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Angola Telecom: Operadora da rede fixa é a campeã com 39 reservas às contas de 2009
A função dos auditores externos é expressar uma opinião profissional e independente sobre se as demonstrações financeiras apresentadas pelo conselho de administração são elaboradas de acordo com as normas contabilísticas vigentes e reflectem de forma verdadeira e apropriada a posição financeira da empresa. Cabe-lhes ainda verificar se a firma dispõe de sistemas de controlo interno adequados.
De acordo com a lei das empresas públicas que tem o n.º 9/95, de 15 de Setembro, as empresas públicas devem elaborar anual- mente, até 31 de Março e com referência a 31 de Dezembro do ano anterior, o relatório de contas da empresa que deverá proporcionar uma compreensão clara da situação económica e financeira relativa ao exercício.
Após a sua homologação pelo órgão de tutela e se for caso disso, pelo ministro da Economia e Finanças (Ministério entretanto dividido em dois), o relatório e contas da empresa deve ser publicado num dos jornais de maior tiragem do país.
Apesar de estarem legalmente obrigadas a divulgar as contas, até ao momento apenas as seis empresas referidas publicaram os respectivos relatórios e contas... de 2009 e com um atraso considerável. Os primeiros a sair foram os do BNA e da Sonangol, por exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI) que condicionou a aprovação da segunda tranche do empréstimo de ajuda à balança de pagamentos angolana à divulgação dos relatórios e contas das duas empresas públicas mais importantes do país. Angola Telecom, Empresa do Caminho de Ferro de Luanda, EPAL e Porto de Luanda só publicaram as contas de 2009... em Janeiro de 2011 no Jornal de Angola.
A lei obriga também a que o relatório de contas seja acompanhado do parecer do conselho fiscal que deverá conter, com o devido desenvolvimento, a apreciação da gestão, bem como do relatório do conselho de administração, da exactidão das contas e da observância das normas legais e estatutárias. A análise dos pareceres dos conselhos fiscais das quatro empresas que viram chumbados os relatórios de contas pelos auditores externos independentes levanta muitas dúvidas quanto ao seu trabalho.
Na EPAL, o conselho fiscal presidido por Carlos Alberto Teixeira Bragança, considerou que “as contas da empresa foram elaboradas de acordo com os princípios de contabilidade geralmente aceites” e decidiu “aprovar o relatório do conselho de administração, balanço e demonstração de resultados”. “O sistema de controlo interno da empresa ainda não é garante de que todas as operações/lançamentos contabilísticos são registados com base em documentos válidos”, queixam-se por seu turno dos auditores da Ernst & Young que, também por isso, se recusaram expressar uma opinião sobre as demonstrações financeiras da EPAL.

Porto de Luanda: Empresa cresce e é lucrativa, mas auditores duvidam dos números
A questão do diagnóstico do sector, bem como do novo quadro jurídico, foi retomada pelo ex-ministro de Estado e da Coordenação Económica, Manuel Nunes Júnior, que fez dela um dos cavalos de batalha do seu consulado. Em entrevista à Exame, de Setembro de 2010, o actual secretário do Bureau Político do MPLA para a política económica e social afirmou que estava em curso um (novo) diagnóstico do sector que serviria de base a uma proposta de medidas para melhorar o desempenho do sector. O diagnóstico ainda não viu a luz do dia, mas a Assembleia Nacional aprovou, em Outubro de 2010, a lei de alteração da lei das empresas públicas com o n.º 10/10.
Quanto ao diagnóstico do sector que devia ter sido apresentado pelo Ministério da Economia no primeiro trimestre de 2011, continua sem ver a luz do dia. “Estamos com um ligeiro atraso”, reconheceu em entrevista à EXAME, de Junho de 2011, Abraão Gourgel, titular da pasta criada no âmbito da última reorganização do Governo que herdou do extinto Ministério da Coordenação Económica a tutela das empresas públicas.
“O diagnóstico está concluído, mas não é tão rigoroso quanto gostaríamos. […] As empresas estavam sobre a alçada de ministérios diferentes e nem todos tiveram os meios adequados para cumprir essa tarefa. […]”, justificou o ministro da Economia.
Questionado sobre os resultados do diagnóstico já concluído, Gourgel respondeu: “A situação das empresas é globalmente má. Muitas delas têm uma gestão deficitária. Algumas inclusivamente não têm os órgãos sociais e fiscais em pleno funcionamento. Alguns desses problemas decorrem de lacunas na legislação. […] Está concluí- da elaboração da nova lei sobre as empresas públicas e respectiva a regulamentação, que decorrem aliás das metas indicativas que acordámos com o FMI […]. Certamente este novo quadro legal pode ajudar melhorar a actual situação associado aos programas […] para cada empresa.”
As empresas também continuam a fazer tábua rasa da obrigação legal de divulgação pública dos relatórios de contas. Apesar de já termos entrado no último trimestre de 2011, nenhuma empresa pública, incluindo Sonangol e BNA, divulgou as contas auditadas de 2010. Apenas a Sonangol apresentou em conferência de imprensa os principais resultados de 2009, mas sem divulgar o relatório de contas auditado. O site da petrolífera apresenta na página inicial um link para o relatório, mas sempre que a Exame pretendeu aceder ao relatório deu erro. Quanto ao BNA, a quarta revisão do acordo com o FMI previa a divulgação das contas auditadas de 2010 em Junho de 2011, mas até ao momento isso não aconteceu. A Exame questionou o Banco Central, mas não obteve qualquer resposta até ao fecho desta edição.
Principais reservas levantadas pelos auditores externos independentes
1-
Terrenos para construção não registados contabilisticamente com
uma área de 198 132 metros quadrados e caso esses terrenos tenham sido
vendidos não foram
abatidos.
2- Contratos de arrendamento de imóveis no valor de 62,3 milhões de kwanzas registados em proveitos e ganhos de 2009 sem que a empresa tenha apresentado aos auditores nenhuma certidão de registo de propriedade desses imóveis em seu nome; registo em proveitos e ganhos de 2009 de rendas no valor de 8,3 milhões de Kwanzas que não foram pagas; antes de 2009, o saldo dos inquilinos ascende a 60,7 milhões de kwanzas; dívidas da empresa Magnum — Sociedade de Protecção e Assistência no valor de 37,0 milhões de kwanzas em contencioso.
3- Inexistência de levantamento dos imóveis existentes entre Luanda e Malanje.
4- Imobilizações em curso no valor de 2423,5 milhões de kwanzas a transitar de ano para ano sem uma data para conclusão.
5- Registo de um empréstimo de 200 milhões de kwanzas do BPC que o banco não confirma.
6- A empresa tem um capital de 0,58 kwanzas quando os estatutos referem um Fundo de Constituição de 1032,7 milhões de kwanzas.
1-
Sistema de informação e controlo interno não garante a produção
de demonstrações financeiras isentas de distorções materialmente
relevantes.
2- Saldos de fornecedores no valor de 612,4 milhões de kwanzas e de adiantamentos a fornecedores no valor de 169,0 milhões não confirmados.
3- Resultados estão influenciados por subsídios a preços no valor 4209,5 milhões de kwanzas calculados com base em estimativas de consumo e não em consumos reais.
1-
Imobilizado não está devidamente inventariado não permitindo a
identificação física e individual dos
bens.
2- Aquisições de imobilizado e outras suportadas por facturas pró-formas ou com suporte documental insuficiente.
3- Mapas de amortizações e reintegrações de imobilizaçõe corpóreas e incorpóreas não conferem com os registos contabilísticos.
4- Empresa não respeita princípio da especialização contabilística nas contas patrimoniais e de resultados.
5- Registos contabilísticos das contas bancárias revelam um saldo 157,6 milhões de kwanzas inferior ao dos extractos bancários resultante da não actualização das contas em moeda estrangeira.
6- Reservas de reavaliação sobreavaliadas em 3699,0 milhões de kwanzas na contabilidade face aos mapas respectivos. Regularizações por abates não anuladas nas reservas de reavaliação.
7- Deficiências no controlo interno, nomeadamente no controlo operacional e financeiros das operações.
8- Multas e outras penalizações no montante de 229,5 milhões de kwanzas contabilizadas em custos quando deveriam ser na conta do Estado e outros entes públicos.
9- Não contabilização de receitas de rendas variáveis e fixas no valor de 525,3 milhões de kwanzas.
Fonte: Pareceres
dos auditores
externos.
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