Edição nº 20
 

Economia

A desaceleração agora é global

Publicado a 17-10-2011 11:02:00

A economia mundial entrou numa fase perigosa. A confiança caiu e os riscos de uma nova recessão aumentaram”, É com esta mensagem sombria que Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), assina a introdução ao relatório World Economic Outlook, (Perspectivas Económicas Mundiais), de Setembro. A equipa do FMI confessa estar preocupada com a saúde da economia mundial. As previsões apontam para que ela cresça 4% este ano e outros 4% em 2012, um valor abaixo (era de 4,3% e 4,5% respectivamente) das estimativas realizadas há apenas três meses.

A revisão em baixa deve-se, segundo o FMI, ao abrandamento económico na generalidade dos países desenvolvidos (que vão crescer 1,6% este ano e 1,9% em 2012, ou seja, menos 0,6 e 0,7 pontos percen-
tuais do que no relatório anterior) e à crescente incerteza nos mercados financeiros. Olivier Blanchard alerta que “a situação é pior do que se pensava. Mesmo nos cenários mais optimistas, o crescimento vai permanecer baixo por mais algum tempo”.

Angola terá um rápido crescimento do PIB no próximo ano (quase o triplo deste ano) no qual será o melhor da  região
 e uma redução da inflação de 1,1 pontos percentuais (embora ainda seja a terceira mais alta da África Subsariana).
Blanchard acredita que eventos como o tsunami no Japão e a instabilidade nos países produtores de petróleo do Médio Oriente e do Norte da África são apenas uma parte do problema. Os dois epicentros são a Europa e os Estados Unidos. No primeiro caso. o FMI teme que a crise na zona euro fique fora de controlo dos líderes europeus. Apela, por isso, ao Banco Central Europeu que baixe os juros, caso a crise se agrave, e continue a intervir no mercado da dívida soberana.

Quanto aos Estados Unidos, o receio é que a economia não recupere devido a causas como o impasse político na consolidação orçamental, a alta taxa de desemprego ou a debilidade do mercado imobiliário. Olivier Blanchard apela igualmente à Reserva Federal americana que esteja preparado para implementar mais medidas de apoio. “Se os Estados Unidos e a União Europeia mergulharem em nova recessão, os estragos nas restantes economias do mundo serão significativos”, alerta.

O economista acrescenta que “o desafio dos governos é promover uma consolidação fiscal que não seja nem tão rápida que trave o crescimento, nem tão lenta que coloque em dúvida a sua credibilidade”.

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FMI preocupado com economia mundial

As estimativas, de facto, justificam a visão pessimista de Blanchard. Segundo os dados do relatório, entre as economias desenvolvidas a dos Estados Unidos é a que apresenta um maior decréscimo face às previsões de Junho, com um crescimento de 1,5% este ano e de 1,8% no próximo (versus 2,5% em 2011 e de 2,7% em 2012). A União Europeia também viu o seu crescimento ser revisto para 1,6% este ano (menos 0,4 pontos percentuais) e 1,1% no próximo (decréscimo de 0,6 pontos). As excepções à regra são a

Espanha (que manteve a sua previsão de 0,8% inalterada) e o Japão (que melhora 0,2 pontos percentuais e já vai crescer 2,3% em 2012). Entre os restantes membros do G7, o Reino Unido vai passar de um crescimento de 1,1% este ano para 1,6% em 2012. Já a França vai abrandar de 1,7% para 1,4% em 2012 e a Alemanha sofrerá uma forte travagem, com o PIB a abrandar de 2,7% este ano para 1,3% em 2012.

Desta vez nem as economias emergentes escaparam. Também elas registaram uma revisão em baixa das previsões com um crescimento de 6,4% este ano e de 6,1% no próximo (menos 0,2 e 0,3 pontos percentuais). O Brasil teve a sua estimativa reduzida em 0,3 pontos percentuais, quedando-se pelos 3,8%. A Rússia, desce meio ponto, para 4,3%. Também a China (0,1 pontos) e a Índia (0,4 pontos) sofreram reduções nas suas previsões de crescimento para este ano: 7,8% e 9,5%, respectivamente.

África cresce acima da média

No que diz respeito à África Subsariana o relatório do FMI é bem mais positivo dado que a média de crescimento esperado para a região (5,2% este ano e 5,8% em 2012) está claramente acima da média mundial. Os analistas referem que os efeitos da desaceleração nas economias mais desenvolvidas não estão a ser sentidos com a mesma intensidade na África Subsariana, o que revela “uma sólida estabilidade macroeconómica”. A excepção, claro está, é a dos países que foram mais severamente afectados pela seca que gerou a crise humanitária no corno de África. O FMI chama, porém, a atenção para os riscos de tensões inflacionistas. Também entre os factos negativos está a “recuperação hesitante da maior economia da região, a África do Sul” devido à elevada taxa de desemprego, o endividamento das famílias e a apreciação da moeda.


Angola terá o melhor crescimento do PIB 
da África Subsariana em 2012 e o quinto melhor a nível mundial
Uma segunda má notícia é que as previsões de crescimento da África Subsariana também foram corrigidas em baixa. Um dos casos mais prementes é o de Angola. Como é sabido (veja EXAME n.º 18) o Governo já tinha avançado uma correcção do PIB dos 7,6% (valor que serviu de base ao Orçamento Geral do Estado) para 3,6%. O FMI, porém, é ligeiramente mais optimista e prevê um crescimento de 3,7% em 2011 e de 10,8% em 2012. Isso significa que, entre os países produtores de petróleo da região, Angola ficará abaixo da média de 6% em 2011 — apenas à frente do Chade (2,5%)  e atrás da RDC (5%), Gabão (5,6%), Nigéria (6,9%) e Guiné Equatorial (5,6%) —
devido sobretudo, de acordo com o relatório, “a quedas inesperadas dos níveis de produção de petróleo”. Continua igualmente abaixo da média (5,2%) da região embora ligeiramente acima da África do Sul (3,4%) e da Namíbia (3,6%). Ainda para este ano o FMI aponta como países problemáticos a Suazilândia (decréscimo de 2,1%) e a Costa do Marfim (contracção de 5,8%).

Para 2012 o cenário altera-se radicalmente. O FMI prevê que a região cresça 5,8%, enquanto os países produtores de petróleo chegam aos 7,2%. Angola, por seu turno, crescerá 10,8%. A confirmar-se esta previsão Angola será a líder destacada da região (e a quinta melhor do mundo) e o único país da África Subsariana com um crescimento do PIB de dois dígitos — seguem-se o Gana (7,3%) e a RDC (7%).

A previsão mais preocupante vem do lado da inflação onde o FMI prevê que Angola atinja os 15% este ano (o segundo maior valor da região) e 13,9% em 2012 (o terceiro maior). Somados os dois indicadores o panorama indica que Angola terá um rápido crescimento do PIB no próximo ano (quase o triplo) e uma redução da inflação de 1,1 pontos percentuais. Caso para dizer: oxalá este ano termine depressa pois 2012 será decerto bastante mais risonho. Palavra de FMI.   

O Governo já tinha avançado que Angola iria crescer 3,6% este ano. O FMI estima que  o valor será de 3,7%

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Por: Jaime Fidalgo
 
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