Telecomunicações
Qwertyuiop.” Diz uma antiga lenda que essa estranha combinação de caracteres teria sido o conteúdo do primeiro e-mail da história. O ano era 1971 e o seu autor, Ray Tomlinson, um programador contratado pelo Departamento de Defesa americano para ajudar a construir as redes militares que mais tarde serviriam de base para a internet.
Lazaridis, um dos fundadores: A BlackBerry levou tempo a perceber que os executivos também gostam de se divertir
Tomlinson certamente não percebeu que estava perante uma invenção tão importante — caso contrário, talvez tivesse escrito algo mais memorável do que os referidos caracteres “q-w-e-r-t-y-u-i-o-p” que formam a primeira fila da maioria dos teclados.
Essa sequência de letras também foi responsável pelo sucesso de uma empresa que ajudou a definir o que se entende por “computação móvel”. A canadiana Research in Motion, ou RIM, lançou em 2002 o primeiro BlackBerry. Imediatamente o aparelho, dotado de um teclado completo, tornou-se um objecto inseparável para os executivos em todo o mundo.
Com o novo aparelho, iria ser possível escrever a partir do telemóvel. E graças a um robusto sistema de e-mail, o BlackBerry passou a ser um símbolo da nova geração de telemóveis, os smartphones.
Em 2005, a RIM chegaria aos 4 milhões de clientes, o dobro do ano anterior. Em 2008, conquistou 52% de quota no mercado americano de smartphones, ano no qual facturou 6 mil milhões de dólares.
Como os bons ventos não sopram para sempre, a RIM vê-se hoje numa posição menos confortável. À primeira vista, os resultados fiscais da empresa mantêm-se positivos. No primeiro trimestre do ano, a empresa vendeu quase 14,9 milhões de unidades, mais 700 mil do que no período homólogo do ano anterior. Tais resultados, porém, não têm sido suficientes para travar a longa tendência de queda das acções da empresa na Bolsa, nem para combater o cepticismo dos investidores e analistas.
O resultado é uma espécie de paradoxo. Ao mesmo tempo que a RIM cresce em vendas, em grande parte devido à entrada do BlackBerry em novos mercados, a empresa vale menos dinheiro. Em apenas dois anos, o seu valor caiu para metade.
A RIM parece não ter percebido, mas parte da explicação para este paradoxo remonta a 2008, quando um competidor aparentemente inócuo começava a ganhar espaço no mercado. Com um teclado virtual e sem os itens de segurança exigidos pela maioria das empresas, o iPhone parecia não oferecer risco ao domínio do BlackBerry no mundo empresarial. Mas através de uma inovação quase tão radical quanto o próprio aparelho, a Apple criou um mercado de aplicativos, a App Store. Dezenas de milhares de programadores passaram a criar softwares para o iPhone, aumentando o valor e a utilidade do aparelho da Apple. Enquanto isso, a RIM ficou parada. Primeiro a Apple e depois o Google, com o sistema Android, criaram um enorme ecossistema de programadores.
Tornou-se comum ouvir dizer que “a RIM perdeu a iniciativa do jogo”. E, para muitos analistas, não faltam motivos para acreditar nisso. A companhia, que já teve mais de metade do mercado global de smartphones, hoje tem uma quota de apenas 20%. A RIM insistiu em características mais técnicas que tiveram um impacto reduzido na decisão de compra: segurança, bateria mais duradoura e menor consumo de dados — uma das “vantagens” anunciadas nas campanhas de marketing dos BlackBerry é a capacidade de consumir até 70% menos dados do que smartphones convencionais.
Durante anos, Mike Lazaridis, responsável pela tecnologia dos BlackBerry, afirmava que os seus aparelhos jamais teriam câmara, leitores de MP3 e nomes facilmente identificáveis. “Um BlackBerry com um nome é ridículo”, dizia. Hoje, a linha de aparelhos da RIM está repleta de aparelhos com nomes como Bold e Storm. E todos têm câmara e players de MP3.
Estes números não incluem os tablets que, como os smartphones, dependem de um sofisticado sistema de desenvolvimento de aplicativos para atrair os consumidores. Este ano, a RIM lançou a sua versão de tablet, o Playbook. Apesar de ter recursos tecnológicos de ponta, o Playbook não oferece um software de e-mail: é preciso ter também um BlackBerry para poder usar o mais essencial dos programas.
O mercado dos smartphones, como se vê, pode não precisar da RIM para avançar. Há quem acredite, no entanto, que os BlackBerry terão sempre lugar no bolso dos empresários e executivos — mesmo que no outro bolso esteja um smartphone de outra marca. Pode ser. Mas é pouco para quem já foi sinónimo de inovação.
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no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.