Biografia
Um dos paradoxos da vida de Steve Jobs é que, apesar da sua conhecida obsessão pelo segredo e a privacidade, muitos detalhes da sua personalidade já eram conhecidos do público. Nos incontáveis obituários e tributos que se seguiram à sua morte, em 5 de Outubro, nenhum desses traços deixou de ser realçado: a obstinação, o perfeccionismo, a irritabilidade, a genialidade, o charme. Mas o retrato sempre pareceu incompleto, pois as histórias sempre vinham de segunda ou de terceira mãos.
Jobs em sua casa: Decoração minimalista porque ele não encontrava móveis de que gostasse
Aqueles que foram humilhados em público, aqueles que viram de perto o nascimento de produtos revolucionários, aqueles com quem Jobs dividiu as suas angústias e as suas alegrias quase nunca falaram abertamente sobre as suas experiências. Até agora. Steve Jobs, a biografia autorizada escrita pelo jornalista Walter Isaacson, é o relato

Jobs soube desde cedo que era um menino adoptado. Quando tinha 6 ou 7 anos, lembra-se de ter contado o facto a uma vizinha. “Então isso significa que os teus pais verdadeiros não te queriam?”, perguntou a menina. Jobs ficou arrasado. Em casa, os seus “pais” tranquilizaram-no: “Nós escolhemos-te especificamente a ti.” A ideia de ter sido abandonado teve um efeito forte sobre a personalidade de Jobs. “Steve falou muito sobre o abandono e a dor que isso causou. Isso tornou-o mais independente. Ele seguiu um caminho de ruptura, fruto de ter vivido num meio diferente daquele em que nasceu”, diz o amigo Greg Calhoun.
Na parceria entre Jobs e Wozniak, o segundo era o génio por trás das inovações tecnológicas e da programação. Nos primeiros dias da amizade, quando os negócios começaram a descolar, Jerry, o pai de Wozniak, chegou a sugerir que Jobs não merecia fazer parte do negócio, pois não produzia nada. “Você não merece merda nenhuma”, disse a Steve Jobs. O próprio Wozniak saiu em sua defesa. “Sem Jobs, jamais teria criado uma empresa baseada nas minhas invenções. Nunca me passou pela cabeça vender computadores”, afirma ele. Foi dessa parceria que nasceria a Apple.

Entre os muitos paradoxos aparentemente irreconciliáveis da personalidade de Steve Jobs estava a sua crença budista na libertação dos bens materiais. “Os nossos desejos de consumo são doentios. Para atingir a iluminação é preciso desenvolver uma vida sem apegos nem materialismo”, disse Jobs a uma namorada. Ela respondeu dizendo-lhe que ele estava a fazer o contrário, criando computadores como objectos de desejo. “No fim, o orgulho que Jobs sentia dos objectos que fabricava foi mais forte do que a sua noção de que as pessoas deviam evitar o apego a esses bens”, escreve Isaacson.
Ao contrário dos outros fabricantes de computadores dos anos 80, Jobs acreditava piamente que um computador deveria ter o hardware e o software integrados no mesmo aparelho, “tudo em um”. Isso significou, entre outras coisas, que o sistema operacional da Apple jamais seria fornecido a outros computadores, tal como fez a Microsoft com o Windows. A sua obsessão em manter a Apple e os seus computadores como entes isolados fez com que chegasse a encomendar ferramentas especiais, para que ninguém fosse capaz de abrir a caixa do Macintosh.
“Desculpem, não tenho muita mobília”, dizia Steve Jobs a quem visitava a sua casa. Essa era uma das suas idiossincrasias constantes: devido aos seus critérios rigorosos de qualidade, além da sua lendária tendência espartana, Jobs recusava-se a comprar um móvel que não o encantasse à primeira vista. Antes de morrer ele tinha apenas um candeeiro Tiffany, uma mesa de jantar antiga e um videolaser num Trinitron da Sony. Em vez de sofás e cadeiras, preferia ter almofadas e pufes no chão.
Steve Jobs tinha uma paixão especial pela tipografia. Quando estava a planear os preparativos do seu casamento, a noiva, Laurene Powell, apresentou-lhe a responsável pela execução dos convites para lhe mostrar algumas opções. Jobs olhou-as por algum tempo, levantou-se subitamente e saiu da sala. Elas ficaram à sua espera, mas ele não voltou. Até que Powell foi procurá-lo pela casa e encontrou-o no quarto. “Livre-se dessa mulher”, disse-lhe ele. “Não consigo olhar para o trabalhos que ela apresentou. São uma merda.”
Logo depois do lançamento de Toy Story, o primeiro filme da Pixar, a empresa abriu o capital na Bolsa. No final do primeiro dia de negociações, as acções de Steve Jobs valiam 1,2 mil milhões de dólares, cinco vezes o que ele havia conseguido com o IPO da Apple. Mas, em entrevista ao The New York Times, Jobs diria que o dinheiro não importava. “Não há iates no meu futuro. Nada do que fiz foi por dinheiro.”
O livro de Isaacson deixa em aberto quem foi o criador de uma das principais inovações da Apple, o ecrã táctil do iPhone e do iPad. Segundo uma das versões, o próprio Steve Jobs teria feito essa encomenda à sua equipa de engenheiros. O designer Jonathan Ive conta uma história diferente. Ele teria desenvolvido a tecnologia em segredo com a sua equipa e, quando acabou o protótipo, apresentou-o a Jobs que ficou encantado com a ideia. Ele sempre demonstrou ter um faro incrível para produtos vencedores.
O livro confirma uma história que já tinha sido publicada pela revista Fortune: Jobs passou nove meses a ignorar os conselhos dos médicos, familiares e amigos para se submeter a uma operação. Isaacson não faz qualquer especulação sobre uma eventual cura caso Steve Jobs tivesse sido operado antes. Mas traça o retrato de um homem teimoso que acreditava ser possível debelar a doença “com outras coisas”, entre elas uma dieta vegetariana, acupuntura e tratamentos encontrados na internet. “Não queria que me abrissem o corpo”, diria Jobs mais tarde — segundo o seu biógrafo, com sinais de arrependimento.
No final do livro, Steve Jobs tenta resumir o seu legado: “A minha paixão foi construir uma empresa onde as pessoas se sentissem incentivadas a fabricar grandes produtos. O resto era secundário. Claro, foi óptimo ganhar dinheiro, porque era isso que nos permitia fazer grandes produtos. Mas os produtos, não o lucro, eram a motivação.”

Editora
Simon & Shuster
(Outubro 2011), 632 págs.
Autora Walter Isaacson
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.