Tendências 2012
O ano 2012 está repleto de profecias catastróficas. Uns falam do calendário maia, outros esgrimem o argumento de um estranho alinhamento de planetas ou da passagem de um cometa. Todos — cientistas, astrónomos e místicos — parecem ter-se unido numa sagrada aliança que antevê o fim do mundo tal como o conhecemos.
Os economistas, embora menos propensos à espiritualidade, também têm mais razões do que nunca para dar largas ao seu proverbial pessimismo. Por sua vez, os analistas (os oráculos modernos de quem investe) dizem que o abrandamento da economia mundial é a única certeza para este ano. Tudo o resto é um mar de dúvidas e de incertezas que, na melhor das hipóteses, só deverão começar a esfumar-se no segundo semestre de 2012. Por tudo isto, prudência será a palavra-chave para que os investidores não embarquem neste delírio apocalíptico.
A verdade é que numa altura em que a tempestade financeira não se despediu e a bonança ainda não se vislumbra no horizonte, investir revela-se uma tarefa complicada. Sobretudo para os investidores mais nervosos. Porém, também é verdade que é precisamente nestas alturas, em que a incerteza é grande e o medo faz aparições diárias nas sessões diárias de Bolsa, que as boas oportunidades se escondem. É nesse sentido que Larry Kantor, responsável pelo departamento de research do britânico Barclays Capital (BarCap), defende que “agora é a altura certa para olhar para activos cujas avaliações ficaram mais atractivas”.
Para os investidores mais incautos e ansiosos por ir à procura das pechinchas que se escondem nas principais praças financeiras, é importante recordar que os mercados são conhecidos por terem pouca memória. Em particular, quando se trata de períodos negativos. Por vezes, basta um golpe de sorte (leia-se ganhos inesperados) para os investidores se entusiasmarem e perderem a racionalidade, enchendo o mercado com ondas de optimismo desmesurado julgando que o pior já passou. O mesmo se passa no sentido inverso. Veja-se, por exemplo, a montanha-russa de emoções que andou de mão dada com o “sobe e desce” constante das acções ao longo de 2011. Num minuto, os investidores estavam a vaticinar um crash iminente e, no minuto seguinte, parecia que uma onda de esperança desmedida tinha tomado conta das Bolsas.
Todos os anos, as maiores casas de investimento publicam um relatório com as suas dicas para aplicações para ajudar os clientes a contornarem as armadilhas dos mercados. Para este ano, parece haver alguma unanimidade entre os profissionais em torno de uma receita. Todos salientam a necessidade de os investidores seguirem à risca a regra primordial da gestão de uma carteira de investimento: diversificar o risco por activos e por zonas geográficas. Isto significa simplesmente não colocar todos os ovos no mesmo cesto, o princípio básico da diversificação. Dada a enorme incerteza que se vive na economia e nos mercados, é muito fácil que uma simples rajada de vento provoque uma tempestade na estratégia de investimento.
É também em respeito a esta regra de ouro que passam as dicas do Goldman Sachs, mas com uma nuance: diversificar sim, mas desde que a estratégia não passe pela aposta em obrigações alemãs e de empresas europeias, porque as “enormes pressões sobre os saldos orçamentais dos países da zona euro deverão persistir, assim como o aperto das condições de acesso a financiamento na Europa”, referem os analistas do banco norte-americano.
Ou seja, nem as obrigações do Tesouro alemão, antes encaradas como refúgio pelos investidores, escapam ao chumbo dos especialistas. Não é para menos: há largos meses que as obrigações do Tesouro alemão estão a negociar com yields abaixo dos 2%, oferecendo assim uma rentabilidade real negativa aos investidores que as comprarem. “O primeiro semestre será especialmente difícil para os activos de risco como acções, as matérias-primas, as obrigações high yield e a dívida periférica, com os investidores a preferirem refúgios como o ouro ou mesmo os bunds [obrigações do Tesouro da Alemanha] ou treasuries [obrigações do Tesouro dos Estados Unidos]”, vaticinam os analistas da IG Markets.
É por isso que a equipa de analistas recomenda aos investidores a focagem no mercado accionista, sobretudo na Bolsa de Nova Iorque onde antecipam uma valorização média superior a 13%.
Entre as apostas do BarCap para se investir em 2012 destaca-se a “preferência por activos com taxas de rentabilidade significativas e baixos níveis de alavancagem e relativamente isolados dos riscos da zona euro”, lê-se no documento “Global Outlook”, publicado em Dezembro. Mas isto não significa que os investidores devam adoptar uma estratégia de investimento mais defensiva. Pelo contrário. O BarCap recomenda aos seus clientes orientarem a sua carteira com base numa abordagem menos defensiva ao risco por considerar “que o risco de um colapso da zona euro tem diminuído” ao mesmo tempo que os “mercados financeiros estão preparados para responder positivamente a uma redução do risco. Isto porque o sentimento de mercado é sombrio e o posicionamento [das carteiras] é defensivo”.
Para os investidores que queiram apostar no mercado accionista, os especialistas deixam uma dica: “Devem favorecer empresas com elevados dividendos, um baixo nível de alavancagem e uma reduzida exposição à zona euro.”
Por sua vez, Russ Koesterich, da Blackrock, sugere aos investidores que comecem o ano a favorecer “a manutenção de uma posição forte em acções de grandes empresas e que paguem elevados dividendos”. Koesterich recomenda o investimento em mercados accionistas desenvolvidos mais pequenos tais como Canadá, Austrália, Suíça, Singapura, Hong-Kong e alguns mercados emergentes sobretudo da América Latina.
Os analistas do Goldman Sachs salientam uma aposta sectorial centrada na indústria petrolífera, por acreditarem que o crude continuará a valorizar em 2012. Para aproveitar a subida do preço do “ouro negro”, o Goldman Sachs sugere duas estratégias: a aposta em acções canadianas; e o investimento em contratos de futuros sobre o Brent com vencimento em Julho de 2012, por acreditarem que a crise da dívida soberana na zona euro penalizou em demasia o preço do petróleo negociado em Londres. Mas não é só o petróleo a merecer o optimismo dos especialistas no segmento das commodities. A generalidade das casas de investimento aposta numa valorização de quase todas as matérias-primas. “Nas commodities, a forte correlação com os mercados accionistas deverá manter-se. Gostamos de matérias-primas que sofrem constrangimentos ao nível da oferta, tais como nos minérios, o paládio e o cobre, e nos cereais, o milho”, referem os analistas da IG Markets, antecipando ainda que “o ouro não deverá inverter a tendência de subida que se tem verificado nos últimos anos”.
O BarCap, por sua vez, refere que “este não é o tempo para abrir posições de venda em commodities, “especialmente porque os mercados-chave desta classe de activos — tais como os grãos e petróleo — são altamente vulneráveis aos riscos climáticos e geopolíticos”.
Somando todas estas dicas, conclui-se que dificilmente 2012 será esquecido pelos investidores. Sabemos que os mercados serão um local impróprio para cardíacos e todo o cuidado será pouco para o seu dinheiro. Mas recordando a máxima de Warren Buffett está é a altura onde os mais destemidos poderão brilhar.
Investir no petróleo, fugir das obrigações soberanas e apostar em acções de empresas que paguem elevados dividendos são três das estratégias recomendadas pelos especialistas. Conheça cinco oportunidades e ameaças
As acções europeias e dos Estados Unidos estão a negociar a valores historicamente baixos. De acordo com dados da Bloomberg, as acções das 50 maiores empresas da zona euro estão a cotar a preços inferiores a 11 vezes os lucros gerados nos últimos 12 meses por acção (PER). E os 30 títulos das maiores empresas americanas têm um rácio PER de 13 vezes.
Recomendações
O BarCap recomenda que se “privilegie empresas com dividendos elevados, pouco alavancadas e com baixa exposição à zona euro”. Já a Blackrock, sugere o investimento em grandes empresas que paguem dividendos altos e que estejam cotadas em mercados desenvolvidos mais pequenos, tais como Canadá, Austrália, Singapura, Suíça e Hong-Kong ou nalguns mercados emergentes, como a América Latina.
A crise financeira na zona euro atirou a yield das obrigações soberanas dos países da zona euro e de algumas empresas europeias para valores verdadeiramente incomportáveis. Porém, também gerou um efeito contágio exagerado sobre alguns títulos, colocando-os numa situação bastante atractiva.
Recomendações
Alguns especialistas sugerem o investimento em obrigações de empresas não financeiras a operar nos Estados Unidos com um rating elevado, que reflicta um reduzido risco de crédito. É o caso dos títulos de dívida da Johnson & Johnson, Microsoft ou da Procter & Gamble.
Nos últimos anos, o arrefecimento do crescimento da economia mundial foi compensado pela pujança dos mercados emergentes. Porém, em 2012, essa realidade deverá mudar. Segundo as previsões dos especialistas, o crescimento de países como a China e o Brasil deverá ser menos expressivo do que no passado. As suas economias começarão a sentir os efeitos da política monetária mais restritiva que adoptaram para conter a inflação, observando-se uma inflexão da política monetária.
Recomendações
Caso o processo de arrefecimento económico nos países emergentes ocorra dentro do nível esperado, os investimentos ficarão mais apelativos. Contudo, o risco de uma travagem económica mais brusca não é negligenciável. Além disso, há um risco geopolítico nalgumas dessas regiões, como é o caso do Médio Oriente e Norte de África. Recomenda-se por isso prudência no investimento em emergentes.
A generalidade dos especialistas não tem dúvidas em antecipar a valorização do preço do petróleo. Sobretudo se as tensões políticas continuarem a agudizar-se, como se tem visto recentemente com o Irão a lançar ameaças de que paralisará o fluxo de transporte de petróleo pelo estreito de Ormuz.
Recomendações
O Goldman Sachs recomenda a aposta em contratos de futuros sobre o Brent com vencimento em Julho de 2012, sugerindo que essa posição tenha em conta um limite de perdas nos 100 dólares e de ganhos nos 120. No mercado accionista, as principais apostas dos analistas do Goldmans Sachs centram-se em títulos canadianos, por a Bolsa norte-americana ser rica em empresas a operar no “sector energético e dos materiais.”
A crise da zona euro vai continuar a penalizar fortemente a moeda única em detrimento do dólar norte-americano e de outras moedas internacionais. Caso o Banco Central Europeu acabe por enveredar por uma política de expansão monetária, dificilmente a moeda europeia será capaz de evitar uma contínua desvalorização. O dólar, por sua vez, deverá beneficiar do seu estatuto de refúgio na primeira metade do ano, embora a possibilidade de a Reserva Federal norte-americana embarcar na terceira versão de quantitive easing, poderá fragilizar a moeda na segunda metade.
Recomendações
A equipa de analistas do Goldman Sachs aconselha a aposta em moedas asiáticas, como yuans e ringgite malaios, por estes países (China e Malásia) apresentarem “elevados superavits da balança de transacções correntes e alguns sinais de excessiva acumulação de reservas internacionais”.
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