Edição nº 24
 

Internet

Negócio da China - Yahoo Alibaba

A história é conhecida: Ali Babá, um pobre lenhador árabe, encontra uma caverna onde 40 ladrões escondem um tesouro roubado. Sozinho, ele descobre as palavras mágicas capazes de abri-la (“abra-te sésamo”) e recolhe para si parte da fortuna. Jack Ma, um chinês franzino, pode não entender nada de magia.

Jack Ma, criador do Alibaba: Compra de empresas como estratégia  de expansão global

Mas à frente do conselho do grupo Alibaba, hoje um gigante do comércio electrónico, ele parece cada vez mais próximo de um destino igualmente afortunado. Passados 12 anos desde a fundação da empresa em Hang zhou, na China, ele é o principal candidato à compra da americana Yahoo! num negócio (uma complicada engenharia financeira que os americanos designam de cash-rich split-off) também envolve a Yahoo! Japão.

Um dos símbolos da primeira fase da internet, a Yahoo! vive um momento delicado. Fundada na Califórnia em 1994, a empresa foi pioneira em serviços como o e-mail e o motor de pesquisas, e rapidamente se tornou um dos sites mais populares em todo o mundo. Com a chegada de competidores fortes, a sua liderança foi abalada. A tecnologia do seu motor de pesquisas não conseguiu acompanhar o ritmo do Google e ficou para trás. O serviço de e-mails gratuito, um dos maiores do mundo, também perdeu adeptos. Apesar de se manter como um dos portais mais utilizados da internet, o Yahoo! já não é apelativo, quer para os utilizadores quer para os investidores.

O Alibaba domina 
o mercado chinês 
que tem 322 milhões 
de utilizadores 
de internet, ou seja, quase o dobro 
do americano
Os primeiros rumores sobre a venda da companhia começaram a circular em 2008. Naquele ano, a Microsoft fez uma oferta de compra de quase 45 mil milhões de dólares. A proposta foi recusada pelo fundador Jerry Yang (a sua lendária teimosia em querer ficar sozinho resultou, em Janeiro deste ano, na sua exoneração de todos os cargos que ainda mantinha na empresa). A esperança de uma reviravolta surgiu no início de 2009 com a chegada da nova presidente Carol Bartz. Mas não durou muito tempo. Com resultados modestos, Carol foi demitida em Setembro de 2010, o que aumentou os receios sobre o futuro do Yahoo!

Durante o ano passado, não faltaram candidatos para assumir o controlo do Yahoo! A companhia, hoje avaliada em 20 mil milhões de dólares, recebeu propostas de associações com fundos de investimento e empresas de private equity, além de ofertas de antigos interessados, como a Microsoft. Mas foi a possibilidade de ser comprada por uma empresa chinesa, que viria a verficar-se, que causou maior alarde. Para muitos, esse é um sinal dos novos tempos. “Há algo de muito simbólico no acordo entre essas duas companhias”, diz Duncan Clark, presidente e fundador da BDA, consultora especializada em internet e tecnologia na China.

Jerry Yang: O fundador 
do Yahoo! 
foi forçado 
a resignar

Essa não é a primeira vez na história que os destinos de Alibaba e Yahoo! se cruzam. Em 2005, a Yahoo! comprou 40% de participação no Alibaba por cerca de 1000 milhões de dólares. Mas aqueles eram outros tempos. Na época, a Yahoo! valia 20 vezes mais do que o grupo chinês. Hoje, a quota do Alibaba adquirida pela Yahoo! representa mais do que o valor da empresa americana. É a chamada “vingança do chinês”.

A verdade é que no mesmo período o Alibaba acumulou glórias — fruto também de alguma sorte. O crescimento do mercado chinês jogou a seu favor. Enquanto os países desenvolvidos entraram em crise, a China despontou entre os emergentes. O Alibaba domina hoje um mercado de mais de 322 milhões de utilizadores de internet, quase o dobro do americano. Mais do que um site de comércio electrónico para empresas, o Alibaba é hoje um conglomerado da internet. No seu portefólio, estão companhias como a Taobao, especializada no comércio electrónicos para consumidores finais, o TaoBao Mall, focado na venda de produtos de grandes marcas, e o Alipay, de serviços de pagamentos on-line. O grupo, que em 2005 valia 2,5 mil milhões de dólares, tem hoje um valor de mercado estimado de 32 mil milhões.

Passaporte para a expansão global

O Yahoo! terá agora 
a oportunidade de se reinventar e replicar estratégias testadas no mercado oriental, de forma a combater a Google e a Amazon

Para o Alibaba, segundo analistas, a aquisição da Yahoo! pode ser um empurrão para os seus planos de expansão pelo mundo. A empresa já está nos Estados Unidos, mas, tal como outras chinesas, enfrenta dificuldades para se estabelecer nos mercados ocidentais. “Companhias chinesas nem sempre são vistas como um sinónimo de qualidade”, diz Rob Enderle, fundador da consultora em tecnologia Enderle Group. “Por isso, comprar empresas ocidentais pode ser um bom caminho para o Alibaba.” Do lado do Yahoo!, a compra poderia fortalecer a sua operação de comércio electrónico, um passo essencial para a recuperação das receitas e para fazer face a rivais como Google e Amazon. “A Yahoo! terá agora a oportunidade de se reinventar replicando estratégias testadas no mercado oriental e noutros mercados emergentes”, diz Cristiano Laux, director da Pyramid Research.

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A expansão do grupo Alibaba aponta novos caminhos para o equilíbrio de forças da internet. Nos últimos anos, empresas chinesas como a Tencent e Baidu cresceram em influência na Ásia. O impulso veio do crescimento massivo da Web nos países emergentes. Enquanto o número de utilizadores de internet nos Estados Unidos cresce menos de 1% ao ano, na China o ritmo é de 22%. “Na internet, são os utilizadores que definem o rumo do mercado”, diz Laux. Estará o futuro da internet nas mãos de empresas como a Alibaba? O Yahoo! tinha apenas um ano quando Jack Ma colocou as mãos num teclado de computador pela primeira vez. Agora será ele quem vai “digitar” o seu futuro.  





Por: Luiza Dalmazo
 
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