Tendências 2012
Um jornalista francês, no calor caótico e anárquico dos primórdios da Revolução de 1789, descreveu o desgoverno que tomou conta da França quando o rei Luís xvi ficou isolado no Palácio de Versalhes e o poder se fragmentou. Nas reuniões dos novos líderes, segundo ele, a impressão que se tinha era a de que ali, naquele grupo, estava uma pessoa cuja perna direita queria ir para um lado e a esquerda para o outro, cuja boca desejava falar, mas cujos olhos exigiam repouso.
Merkel, a Senhora “Não”: A chanceler (na imagem acima com Adolf Hitler) dá as cartas no continente
É mais ou menos esse o cenário com que a Europa se prepara para entrar em 2012. No apogeu de uma crise económica épica, em que o euro corre sério risco de vida, a Europa vê os seus líderes reunirem freneticamente, mas com divergências que até transparecem nos sorrisos plásticos com que eles se apresentam perante os fotógrafos.
Já se fala, nas mais variadas línguas da região, numa “década perdida” para a Europa (tal como aconteceu na América Latina dos anos 80). Juntas, as suas três principais potências — Alemanha, Reino Unido e França — parecem aquela pessoa imaginária criada pelo jornalista durante a revolução francesa. Cada qual quer fazer uma coisa que não combina com o que os demais pretendem.
No mais recente capítulo dos desencontros, o primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron, recusou assinar, em Dezembro, um tratado destinado a combater a crise. O acordo estipulou, basicamente, um controlo severo por parte da União Europeia dos orçamentos nacionais. O objectivo é evitar défices semelhantes aos que puseram a Europa de joelhos e derrubaram sucessivos governos, o último dos quais foi o do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.
“Infelizmente, os nossos amigos britânicos não quiseram aderir”, disse o Presidente francês Nicolas Sarkozy. Amigos entre aspas, naturalmente. A recusa de Cameron gerou uma polémica enorme não só entre os seus pares europeus, a começar por Sarkozy e pela chanceler alemã Angela Merkel, mas também entre os próprios britânicos. Há no Reino Unido um receio de que, ficando à margem da “Nova Europa”, a Inglaterra acabe por se tornar vítima do seu isolamento. Metade das suas exportações são feitas para os demais países europeus. Isso mostra quanto o Reino Unido é dependente das nações com as quais não se alinhou.
O que deteve Cameron foram as regras que os britânicos teriam de adoptar no seu mercado financeiro, a lendária City de Londres. A crise económica dos últimos anos, provocada em grande parte pelos bancos entregues a uma ganância brutal, sem qualquer controlo externo, levou os países europeus — com a excepção da Inglaterra — a regulamentar firmemente o mercado financeiro. Cameron preferiu não transferir para Bruxelas a prerrogativa de decidir sobre o tratamento fiscal a prevalecer no centro financeiro inglês. Cameron deixou assim — numa defesa, para muitos descabida, da City em detrimento dos interesses colectivos europeus — uma porta aberta às críticas não apenas da oposição trabalhista, mas por muitos conservadores que gostariam de ver o Reino Unido mais integrado ao resto da Europa.
Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro” que governou os britânicos nos anos 80, teve a mesma postura de isolamento de Cameron. Isso acabou por ser um factor determinante para a sua queda abrupta e espectacular em 1989. Esse episódio tem sido lembrado entre os britânicos quando a atitude de Cameron é debatida nos media.
Merkel e Sarkozy, ou “Merkozy”, como os jornais os têm chamado, estavam juntos para tentar demover pessoalmente Cameron. Mas isso não significa que as coisas estejam bem entre os dois. Não é à toa que o sobrenome de Merkel aparece na frente do apelido da dupla. Em tempos duros, fala mais alto quem tem mais dinheiro — e, nesse caso, que o tem é Merkel. A Alemanha é a maior economia europeia e, provavelmente, também a mais ajustada aos novos tempos. Os alemães têm um modelo económico que tem algumas semelhanças com a fórmula vitoriosa chinesa: o país não se desindustrializou nas últimas décadas, ao contrário da maior parte das potências ocidentais, e tem um formidável superavit comercial.

Uma análise favorável do actual quadro é que o novo tratado europeu empurra todos os países rumo às mesmas virtudes económicas da Alemanha. Para a Europa, é sem dúvida melhor parecer-se, no seu conjunto, mais com a Alemanha do que com a Grécia, Irlanda ou Portugal. Mas, no lado menos brilhante das coisas, também os outros países têm o seu fantasma, a Alemanha. Desde a era dos bárbaros, que os alemães têm, de tempos em tempos, mostrado aos vizinhos um apetite voraz por conquistar e dominar.
Hitler foi a última manifestação desse apetite, mas não a única ao longo da história. O incómodo dos franceses com o predomínio de Merkel na parceria Merkozy pode traduzir-se na derrota de Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Um anúncio da Renault que já está no ar mostra o estado de espírito do francês médio. Ironicamente, a narração do anúncio é acompanhada de legendas em alemão. Se o euro sobrevive ou não, ninguém põe as mãos no fogo. Nas casas de apostas londrinas, tem crescido o número de gente que arrisca que não.
Criado em 2002, o euro já nasceu com falhas. Foi acordado que as moedas teriam numa face um mapa da Europa e, na outra, um símbolo que fosse escolhido por cada país. A Grécia, por exemplo, optou, nas moedas de 1 e 2 euros, por colocar um touro e uma jovem. “Parece que é uma ode à harmonia entre homens e animais”, diz Mary Beard, professora de Assuntos Clássicos em Cambridge. “Mas na verdade é um rapto — Zeus, o “Rei dos Deuses”, transformado em touro voador, roubando a Princesa Europa, aterrorizada, da sua cidade natal.” A escolha grega parece não fazer muito sentido, assim como muitas outras coisas numa moeda que amanhece em 2012 sem que ninguém saiba se chega a 2013. “Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita”, diz a sabedoria popular.
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.