Edição nº 23
 

Tendências 2012

Sustentabilidade: apenas mais uma conferência?

Quando aconteceu a Rio 92, o encontro de cúpula organizado pela ONU para discutir o então relativamente novo tema do desenvolvimento sustentável, os Estados Unidos ainda eram governados por Bush (pai), o euro ainda não existia e a abertura económica chinesa estava apenas a começar. A tese de que a temperatura da Terra pudesse estar a aumentar perigosamente estava essencialmente restrita ao mundo académico.


Tempestade de areia na China: Encontros sobre o clima costumam servir para boas fotos — e pouco mais

Em 2012, as lideranças políticas mundiais estarão novamente no Rio de Janeiro para avaliar os progressos — ou a falta deles — nas duas décadas que se passaram desde o evento original. O mundo mudou muito, mas no que diz respeito às discussões sobre o clima, tudo parece na mesma. Será que o ímpeto dos esforços por uma agenda global está a arrefecer de vez? A expectativa para a reunião de Copenhaga, realizada há dois anos, era grande, mas o encontro acabou sem resultados importantes.

Com a perspectiva de uma prolongada crise económica a dominar  a agenda dos governantes, e perante as dificuldades em conseguir um equilíbrio entre ricos, emergentes e pobres quando o assunto envolve o desenvolvimento sustentável, o receio (justificado) é que o evento no Rio resulte em muito pouco, tal como aconteceu na Dinamarca.

Claro que o êxito ou fracasso, dependerá do ponto de vista do observador. Em meados de Dezembro, em Durban, na África do Sul, depois de duas semanas de intenso debate, os representantes de quase 200 países concordaram com um plano que vai substituir o Protocolo de Quioto. O acordo firmado no Japão em 1997 criou obrigações para 40 países limitarem as suas emissões de dióxido de carbono. Agora chegou-se a um consenso para que todos reduzam as suas emissões, incluindo China, Índia e Estados Unidos, três dos maiores responsáveis pelas emissões de carbono na atmosfera.

Os negociadores proclamaram o resultado como um sucesso histórico, o avanço mais relevante em mais de uma década de negociações. Mas os mais pessimistas (ou realistas) apontam que ainda não há detalhes sobre o montante dos cortes nas emissões, muito menos uma data para que elas entrem em vigor. Estima-se que os números só sejam acordados em 2015 e que o pacto só entre em vigor em 2020. As comemorações são nonsense, diz Michael Levi, investigador especializado em energia da Council of Foreign Relations, sediada em Nova Iorque. Michael Levi aponta que, apesar das declarações oficiais, não há garantias de que o pacto obrigue legalmente os signatários a reduzir as suas emissões.

Mais importante do que as datas, porém, é a questão do termómetro. Nada do que foi discutido na África do Sul muda as previsões de que, até ao fim do século, a temperatura do planeta esteja 3,5 graus mais alta. Isso é muito mais do que os 2 graus geralmente considerados o limite máximo aceitável do aquecimento global. Em 2100, quando as futuras gerações estiverem a estudar História, certamente um dos temas será o que foi feito, ou o que não foi feito, para evitar mudanças potencialmente catastróficas no clima durante este início do século xxi.

É nesse cenário que a reunião do Rio de Janeiro vai acontecer. Como costuma ocorrer em eventos com Presidentes e primeiros-ministros, o encontro vai ter mais pompa do que conteúdo prático. Na verdade, talvez nem tenha tanta pompa assim: em Novembro, o evento mudou de data porque coincidiria com a celebração dos 60 anos da coroação de Elizabeth II no Reino Unido. Espera-se uma declaração conjunta dos participantes, possivelmente com menção a um órgão mundial que centralize as questões ligadas ao ambiente. Hoje, os mais de 500 acordos multilaterais sobre o assunto estão espalhados por várias agências das Nações Unidas. A ideia é criar algo semelhante à Organização Mundial do Comércio.

Outro tema importante será a transição para a economia verde. Um dos objectivos da Rio+20 é passar a tratara o tema da sustentabilidade não apenas do ponto de vista ambiental. Por exemplo, uma das ideias em causa é a de atribuir valores financeiros para os bens da natureza. Também se discutirá o estímulo à inovação tecnológica como um meio de geração de crescimento económico e de produtos e serviços mais sustentáveis.

Esse enquadramento mais orientado para a tecnologia e a denominação monetária dos recursos naturais, embora seja apoiado pelos governos, deve gerar controvérsias. Numa das reuniões preparatórias para a cúpula, realizada no início de 2011 em Nova Iorque, o embaixador boliviano nos Estados Unidos, Pablo Salon, resumiu a crítica essencial a essa nova “missão” que deverá ser acordada no Rio. Para Salon, o “capitalismo verde” seria apenas uma camada de tinta, incapaz de resolver os problemas da pobreza e da injustiça. Segundo essa linha crítica, a ideia de sustentabilidade estaria a ser desvirtuada. “Essa ‘economia verde’ não passa de um cavalo de Tróia para que a destruição continue a acontecer”, escreveu o comentarista Jim Thomas, ligado ao movimento ambientalista.

Apesar da oposição dos ecologistas, parece certo que as lideranças mundiais vão fazer um esforço para aproximar a sustentabilidade do terreno económico. O problema é de outra natureza: nestes tempos turbulentos, com uma crise que se arrasta há mais de três anos, quaisquer declarações sobre o assunto, mesmo que sinceras, correm o risco de não ecoar por muito tempo depois das fotografias e apertos de mão.


Por: Sérgio Teixeira Jr.
 
Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário


Edição Impressa
Exame 37

O maior World Trade Center do mundo

Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares 
e poderá gerar negócios 
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.








 

 
 






 

Assinaturas

Medianova

Assine as publicações da Medianova e receba comodamente as várias edições em formato PDF no seu email