Edição nº 23
 

Tendências 2012

Entrevista: O desafio é a diversificação

Publicado a 16-02-2012 12:31:00
A forte dependência de Angola do petróleo tem sido um problema para as contas públicas, sempre que o barril de crude baixa da fasquia dos 60 dólares. É nesse sentido que Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI, accionista maioritário do BFA, aponta para a necessidade do país “recuperar sectores com expressão em Angola como agricultura, pescas e pecuária, de modo a tornar a economia menos dependente de importações”.


Cristina Casalinho, economista-
-chefe do Banco BPI e responsável pelo relatório quadrimestral sobre Angola do BFA

Em entrevista à EXAME, a responsável pelo relatório quadrimestral sobre Angola do BPI e do BFA salienta ainda o papel recente do BNA no combate à subida da inflação que, segundo Cristina Casalinho, se repercutiu “nalguns progressos manifestos no comportamento do índice de preços da cidade de Luanda” em 2011, dando assim boas indicações sobre a evolução do índice de preços no consumidor ao longo de 2012.

Quais serão os principais drivers da economia angolana em 2012?

Os principais factores de crescimento da economia angolana em 2012 serão: a estabilidade do preço internacional do petróleo claramente acima de 60 dólares por barril, a recuperação da produção petrolífera após o ano 2011 que desapontou (entraram em exploração dois novos poços no final de 2011), a aceleração da exploração do gás natural liquefeito, o menor conservadorismo na gestão da despesa pública e, sobretudo, o investimento.

O FMI deu o seu acordo a mais despesa de capital e nos últimos dois anos, sobretudo 2011, o Governo foi muito prudente, tendo ganho alguma margem de manobra para 2012. Além disso, 2012 é um ano de eleições, as quais tendem a favorecer a aceleração económica. Finalmente, a questão dos pagamentos atrasados do Governo foi regularizada. Tudo isso são boas notícias.

E quais os principais desafios que ainda falta vencer?

Os principais desafios passam pela gestão da instabilidade tradicional do preço do petróleo sem a repassar excessivamente para a actividade económica. Mas, a médio prazo, o grande desafio é a diversificação da actividade fora do sector extractivo, recuperando sectores com expressão em Angola como agricultura, pescas e pecuária. Assim poder-se-á tornar a economia menos dependente de importações, da volatilidade do ciclo do preço do petróleo e, sobretudo, estaremos a criar oportunidades de emprego e de geração de rendimento sustentável para uma população jovem em crescimento.

A economia angolana continua 
a ser fortemente dependente do petróleo. Até que ponto 
a crise europeia e americana 
se repercutirá na procura 
do “ouro negro” e, por arrasto,  na evolução do PIB de Angola?


Os factores-chaves da economia serão a recuperação da produção do petróleo e a estabilidade dos preços, a exploração do gás natural liquefeito e a gestão da despesa e do investimento público
O abrandamento da actividade económica na Europa e nos Estados Unidos costuma ter implicações ao nível do preço do petróleo, pressionando-o em baixa. Todavia, hoje a maior procura provém da Ásia, cujo crescimento económico permanecerá forte, embora se preveja um pequena  desaceleração, suportando, por isso, os preços do crude.

Em segundo lugar, a crescente oferta de petróleo resulta de explorações mais caras, encarecendo o seu preço final. E, finalmente, a instabilidade política no Médio Oriente, Norte de África e Irão, a despeito do possível arrefecimento da procura global, deverão ajudar a manter o preço do petróleo em patamares acima dos 60 dólares por barril, um valor relativamente confortável para a economia angolana.

Logo, não antecipamos grandes repercussões da dependência petrolífera em Angola, em 2012, no que respeita a surpresas negativas do lado do PIB. Acresce que a exploração de gás natural poderá ajudar a diversificar para fora da esfera exclusiva do petróleo, embora no âmbito das commodities energéticas.

Na política monetária, podemos esperar que, pela primeira vez, 
a taxa de inflação fique 
abaixo dos dois dígitos?

As autoridades têm eleito sucessivamente o combate à inflação como uma meta da política económica. Em 2011, foram feitos alguns progressos manifestos no comportamento do índice de preços da cidade de Luanda. Contudo, eles foram acelerados pela mudança de base do índice. Mas existe, de facto, uma tendência de declínio da inflação, a qual tende a ser lenta devido aos obstáculos estruturais do lado da oferta (com remoção demorada), os quais tenderão a actuar como um travão a quedas mais notáveis de inflação.

Acresce que economias com ritmos de crescimento tão expressivos, como Angola nos últimos anos, tendem a apresentar padrões de ritmos de crescimento de preços mais acelerados do que os registados em economias mais estabilizadas e diversificadas.


Por: Luís Leitão
 
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