o futuro a responsável está optimista. Já este ano o GUE vai abrir dois novos centros em Luanda (nos Coqueiros e na Rotunda do Gamek) e no próximo ano vão ser abertos novos centros em Benguela, Cabinda e Huambo. “Os novos guichés vão permitir que quem vive fora de Luanda não tenha de se deslocar à cidade para criar uma empresa. Permitirá também desanuviar este espaço que já está a rebentar pelas costuras”, confessa. É que, apesar de estar em curso um processo de digitalização de documentos, os serviços do GUE têm de conservar as pastas do processo, em triplicado. “Já tive de roubar uma parte do pátio para ter mais espaço para armários de arquivo”, justifica.

O problema é que o número de empresas criadas no GUE não tem parado de crescer desde a sua fundação. “Este ano, julgamos que vamos ultrapassar as 4 mil empresas.” Se isso acontecer será um novo máximo (até ao dia 18 de Setembro já se tinham atingido os 3562 empresas versus as 3480 do ano passado). Quanto à sua origem, Isabel Tormenta acredita que cerca de 70% são criadas por empresários angolanos e 30% por estrangeiros. No que diz respeito à natureza jurídica, a esmagadora maioria são sociedades por quotas, seguindo-se as em nome individual e as sociedades anónimas.

Com o alargamento do número de centros, outra questão importante será a da manutenção da qualidade do serviço. “Não creio que haverá problemas. O alargamento estava para ser feito em Agosto do ano passado e só não avançou por dificuldades orçamentais. Entretanto, nós fomos admitindo as pessoas, que têm estado aqui a estagiar e hoje já estão preparadas.” Outra razão para optimismo é o facto do GUE estar prestes a receber a certificação de qualidade segundo as normas internacionais ISO 9001. “Os inspectores deverão concluir a auditoria externa em Novembro pelo que devemos estar certificados até ao fim do ano.”

Com tantas boas notícias parece inacreditável como é que Angola surge tão mal posicionada no ranking internacional Doing Business, do Banco Mundial, que mede a qualidade do ambiente de negócios em cada país. No relatório de 2011, Angola surge num modesto 163.º lugar, entre 183 nações. No subcritério da “Criação de Negócios”, fica-se pelo 164.ª posição. Os analistas do Banco Mundial referem que, embora o número de

Este ano, deverão ser criadas 4 mil empresas no GUE, o número mais alto de sempre
procedimentos até seja menor do que a média da África Subsariana (8 versus 8,9), o tempo exigido é maior (68 dias versus 45,2) assim como o custo (definido em percentagem do rendimento per capita). Detalhando a questão do tempo necessário, verifica-se que o candidato a empresário demora cerca de oito dias a cumprir as tarefas associadas ao GUE e depois tem de agurdar mais 60 dias pelo alvará do Ministério do Comércio. Isabel Tormenta queixa-se que esses números, pelo menos na parte que diz respeito ao GUE, não correspondem à realidade.

Oxalá que os senhores do Banco Mundial se desloquem rapidamente à Avenida Marginal de Luanda de modo a que os resultados do próximo ranking sejam mais favoráveis à imagem de Angola. Num país onde ainda há tantos desafios a vencer, ao menos que aquilo que funciona bem, seja efectivamente realçado nas estatísticas internacionais. E, mais importante do que tudo, que este exemplo seja estendido ao resto da administração pública. É que simplificar, como se vê, pode ser mais simples do que parece.    

Por: Jaime Fidalgo
 

Comentários

  1. ivan manuel
    2012-04-08 13:48:10
    eu sou ivan manuel,vivo nas lundas,sou bancario e estudante de licenciatura em matematica,pretendo escrever um livro dirigindo mas as reclamacoes aos servicos publico/privados(em particular a banca),mas para tal precisa seu apoio e orientacao sera q podes ajudar me? espero deferimento MC 933669664
  2. Angolano
    2012-01-16 21:55:19
    Até a diretora desta instituição é mulata? lamentaval.
  3. Mukanda
    2011-10-28 15:19:58
    Continua a fazer um bom trabalho Jornalistico, gostaria tb ver divulgado este tipo de informação aos Jovens (Angolanos) das nossas Universidades e em outros Locais do Conhecimento porque contem materia de debates, analises assim como servira de ferramentas para o CONHECIMENTO. Bem Haja Sr. Jornalista Bom Trabalho.
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