Edição nº 20
 

Carreira

A beleza é 
um sucesso

Publicado a 13-10-2011 11:04:00

Com certeza não foram os olhos azuis que levaram a advogada francesa Christine Lagarde ao cargo de directora-geral do Fundo Monetário Internacional — o posto mais alto da instituição, nunca antes ocupado por uma mulher. Christine já acumulava um currículo respeitável antes de substituir, em Junho deste ano, o também francês Dominique Strauss-Kahn, afastado depois do envolvimento num escândalo sexual. Especialista em Direito Internacional, ela chefiou o braço europeu de uma prestigiada casa americana de advocacia até entrar para a política em 2005.

Em pouco mais de cinco anos, chefiou três ministérios do governo francês, incluindo o das Finanças, tornando-se, em 2007, a primeira mulher a comandar essa pasta num país do G8. Christine tinha todas as qualificações académicas e profissionais para ocupar o cargo. Mas nem ela descarta a importância de outras características pessoais para o seu sucesso na carreira. Entre elas está a preocupação em manter uma aparência e uma imagem sempre impecável.

Ex-integrante da selecção nacional de natação sincronizada, aos 55 anos ela admite que perde horas de sono para manter a silhueta esguia e vestir tailleurs bem recortados. No final do ano passado, ao ser convidada para falar numa conferência com as 50 principais mulheres de negócios do mundo, Christine fez uma homenagem à sua mãe. Foi ela que a ensinou a vestir-se bem e a saber falar com as pessoas.

Aparência também decide eleições

“Não há mulheres feias — apenas preguiçosas”, dizia Helena Rubinstein, pioneira da cosmética
O conjunto de atributos pessoais, como  o charme, boa aparência, estilo e carisma, é o que a socióloga inglesa Catherine Hakim chama de “capital erótico” no recém-lançado Honey Money: The Power of Erotic Capital (“O Poder do Capital Erótico”). No livro, a autora defende como a elegância de uma política como Christine Lagarde podem ajudar — e muito — na carreira.

Num mundo actual em que activos como o capital financeiro (o dinheiro), capital humano (o que sabe) e capital social (quem  conhece) nunca foram tão valorizados e disseminados, o capital erótico pode ser uma arma poderosa. Veja o exemplo das últimas eleições presidenciais americanas. É de esperar que, para disputar um cargo de tamanha importância, não faltem candidatos com qualificações, experiência e boa formação técnica. No entanto, segundo a autora, o facto de Barack Obama ser considerado “bonito, em forma e bem vestido” fez a diferença (muito embora tenha concorrido com McCain, um dos candidatos menos sexy da história, e sucedido a um presidente insípido e pouco carismático como George Bush).

“Beleza e charme são matérias-primas valiosas, que têm uma oferta escassa em qualquer sociedade”, escreve Catherine.

No mundo das celebridades, a forma como elas tiram proveito do seu capital erótico é bem mais evidente. O uso do capital erótico por um actor como George Clooney para vender as máquinas de café Nespresso, da Nestlé, até são óbvios de mais. Porém, entre os cidadãos comuns, o uso desses atributos nem sempre é fácil de identificar. Mas que ele existe, existe, segundo diz a autora. Há estudo que demonstram que os salários pagos a pessoas consideradas atraentes: são superiores até 20% para os homens e 10% mais elevados para as mulheres.

Eternas diferenças de género

A tese de que há disparidade nas recompensas entre homens e mulheres com capital erótico é um dos pontos centrais do livro.

A autora acredita que as mulheres, em geral, possuem mais capital erótico do que os homens. Ela diz que o rosto e o corpo feminino sempre foram alvo de desejo. Isso tanto sucedeu na arte ao longo dos tempos como na recente erotização da publicidade. Uma das explicações para isso é que as mulheres sempre prestaram mais atenção à beleza. “Não existem mulheres feias, apenas mulheres preguiçosas”, diz uma conhecida citação de Helena Rubinstein, pioneira da indústria de cosméticos.


Barack Obama: A fama de “bonito, em forma e bem vestido” ajudou-o 
a vencer as eleições presidenciais

A autora acredita que os homens, por outro lado, procuram mais capital erótico nas mulheres devido ao seu “défice sexual”. Isso acontece porque, de uma forma geral, a libido masculina cresce ao longo da vida. Enquanto, nas mulheres, pelo contrário, o interesse pelo sexo tende a diminuir após os 30 anos. “Esse desequilíbrio aumenta


Estudos mostram 
que as pessoas mais atraentes conseguem salários mais altos 
do que as outras
automaticamente o valor do capital erótico feminino e confere às mulheres uma vantagem nas relações sociais com os homens”, escreve Catherine Hakim, num dos pontos mais controversos do seu livro.

A argumentação da autora serve para exortar as mulheres a corrigir essas diferenças. Catherine argumenta que o capital erótico pode ser desenvolvido independentemente das origens ou classes sociais. E enquanto nos homens características como a altura são aceites como um atributo positivo (que faz com que os mais altos ganhem mais do que os outros), as mulheres bonitas com melhores salários são muitas vezes vítimas de preconceitos. “Em empregos que exigem contacto pessoal com clientes, o capital erótico elevado gera lucros e isso deveria ser recompensado apropriadamente”, defende a autora.

Na visão de Catherine, em vez de queimarem soutiens, as mulheres deveriam valorizar os seus decotes. Uma boa notícia para as mulheres angolanas que viram recentemente uma sua compatriota ser eleita a mais bela do universo. 

 Honey Money: The Power of Erotic Capital

Editora  
Allen Lane, 372 págs.

Autora  
Catherine Hakim

"As mulheres não têm o monopólio do sex appeal, mas têm maior capital erótico do que os homens. E isso dá-lhes 
uma vantagem significativa nas negociações com eles".

Por: João Werner Grando
 
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