Edição nº 25
 

Estatísticas

A guerra 
dos números

"Não consegui nenhum número confiável, então acabei por inventá-los. Vários estudos demonstram que os números precisos não são mais úteis do que os números que inventados.

— Quantos estudos provam isso?

— 87.”

O diálogo acima é retirado da banda-desenhada Dilbert (uma personagem norte-americana que caricatura o mundo dos negócios). Mas a verdade não anda longe da ficção. Em 2006, o jornalista americano Carl Bialik decidiu investigar se o número mais usado para medir o mercado mundial de pornografia infantil era verdadeiro.

Segundo os “estudos”, o mercado movimentava 20 mil milhões de dólares por ano. O valor era citado com frequência por jornais como o The New York Times, aparecia em estudos académicos e chegou às publicações do Congresso americano sobre o tema. Bialik, desconfiado, queria ouvir o autor do tal estudo e analisar a metodologia que o havia levado a tal número.

A primeira etapa da sua odisseia foi o Congresso. Um funcionário esclareceu que o número vinha de um estudo do Centro para as Crianças Desaparecidas e Exploradas. Um porta-voz da instituição creditou a informação à McKinsey. A consultora, por sua vez, disse ter obtido o número de um relatório de uma ONG, que citou o FBI como a fonte. Mas um representante do FBI afirmou que jamais teve qualquer coisa que ver com a misteriosa estimativa. A conclusão foi que alguém havia inventado o número, que, depois de ser repetido por jornalistas e académicos crédulos, estava a influenciar fortemente a reacção do governo ao problema da pornografia infantil.

O perigo representado pelas estatísticas é o tema do livro Sex, Drugs, and Body Counts (“Sexo, Drogas e Contagem de Corpos”, numa tradução livre), da autoria dos cientistas políticos Peter Andreas e Kelly Greenhill. Eles acreditam que vivemos num mundo viciado em números. Aquilo que não pode ser medido “não existe”. Daí que os governos, os organismos internacionais e as ONG se tenham especializado na “invenção” de estatísticas. Esse não é um problema novo. Há décadas, o professor americano Aaron Levenstein comparou as estatísticas aos biquínis  — “o que mostram é interessante, mas o que escondem é fundamental”, dizia. Já em 1840 o historiador escocês Thomas Carlyle afirmava que um bom político poderia provar qualquer coisa com um punhado de números.

O grave, afirmam Andreas e Greenhill, é que a “guerra dos números” nunca foi tão aguerrida como agora. A velocidade dos meios de comunicação aumenta a procura por números e a multiplicação de organismos torna farta a oferta de estatísticas. As estatísticas são imortalizadas pela imprensa e agora também pela internet. Uma pesquisa no Google mostra que a estatística sobre o mercado de pornografia infantil ainda aparece, por exemplo, na Wikipedia.

Os autores do livro concentram-se em dois tipos de estatística — as que calculam o impacto das guerras e as das actividades ilegais como a pedofilia e o tráfico de drogas. Distorcer dados sobre os mortos em combate é uma tradição dos governos em estado de guerra. Um dos truques mais utilizados por quem manipula as estatísticas é conferir aos números um carácter supostamente científico — basta estar associado a uma instituição de prestígio para que um estudo ganhe credibilidade. Em 2006, pouco antes das eleições americanas, a Universidade Johns Hopkins divulgou que mais de 600 mil civis haviam morrido na Guerra do Iraque. Logo se descobriu que, apesar do carimbo da instituição, pouco havia de científico no estudo, cuja função oculta era aumentar a oposição à guerra.

Estatísticas ou meros palpites?

Assim como o inferno, o mundo das estatísticas manipuladas está repleto de boas intenções. Impera, dizem os autores, a ideia de que fins nobres justificam números mentirosos. Na prática, causas como o combate à pedofilia ou a guerra ao narcotráfico são baseadas em dados errados

Hoje, há estimativas para tudo: dimensão do mercado mundial de drogas, impacto do contrabando, prejuízos causados pela pirataria, volume anual do tráfico de pessoas. Mas poucas resistem a um exame minúcioso. Sobretudo pelo facto lógico de ser quase impossível medir actividades ilegais. São palpites, portanto. “Só que alguns são estastícas manipuladas que criam problemas reais”, escrevem os autores. Através delas há guerras injustificáveis que se prolongam; o dinheiro da ajuda humanitária é desviado por ditaduras que inflacionam dados sobre o drama de refugiados e governos que gastam dinheiro onde não devem.

Os autores recomendam algumas perguntas básicas antes que aceitemos um número como confiável. Quem o produziu? Para quem? Como o fizeram? Em suma, há que desconfiar dos números. “Nem tudo que conta pode ser contado”, disse o físico Albert Einstein. “E nem tudo que pode ser contado, conta”, dizia com humor. 


Sex, Drugs and Body Counts: The Politics of Numbers in Global Crime and conflict

Editora  Cornell University Press, 287 páginas.

Autora  Peter Andreas e Kelly Greenhill (editores)

As políticas públicas são baseadas 
nas estatísticas. Logo, há a tentação 
de quem as produz, de transformar 
aquilo em que acreditam em números.
Essa manipulação é particularmente evidente nas estatísticas sobre guerras.

Por: Tiago Lethbridge
 
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