Edição nº 23
 

Tendências 2012

Jogos Olímpicos: Todos aos 
seus lugares

A abertura dos Jogos Olímpicos de Londres está marcada para o dia 27 de Julho, mas a cidade já está envolta na atmosfera dos grandes jogos. No Aeroporto de Heathrow, há cartazes com os olímpicos anéis por todos os lados. Nas portas dos tradicionais táxis pretos, há autocolantes que chamam a atenção para o evento.


Na Trafalgar Square, existe um relógio que faz a contagem regressiva. Como os principais espaços desportivos ficaram prontos há meses, algumas competições preparatórias estão a ser organizadas, até como forma de teste para a realização dos Jogos. As obras que ainda faltam prosseguem num ritmo calmo e sereno. A tempestade que ainda não amainou foi o debate sobre os custos e, principalmente, sobre o legado dos Jogos Olímpicos para a cidade e para o país.

Em 2003, quando a ministra Tessa Jowell anunciou que a cidade organizaria os Jogos Olímpicos de 2012, o orçamento de Londres era estimado em 5 mil milhões de dólares. Depois de várias revisões do projecto, o valor chegou a 15,5 mil milhões de dólares, segundo o último balanço feito em meados de 2011. Embora não haja até agora denúncias de grandes desperdícios e de casos escabrosos de corrupção, o recente anúncio de que a conta poderia ficar ainda mais cara causou uma grande polémica.

Segundo a última estimativa, serão necessários mais 500 milhões de dólares para o sector de segurança. Com gastos que parecem não ter fim, grande parte da população começa a perder o espírito desportivo. “A maior preocupação é se o investimento terá retorno”, diz Stephen Dunham, presidente da Dunham Consulting, consultoria inglesa especializada em gestão desportiva. A meta é perseguir o sucesso de Barcelona, que ganhou um novo status em 1992, e evitar a qualquer custo o fracasso de Montreal, cidade que demorou cerca de 30 anos para pagar as extravagâncias dos Jogos Olímpicos de 1976.

Até aos anos 70, os Jogos eram um evento de uma dimensão relativamente modesta. Desde então, os orçamentos com os gastos aumentaram na mesma proporção do que a atenção despertada pela competição em todo o mundo. Com a Grécia (organizadora dos Jogos de 2004) quase falida e a China (sede dos Jogos de 2008) em desaceleração, ganha força a discussão sobre a relação de custo/benefício do evento. Para a maioria dos economistas que se debruçaram sobre esse tema, as vantagens tangíveis são transitórias e relativamente escassas para o resto da economia. Há dois anos, foi feita uma análise detalhada sobre o impacto económico das oito Olimpíadas realizadas entre 1980 e 2008. A conclusão foi que os países acrescentaram, em média, 0,7 pontos percentuais à sua taxa de crescimento nos três anos anteriores e no ano dos Jogos Olímpicos. Nos anos seguintes, não foi possível avaliar se houve, ou não, impacto. O estudo não deixa dúvida de que o aumento está ligado aos investimentos feitos em infra-estruturas. Adam Blake, professor de Economia da Universidade de Nottingham, chegou a conclusões semelhantes. Segundo Blake, não há um padrão consistente no período posterior ao evento. Na Austrália, por exemplo, o PIB cresceu nos dois anos anteriores e no ano dos Jogos, mas caiu nos anos seguintes.

Uma área que os próprios economistas admitem que ainda precisa de ser estudada mais a fundo são os benefícios intangíveis, como o aumento da autoestima da população. Essa mudança é patente no Rio de Janeiro que parece ter renascido após décadas de um pessimismo generalizado.  A pouco mais de quatro anos e meio do início dos Jogos Olímpicos de 2016, o cronograma está relativamente em dia, com algumas obras já em execução. O orçamento inicial é de 28 mil milhões de reais, mas está prevista uma revisão dos custos para 2012.

O Porto Maravilha, onde serão realizadas as regatas, está a ser revitalizado sem se utilizar dinheiro público. A ideia é repetir a bem-sucedida mudança no Wentworth Point, em Sidney, uma região degradada transformada em bairro residencial. “Queremos aprender com as boas experiências de outras cidades”, diz Maria Silvia Bastos Marques, presidente da Empresa Olímpica Municipal. Incompetência organizativa e escassez de mão-de-obra são dois factores que podem atrapalhar os planos “O risco do Brasil é não cumprir o que está planeado”, diz Maurício Girardello, sócio da PricewaterhouseCoopers. Os envolvidos no projecto dos Jogos Olímpicos de 2016, obviamente, negam qualquer risco. Dizem ter um planeamento semelhante ao de Barcelona. Para evitar o excesso de optimismo, é bom que se recordem do fiasco dos Jogos Pan-Americanos, realizados no Rio em 2007, algo que ainda está bem vivo na memória de todos os cariocas.



Por: Márcio Kroehn
 
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