Edição nº 24
 

Transparência

O mapa-mundo da corrupção

Publicado a 01-04-2012 16:59:00

Dizem que é mais fácil acabar com o cancro do que com a corrupção, uma vez que não existe cura para a ganância dos homens. Mas isso não significa que a humanidade se deva resignar perante a corrupção. Uma maneira eficaz de a combater consiste em estudá-la, medi-la, compará-la — e finalmente publicá-la. É o que faz a Transparência Internacional (TI), uma ONG com sede em Berlim. Fundada,, em 1993 pelo alemão Peter Eigen, um ex-director do Banco Mundial, a TI opera em 70 países.

 
O activista anna hazare: Milhões de indianos apoiam a sua cruzada anticorrupção

Num dos seus estudos recentes, a TI investigou o grau de corrupção em 28 países. O foco foi o universo empresarial: quantas empresas aceitam pagar “gasosas” para fazer negócios no exterior. Não foi propriamente uma surpresa ver quem está no topo da listagem: as empresas russas. Com o colapso do comunismo, no final da década de 80, a Rússia transformou-se num local “muito pouco transparente”. Funcionários saídos da KGB, a temida polícia secreta soviética, amealharam fortunas em tempo recorde nomeadamente com o surto de privatizações.

Também não chegou a provocar perplexidade quem surge em segundo lugar: os chineses. Com a liberalização da economia nas últimas décadas, da qual resultou uma exótica mistura entre comunismo e capitalismo, a China tem visto crescer substancialmente o seu número de milionários. Essa é a boa notícia. A má é que muitas vezes o dinheiro provém de expedientes menos recomendáveis. Um recente editorial de um jornal chinês ligado ao governo disse que o combate à corrupção é uma das prioridades do país. Enriquecer, sim, mas não a qualquer preço. O que se passa hoje na China está espelhado na revista de negócios chinesa Hurun (veja EXAME n.º 21), que publica anualmente a lista dos mais ricos do país. Alguns dos milionários citados nos anos anteriores saíram, com rapidez, do topo da lista para a cadeia.

Emergentes são maus exemplos


Na Índia é vulgar um funcionário público dizer: “Chai pani”, 
que significa “tem chá 
ou água”. No fundo 
ele quer dinheiro para apressar as coisas
Entre os países emergentes, o Brasil é o que surge mais bem classificado no estudo da TI. Mas a proeza é de pouca monta, dada a situação precária dos demais emergentes. Na Índia, por exemplo, há um cansaço tão generalizado com a corrupção que um seguidor de Gandhi, Anna Hazare, tornou-se uma celebridade nacional ao fazer uma greve de fome para que o governo aprove leis duras anticorrupção. Os indianos estão habituados a pagar “gasosa” sempre que precisam de se dirigir a uma repartição pública. “Quando alguém renova o passaporte, por exemplo, o funcionário olha para a pessoa e diz: ‘Chai pani’”, escreveu recentemente um jornalista de Bombaim.

 “Isso literalmente significa: você tem chá ou água? Mas na verdade o que o funcionário está a dizer é: ‘Tem aí algum dinheiro para apressarmos as coisas?’”

Esse “arredondamento do salário” pode ir, feitas as conversões, de 3 dólares para garantir um bilhete de comboio a 600 dólares para os pais colocarem os filhos numa boa escola. Perante a banalização das corrupção há um site que se tornou um fenómeno de popularidade na Índia. O nome é autoexplicativo: www.ipaidabribe.com (“pagueisuborno.com”, em português). Diariamente os indianos colocam histórias sobre funcionários públicos corruptos. Os indignados esperam que, ao partilhar as experiências, possam acelerar uma mudança cultural que erradique os subornos. Mas não vai ser fácil. O caso indiano é tão complexo que, recentemente, o braço-direito de Hazare foi acusado de desviar parte do dinheiro doado para o combate à corrupção.

Jovem angolano nas bocas do mundo

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Mauro Manuel: Milhares de holandeses assinaram petição contra a deportação do angolano

No extremo oposto está a Holanda que ficou em primeiro lugar no estudo da TI. A honestidade parece estar bem entre os holandeses, mas isso não quer dizer que não existam problemas. No final do ano passado, o jornal De Volkstran, de Amsterdão, lamentou num editorial que os sentimentos humanitários dos holandeses estivessem a perder fulgor. O jornal citou como exemplos a popularidade crescente do político de extrema-direita Geert Wilders, devido à sua campanha contra os emigrantes de origem islâmica. E partilhou os contornos de um caso que comoveu os holandeses: o de um jovem angolano Mauro Manuel que enfrenta a perspectiva de ser deportado. A sua mãe entregou-o a um casal holandês há dez anos para que Mauro fugisse da guerra civil. Agora, ele fez 18 anos, e pela legislação holandesa seria obrigado a regressar a Angola. Mais de 100 mil holandeses assinaram uma petição contra a extradição do jovem. O caso chegou ao Parlamento que abriu uma excepção e deixou-o permanecer no país  até ao
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final do presente ano lectivo (Setembro). A ONG Defense for Children e a opinião pública holandesa exigem, porém, que lhe seja atribuída uma autorização de residência permanente, um pedido que foi recusado em Novembro do ano passado, após oito anos de espera. Transparência, parece mostrar este episódio, não quer dizer generosidade.

Refira-se, por fim, que a TI também publica anualmente um índice que avalia a percepção de corrupção em cada país. Na última edição, relativa a 2011, Angola manteve o 168.º lugar entre 182 países. Há dois factores atenuantes: a “nota” subiu uma décima e o número de países analisados aumentou (eram 178). Mas não deixa de ser um desempenho modesto.


Por: Paulo Nogueira, em Londres
 

Comentários

  1. Nicolau Garcia
    2012-06-15 14:03:02
    Olá! Gostei muito do vosso artigo e da análise perspicas que fazem sobre a corrupção em diversos países. Gostaria de receber todas as vossas publicações. Bom trabalho. Att: Nicolau Garcia
  2. eva oliveira
    2012-04-11 21:23:02
    Boa Tarde! Sou brasileira e gostaria, ddentro do possível, receber informações sobre política internacional, principalmente países emergentes. De preferencia os africanos. Att. Eva Oliveira
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