Espanha
Juan Roig, presidente dos Supermercados Mercadona, líder de vendas em Espanha, está tão orgulhoso de si que até decidiu opinar sobre como o governo espanhol deve reagir à crise. Num país onde a taxa de desemprego está em alta pelo quarto ano consecutivo e o PIB registou duas retracções, Roig viu a facturação da Mercadona crescer 15% desde 2008 e chegar a 23,5 mil milhões de dólares. Os lucros, que estiveram em baixa em 2008 e 2009, voltaram a crescer no ano passado — um aumento de 47%. Enquanto empresas de vários sectores demitiam pessoas, Roig acrescentou 1500 colaboradores à sua força de trabalho, totalizando 63 500 funcionários. Em 2010, ano em que muitos empresários e executivos espanhóis tiveram de congelar investimentos, Roig abriu 60 novas lojas.Juan Roig, presidente da Mercadona: Produtos de linha branca geram 40% das vendas da rede
Tantas conquistas poderiam dar a impressão de que se está a falar de um vendedor de guarda-chuvas num ano de temporais, mas não é esse o caso. Nos Estados Unidos, as vendas de alimentos nos supermercados até subiram durante a crise, pois os americanos passaram a comer mais em casa. Em Espanha, o que se viu foi uma queda. Sob qualquer ângulo que se olhe, Roig deu uma aula sobre como vencer na adversidade — a pior crise do país nas últimas três décadas.A estratégia que impulsionou o crescimento da Mercadona, baptizada informalmente de “Walmart da Espanha”, foi o reforço na política de preços baixos, uma escolha que não rende um prémio de originalidade a Roig. O Carrefour, um dos principais rivais da Mercadona na Espanha, e outros competidores seguiram o mesmo caminho. Mas Roig foi o primeiro. Em 2008, ano da viragem na política de preços, uma família gastava 600 euros por mês nas suas compras básicas numa das lojas Mercadona. Dois anos mais tarde, a mesma cesta básica valia 520 euros. “Em retrospectiva, parece óbvio que apostar em preços baixos era a melhor estratégia naquele momento, mas em 2008 a maioria das pessoas estava num processo de negar a realidade”, diz Javier Andrés, professor de Economia da Universidade de Valência, onde fica a sede da empresa.
Os bónus dos executivos foram suspensos durante a crise. Já a média dos salários dos funcionários da Mercadona estão 18% acima dos que são praticados pela concorrência
Com a elite dos fornecedores como parceiros, Roig pode investir mais nos produtos de “linha branca”, ou marca própria, no momento em que os clientes começavam a olhar para os preços com mais atenção. Em dois anos, a participação dessa linha no total das vendas da rede subiu de 30% para quase 40%. Preocupado com a necessidade de reduzir custos, Roig fez os seus executivos e fornecedores mergulharem nos detalhes. As embalagens dos snaks, por exemplo, foram reduzidas — sem afectar a quantidade do produto — só com a eliminação do excesso de ar que as enchia. Frutas e vegetais passaram a ser acondicionados de forma mais eficiente durante o transporte para reduzir o número de bandejas e caixas. Produtos hortícolas foram substituídos por outros cultivados em áreas mais próximas dos centros de armazenagem.

Hoje, verificamos que a estratégia foi muito bem-sucedida — no ano passado, os lucros bateram todos os recordes e chegaram ao total de 573 milhões de dólares.
Até nos momentos mais delicados, quando a aposta nos produtos de marca própria ainda era uma estratégia incerta, Roig não mexeu na remuneração dos funcionários (apenas na gestão de topo). Foi mantida a estrutura de bónus associados às vendas dos empregados que trabalham nas lojas — o que lhes pode render de um a dois salários extras por ano. A política de recursos humanos foi mantida intacta e continuou a destacar-se, pela positiva, nas comparações internacionais. Na Mercadona, os funcionários recebem 20 vezes mais horas de formação do que a média dos americanos. A escala de trabalho é conhecida com um mês de antecedência, o que permite que todos possam planear as suas folgas, factor que ajuda na retenção dos melhores funcionários. Essas medidas fazem com que a média de vendas por funcionário da Mercadona seja 18% superior à dos outros supermercados espanhóis, um factor determinante no kit de sobrevivência de Roig durante a crise.
Fundada em 1977 na cidade de Valência pelo pai de Juan, Francisco Roig, a empresa só começou a destacar-se no mercado quatro anos depois — quando o filho mais talentoso assumiu o negócio. Antes da crise, o seu maior desafio tinha ocorrido na década de 90, quando as redes estrangeiras compraram a maior parte dos grandes supermercados locais. Nessa altura, Roig ganhou fama como empresário competitivo em termos de preços e procurou manter-se à frente da concorrência em termos de avanços tecnológicos — o Mercadona foi a primeira cadeia de supermercados da Espanha a adoptar o código de barras. Desde 2001, manteve um ritmo decrescimento nas vendas de 15% ao ano.
Outras companhias espanholas estão a conseguir sair-se bem da crise, mas a maioria são multinacionais como o Santander e a Telefónica, apoiadas nas operações fora da Europa. Entre as ganhadores, as voltadas exclusivamente para o mercado interno, como o Mercadona, são uma raridade. Isso porque a crise espanhola é realmente dura. O acordo entre o FMI e a União Europeia que salvou (mais uma vez) a Grécia da bancarrota, fez regressar o perigo de contágio a outras economias enfraquecidas como a espanhola. Os títulos do governo estão a ser negociados com as taxas de juro mais altas desde 2000. Em Maio, as praças das principais cidades espanholas foram invadidas pelos protestos dos jovens. Nesse mês o governo socialista registou a pior derrota em eleições regionais desde a saída do ditador Francisco Franco, nos anos 70.
No anúncio dos resultados em 2010, Roig aproveitou a oportunidade para comparar o desempenho da Mercadona com a do seu país. Previu que o pior ainda estava por vir. Sem cerimónias, diagnosticou que o maior problema da Espanha é a baixa produtividade, uma área que, segundo ele, o governo (ao contrário da Mercadona) faz muito pouco para mudar.
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