Gestão 2.0
O conceito de “aldeia global”, foi criado pelo filósofo canadiano Marshall McLuhan, para explicar que o progresso tecnológico estava a reduzir o planeta a uma aldeia. Quando delineou a sua visão em 1967, no livro The Medium is The Message, a internet ainda não existia (o autor faleceu em 1980). McLuhan usou como exemplo o advento da rádio nos anos 20, que gerou um contacto mais rápido e mais íntimo entre as pessoas.
Kony: As redes sociais influenciam
cada vez mais as decisões políticas
Mais tarde, surgiu a televisão (um meio de comunicação em massa ainda mais apelativo e poderoso) e depois a revolução do computador e das telecomunicações, que reduziu de vez as fronteiras do tempo e do espaço. Conforme salientam os estudiosos da obra pioneira de McLhan os media electrónicos estão a pôr-nos novamente em contacto com as emoções tribais. Com o e-mail e o telemóvel as formas de comunicação passaram a ser bidireccionais, entre dois indivíduos, tal como sucedia na tradição oral das aldeias. E a internet deu origem a um planeta cada vez mais interligado (um “mundo plano” como escreveu no seu livro Thomas Friedman).
A rede, entretanto, também evoluiu. Em termos simplistas, começou por ser um local onde as pessoas disponibilizavam conteúdos e os outros utilizadores escolhiam o que queriam ver socorrendo-se da ajuda de portais (como o Yahoo!) e motores de busca (como o Google). Após a ascensão do comércio electrónico (cujo grande caso de sucesso foi a Amazon) e o rebentar da bolha tecnológica (as chamadas dotcom que valiam fortunas em Bolsa, mas nunca chegaram a ter lucros) surgiu o que os peritos designaram Internet 2.0. A inspiração filosófica veio de um livro de James Surowiecki chamado A Sabedoria das Multidões. A partir daí, as pessoas deixaram de ser utilizadores passivos e passaram, elas próprias, a produzir conteúdos, a partilhar interesses e a juntar-se em comunidades virtuais. Foi o advento das chamadas redes sociais popularizadas por sites que hoje todos conhecem como o YouTube, Facebook ou Twitter (perderam entretanto fulgor outras redes pioneiras como o Flick, para as fotos, ou o My Space, para a música).
Confesso que acompanhei de perto esta revolução quando estudava em Stanford, na Califórnia. Mais tarde, fui convidado a participar nalgumas conferências (Berkeley e Columbia eram duas das faculdades mais avançadas no tema), na qualidade de especialista em edição e design de revistas. Mas nessa altura ninguém queria ouvir falar em” papel”. Muitos inclusivamente vaticinavam a sua morte (uma notícia que, parafraseando Mark Twain, se revelou exagerada). Nos Estados Unidos, os sites já angariavam mais publicidade do que os jornais e revistas; os jornalistas eram forçados a ganhar competências multimédia (nomeadamente na edição de vídeos) e as redes sociais, em particular o Facebook, tornaram-se uma loucura quase obsessiva. Numa dessas conferências conheci Robert Scoble, um dos primeiros bloguers dos Estados Unidos, que falou com um entusiasmo juvenil da “próxima grande coisa”: uma rede chamada Twitter. Através dela, dizia Scoble, soube da ocorrência de um terramoto no México dez minutos antes da notícia ter chegado aos jornais. Na altura, eu e os meus colegas de mesa, interrogámo-nos por que razão isso era assim tão importante. Nenhum de nós augurava grande futuro para o tal Twitter (estávamos completamente errados como hoje se sabe).
Este preâmbulo serve para ilustrar como o mundo instantâneo das redes sociais está a mudar as nossas vidas e a alterar os nossos comportamentos. Nesta EXAME falamos de vários casos. Desde empresários que usam o Twitter como arma de relações públicas ou da versão chinesa, o Sino Weibo, que se transformou num oásis de expressão individual. Já muito se escreveu sobre o lado positivo destas mudanças no que se refere, por exemplo, à democratização do acesso à informação ou à chamada de atenção da “aldeia global” para eventos dramáticos e situações de injustiça. A Primavera Árabe (que começou com a partilha de vídeos no YouTube e de mensagens pelas redes sociais) é um exemplo desse “poder das multidões” (com tudo o que isso implica de negativo e positivo).
Nesta edição contamos um outro lado mais perverso desse poder. Falamos do fenómeno viral em que se transformou um vídeo aparentemente “bem-intencionado” sobre Kony, um cruel guerrilheiro do Uganda acusado de crimes contra a humanidade. O vídeo foi criado por três jovens estudantes que mal conheciam o país. A rápida disseminação entre a comunidade estudantil e depois entre as celebridades e os políticos, levou o Presidente a autorizar uma operação militar. Muitos de nós (eu sou um deles) partilharam esse vídeo pelo Facebook também com a melhor das intenções. Só que afinal, sabemos hoje, os próprios ugandenses (que era suposto serem os beneficiários dessa boa intenção) odiaram o filme acusando-o de pouco rigoroso e paternalista (um “pecado” que os americanos são infelizmente exímios). Para mais, ficámos a saber que a organização que o lançou (Invisible Children) fica com grande parte dos donativos que recebe. Para dar um ar ainda mais trágico ao fenómeno, o realizador de Kony 2012 (um vídeo que bateu o recorde de visualizações na internet) está no hospital por não ter aguentado tanta pressão mediática. Um final dramático bem ao estilo de Hollywood..
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.