Edição nº 24
 

Exame Final

"É preciso tratar 
o petróleo como se fosse ouro"

O jornal britânico The Guardian já colocou Terry Tamminen em primeiro lugar numa lista de 50 pessoas que podem salvar o mundo. Um dos principais assessores do ex-governador da Califórnia, o actor Arnold Schwarzenegger, Tamminen, acredita que é possível dar conforto à nova classe média mundial de uma forma sustentável. Ele falou em exclusivo para a EXAME.


É possível viver sem petróleo?

Claro que ainda precisamos de petróleo. Sempre que viajo num avião, ele é obviamente movido por um derivado de petróleo. Mas o actual nível de poluição e de devastação ambiental pode ser evitado. Se as petrolíferas fizessem mais investimentos preventivos, poderíamos evitar acidentes como o derrame de crude da Chevron, no Brasil, ou da BP, nos Estados Unidos. Não há nada errado com o petróleo. O problema está apenas na forma como o usamos. Não deveríamos queimá-lo, mas, sim, tratá-lo como ouro. Há produtos como o plástico e os medicamentos que dependem muito mais do petróleo do que os meios de transporte.


Quais são os riscos da exploração do pré-sal?

Já foi dito que a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra e a do petróleo também não acabará por falta de petróleo. O problema é que pagamos um preço cada vez maior para extraí-lo. No Canadá até está em estudo a construção de centrais atómicas para tornar viável a exploração de petróleo. Isso é um absurdo. Talvez essa não seja a situação do pré-sal, mas creio que estamos a ir longe de mais no esforço de extrair petróleo.


Qual é o papel dos biocombustíveis nessa transição?

O Brasil é um óptimo exemplo. O etanol proveniente da cana-de-açúcar é muito mais sustentável do que o etanol norte-americano feito à base de milho. Há milhões de veículos em todo o mundo que precisam de um novo combustível líquido porque não podemos, repentinamente, transferir toda a frota automóvel para algo completamente novo, tal como os veículos movidos a hidrogénio.


É possível ter, ao mesmo tempo, uma economia global mais sustentável e atender às necessidades de milhões de novos consumidores que ascenderam socialmente?

Será um grande desafio, mas, sim, é possível. Podemos evitar desperdícios, reciclar tudo. Há quem já esteja a fazer isso com êxito.


Mas isso é algo possível à escala mundial?

Em 1990, uma nova lei na Califórnia determinou que, até 2005, metade do lixo seria desviado dos aterros, seja por reciclagem seja por uma redução na quantidade de lixo. O objectivo foi alcançado. Uma lei recente determina uma redução de 75% até 2015 com base nos dados de 1990. E já há planos para atingir 100% em 2020.


Qual tem sido o papel das empresas nesse processo?

O Walmart, maior retalhista do mundo, espera chegar ao desperdício zero e usar 100% de energia renovável até 2020. É sintomático que uma empresa desse tamanho compreenda a importância dessas medidas para o seu negócio. Essa é a prova de que uma transição muito maior pode acontecer se os executivos quiserem.


O estilo de vida consumista está com os dias contados?

Sim e não. Provavelmente, continuaremos com os nossos aparelhos de ar condicionado e banheiras de hidromassagem. Mas teremos menos automóveis e mais soluções de transporte com base em energias alternativas. Quando isso acontecer, teremos decerto uma maior qualidade de vida e seremos mais sustentáveis.


Por: Terry Tamminen, Autor e consultor em assuntos ambientais
 
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