Edição nº 24
 

Desporto

Super taça Compal: Uma competição sumarenta

Publicado a 21-03-2012 12:22:00
Quem se deslocou ao mítico Pavilhão da Cidadela de Luanda para assistir à final da terceira edição da Super Taça Compal decerto não se arrependeu de ter trocado a tranquilidade de um domingo solarengo em família, um mergulho na praia ou a animação do Carnaval pelas ruas da capital, pela assistência ao duelo entre os campeões de Angola (Petro) e de Portugal (Porto). Mais do que um simples jogo de basquetebol tratou-se de uma verdadeira festa que levou ao rubro os amantes da modalidade.


DUELO DE GIGANTES: Puxados pelo público, os campeões nacionais do Petro venceram os portugueses do Porto. Triunfo merecido

Dentro do campo o Petro foi um vencedor justo. Apesar de o primeiro período ter terminado com uma vantagem de seis pontos para os campeões lusos, os angolanos, “puxados” pelo público, mostraram ser claramente superiores terminando o encontro com uma diferença de 13 pontos (64-51). Outro ponto alto da “festa” foi a sentida homenagem, realizada durante o intervalo, às “meninas de ouro” — as campeãs africanas de basquetebol feminino — ovacionadas entusiasticamente pelo público que (quase) encheu o pavilhão. Mas o verdadeiro espectáculo aconteceu nas bancadas. A “torcida” do Petro, trajada a rigor, cantando e dançando ao ritmo febril dos batuques, demonstrou uma alegria contagiante, colocando o resto do público num dilema: dar atenção às estrelas em campo ou aos anónimos da “galera”. Isto já para não falar de outras distracções como as coreografias das seis majorettes ou a energia do impagável “Toy Limpa-Chão” que transforma cada segundo em “palco” com a sua esfregona, num show teatral. Por todas estas razões o jogo da afinal fechou com “chave de ouro” aquela que foi considerada “a melhor Super Taça Compal de sempre”.

Pela primeira vez 
a taça realizou-se 
em duas cidades 
(Benguela e Luanda) com seis equipas
Os elogios são justificados. Em primeiro lugar, porque a edição teve mais duas equipas (seis no total). Aos vencedores do campeonato e da Taça em Angola e Portugal (Petro e Libolo, Porto e CAB Madeira, respectivamente), juntaram-se o detentor da última Super Taça Compal (1.º de Agosto) e o campeão moçambicano (Maxaquene). Em segundo, porque a prova foi descentralizada. A primeira fase decorreu no Pavilhão das Acácias Rubras, em Benguela, e a segunda em Luanda. Em terceiro, porque o patrocinador (a Compal) decidiu aumentar o valor dos prémios (1400 milhões de kwanzas para o primeiro classificado, 700 mil para o segundo, 560 mil para o terceiro e 420 mil para os restantes). Em quarto, porque a qualidade competitiva foi muito elevada (as equipas apresentaram-se na sua máxima força dignificando o espectáculo). E, em quinto, porque a organização esteve irrepreensível e o público deu colorido às bancadas, não obstante as transmissões televisivas para os três países envolvidos.

Quarta Super Taça em Maputo...

Na conferência de imprensa onde se fez o balanço da competição os dois treinadores “finalistas” não pouparam elogios ao certame, nascido em 2009, que teve como “pais” os presidentes das Federações Angolana e Portuguesa de Basquetebol, mas só possível devido ao patrocínio da Compal, marca que comemora o seu 60.º aniversário. O treinador do finalista vencido, o espanhol Moncho Lopez, reconheceu a superioridade do Petro, mas enalteceu sobretudo o público angolano pela forma como vive a modalidade. “Confesso que até sinto inveja. Gostava que os pavilhões em Portugal também estivessem assim — cheios e com um público entusiasta.” O treinador do Petro, Alberto Babo também reconheceu que a vitória “deveu-se à atitude dos jogadores, que souberam recuperar da má entrada no jogo e ao incentivo do público”. Reconheceu também ter sido um momento especial ter defrontado a sua antiga equipa (ele passou grande parte da carreira no Porto como jogador e treinador).  

A Federação Angolana (representada por Jean-Jacques da Conceição, devido à muito comentada ausência do presidente Gustavo Conceição) congratulou-se pelo êxito desta parceria entre as duas federações e o apoio da Compal. “Cremos que a prova serviu para despertar o interesse pela modalidade na juventude.” Por fim, Mário Saldanha, presidente da Federação Portuguesa, afirmou que “se assistiu a basquetebol de alto nível” salientando o facto de a Super Taça Compal ser um torneio de excelência que está em crescimento contínuo desde a primeira edição”. O responsável português protagonizou o momento mais mediático da conferência ao admitir prescindir do direito de organizar a quarta edição da Super Taça (que caberia a Portugal) em prol de Moçambique que manifestou esse desejo, disponibilizando o pavilhão em Maputo, construído para os Jogos Africanos de Setembro de 2011.

Em exclusivo para a EXAME, Fernando Oliveira, director de mercados internacionais do grupo Sumol+Compal, também manifestou simpatia pela ideia. “Apesar de Moçambique ser apenas o terceiro mercado africano da Compal, depois de Angola e de Cabo Verde, julgamos que tem um grande potencial de crescimento não só devido ao desenvolvimento económico do país, mas também devido à sua localização estratégica como plataforma de entrada na SADC”, afirmou.

Recorde-se que, já depois do evento, a Sumol+Compal anunciou que irá construir uma nova fábrica em Moçambique, nos arredores de Maputo (as quatro unidades industriais são em Portugal), no qual detém 90% do capital. O grupo propõe-se investir 8 milhões de euros (mais de 10 milhões de dólares ao câmbio actual) no primeiro ano de actividade, de modo a alargar a presença no espaço SADC. Segundo o grupo, no ano passado, as vendas para os mercados internacionais atingiram 80 milhões de euros (107 milhões de dólares), mais 30% do que em 2010. Nesse ano (as contas de 2011 ainda não foram divulgadas), a Sumol+Compal exportou para 69 países. Portugal representou 81% das vendas, sendo os restantes mercados, por ordem de importância, Angola, Cabo Verde, França, Espanha e Suíça.

Próxima final pode ser em Moçambique, país onde a Compal irá investir 10 milhões de dólares numa fábrica
O que não vem nos relatórios é o investimento da marca na realização da Super Taça. Fernando Oliveira também não avançou com números. “Seria aliás deselegante da nossa parte fazê-lo, justificou acrescentando, porém, que “trata-se, sem dúvida, do maior evento da marca Compal em todo o mundo”. Informou também, sem disfarçar o orgulho, que esta foi a edição mais exigente de todas. “Alargámos a competição para seis equipas, incluindo a presença inédita, do campeão moçambicano. Realizámos a prova em duas cidades angolanas e fizemos 11 mil quilómetros em viagens. Tudo isso aumentou a complexidade logística da organização”. Os custos obviamente também dispararam para cerca do dobro (devido, entre outros, ao elevado preço das viagens e das estadas em Angola). No entanto, Fernando Oliveira crê que o investimento valeu a pena. “Foi uma prova com alto nível competitivo, com uma larga cobertura da imprensa e um público fantástico. É muito importante que a competição seja vista pelo maior número de pessoas nos três países, de forma a ajudar ao desenvolvimento do basquetebol”, justifica.

... e Compal Air em Angola?

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Fernando Oliveira também manifestou disponibilidade em apoiar outras iniciativas similares. “A marca Compal está associada ao conceito de alimentação saudável através do consumo de fruta. A prática de desporto é um outro elemento fundamental para uma vida saudável.” Questionado sobre a possibilidade de se organizar uma Super Taça Compal feminina, o responsável disse que a ideia faria todo o sentido. “Como demonstrámos na homenagem que hoje fizemos às campeãs angolanas, julgamos ser importante valorizar o desporto feminino. Isso faz parte dos valores da marca Compal. Mas a iniciativa tem de partir das federações. Teria de ser planeada com o mesmo rigor e exigência da primeira Super Taça em masculinos.”

Outra inicitiva que Fernando Oliveira gostaria de ver replicada em Angola é a Compal Air, por ele qualificado como o único projecto integrado de desporto escolar em Portugal (já vai na 7.ª edição e envolve 900 estabelecimentos de ensino em articulação com o Ministério de Educação), uma prova reconhecida pelo Comité Olímpico Internacional. “São competições de três contra três que culminam numa final nacional e têm um forte impacto no aumento da prática da modalidade junto dos jovens”, defende.

Fernando Oliveira realça igualmente o contributo que a Super Taça Compal tem dado para o incremento das relações entre dois povos ligados por fortes laços emocionais e que falam a mesma língua. “Recordo que a primeira final foi ganha pelo Benfica, em Angola, e que a segunda foi vencida pelo 1.º de Agosto, em Portugal. Em qualquer dos casos houve uma grande festa no pavilhão. Desta vez, o Petro foi um justo vencedor. Mas estou convencido de que se o Porto tivesse ganho, também sentiríamos o mesmo espírito de alegria e de celebração.”

Nós, que assistimos ao vivo à festa, não podemos deixar de concordar. Estamos certos de que competições desportivas deste tipo fazem mais pelo incremento das relações entre os povos do que os mais bem intencionados dos discursos políticos ou das missões empresariais. A Compal está portanto de parabéns e merece um brinde... com sumo de fruta.

Uma marca vitaminada

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O grupo surgiu da fusão entre a Sumol e a Compal, duas marcas portuguesas históricas, em 2008. Depois de um arranque difícil, a reviravolta ocorreu dois anos depois com os resultados a passarem de prejuízos de 5,9 milhões de euros, em 2009, para lucros de 8,4 milhões, em 2010. Nos primeiros nove meses de 2001, o grupo registou uma quebra de vendas em Portugal de 9,4% e um aumento no exterior de 23%. Os lucros foram 5,9 milhões de euros, menos 10,6% do que no período homólogo do ano anterior. Hoje, o grupo exporta para 69 países, sendo Angola o seu principal destino internacional. Fazem parte do seu portefólio as marcas de sumos e refrigerantes Sumol, Compal, B! e Bongo, as águas Frize e Serra da Estrela, os concentrados GUD e Citro e as cervejas Tagus e Grolsch. Em Portugal comercializa, sob licença, outras marcas sonantes como a Pepsi, 7 Up, Guaraná Antarctica e Gatorade, Lipton Ice Tea. Um êxito recente foi a nova linha Compal da Horta, que inclui vegetais e derivados de tomate.


Por: Jaime Fidalgo
 
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