Edição nº 25
 

Petróleo

A escalada do ouro negro

Publicado a 27-04-2012 11:01:00
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Apesar de o mundo estar em crise, o petróleo não tem parado de bater novos máximos quase numa base diária. O Brent, extraído no Mar do Norte, esteve a negociar no mês passado acima dos 125 dólares (mais de 95 euros) por barril em Londres, o valor mais elevado de sempre quando convertido em euros. Nós últimos cinco anos a escalada dos preços do Brent sucedeu a um ritmo médio de 12,81% por ano.

No mesmo sentido tem seguido a cotação do West Texas Intermediate (WTI) que, no mesmo período, contabilizou uma valorização anual de 9,95% na Bolsa de Chicago e hoje está a negociar acima dos 105 dólares por barril. Quem tem ganho com esta valorização são as acções das petrolíferas: no último quinquénio, por exemplo, por cada variação percentual da cotação do Brent, os títulos das 32 maiores petrolíferas da Europa valorizaram 0,5%.

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Desde 24 de Dezembro de 2008 — quando o Brent atingiu o valor mais baixo dos últimos oito anos, com o barril de crude a negociar nos 36,61 dólares — que o “ouro negro” transaccionado em Londres acumula uma valorização anual de 47% por ano. São poucos os activos que somam ganhos desta ordem. E de acordo com as estimativas dos analistas, a escalada não deverá ficar por aqui: segundo os especialistas de 36 casas de investimento consultados pela agência de notícias Bloomberg, o Brent deverá terminar o primeiro trimestre a negociar nos 109,97 dólares, e chegar ao final do ano a negociar acima dos 113. Para o WTI, os especialistas são mais conservadores, apontando para que o barril de crude chegue a Março a negociar nos 98,3 dólares e atinja os 106 no final do ano.

Para Angola, onde o petróleo representa mais de 45% do PIB e de 95% das exportações, estas são boas notícias. Celeste Fauconnier e Nema Ramkhelawan-Bhana, analistas do sul-africano Rand Merchant Bank (RMB), referem que a subida do preço do petróleo gerará “um contínuo aumento das receitas petrolíferas que deverá prevenir qualquer deterioração das finanças governamentais.”

Reservas nacionais duram até 2030

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Angola é hoje o 16.º país com mais reservas de petróleo do planeta e a 15.ª nação mundial que mais ouro negro produz. De acordo com os últimos dados conhecidos, as reservas de petróleo nacional ascendem a 13 500 milhões de barris, o equivalente a 1% das reservas mundiais. Angola é assim o terceiro país do continente africano com mais petróleo, logo atrás da Líbia e da Nigéria que, segundo a BP, detêm reservas petrolíferas no valor de 46 400 milhões e 37 200 milhões de barris, respectivamente.

Segundo o relatório de Março da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), as plataformas petrolíferas instaladas ao largo da costa do país extraíram, em Fevereiro, 1,82 milhões de barris diários. Trata-se de um aumento significativo face à média de 1,66 milhões de barris registada em 2011. Deve-se, entre outros, à entrada em funcionamento de projectos como o Pazflor, da francesa Total.

A Sonangol está muito optimista quando à evolução da produção para este ano que poderá superar os 2 milhões de barris por dia. Em África, apenas a Nigéria apresenta níveis de produção superiores. Segundo a OPEP, os nigerianos estão a extrair 2,04 milhões de barris de crude por dia. Porém, na última década, a produção petrolífera nacional cresceu a um ritmo de 9,51% por ano, ou seja, quase nove vezes superior ao da produção da Nigéria.

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O referido relatório da OPEP também confirmou que Angola se mantém o segundo maior fornecedor de petróleo da China. As necessidades crescentes de consumo do gigante asiático são aliás, segundo os analistas, uma das causas principais (a somar às tensões entre os Estados Unidos e o Irão) para a actual escalada dos preços do crude.

A Opep revela que Angola exporta 660 milhões de barris por dia para a China (o que representa 12,7% das necessidades de consumo desse país), valor que apenas é suplantado pelas importações da Arábia Saudita (1,14 mil milhões de barris por dia e uma quota de 22%). Seguem-se, por ordem de importância, a Rússia (11,3%), o Irão (9,5%) e o Iraque (7,3%).

Mas nem tudo são boas notícias: o extraordinário ritmo de crescimento da produção nos últimos anos pode estar a esmagar a longevidade das reservas angolanas. Caso não sucedam novas descobertas relevantes os peritos advertem que o petróleo existente em território nacional pode acabar em menos de duas décadas.

Trata-se de metade do tempo que durarão as reservas da Nigéria (as maiores de África) e bem longe dos 85,3 anos apresentados pela média dos países da OPEP, da qual Angola faz parte. Segundo cálculos da BP, a Venezuela é o país que mais pode depender do ouro negro, dado que de acordo com as suas reservas e o seu nível de produção, terá matéria-prima suficiente para mais de 100 anos.

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Recorde-se, no entanto, que no início do ano passado a Sonangol deu o tiro de partida para o início da exploração do pré-sal com o leilão dos primeiros blocos. Na ocasião, Carlos Saturnino, que liderou as negociações, disse que se trata de uma viragem na história da indústria petrolífera angolana. “Vão estar envolvidos recursos, quer financeiros quer de capital humano e tecnológico, de uma dimensão que nós, em Angola, nunca tivemos. No mundo, o único termo de comparação é o pré-sal nos campos petrolíferos da bacia de Santos no Brasil.”

No mês passado, foi a vez do administrador da Sonangol Sebastião Gaspar Martins ter afirmado no Kuwait que Angola pode abrir em 2013 um novo concurso internacional para a atribuição de concessões petrolíferas. Tudo somado, isto significa que as reservas angolanas deverão, a breve trecho, sofrer um forte impulso.

Em África, os analistas da BP calculam que as reservas petrolíferas existentes são suficientes para produzir petróleo para os próximos 35,8 anos. No entanto, Misa Takebe e Robert C. York, economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), alertam que “a produção de petróleo deverá atingir o pico na maioria dos países da África Subsariana nos próximos anos, e com excepção do Gabão e da Nigéria, as reservas petrolíferas poderão esgotar-se (caso não haja novas explorações e novos desenvolvimentos) nas próximas duas décadas”, alertam os especialistas num trabalho académico publicado em Agosto do ano passado.

Petróleo sem substitutos no horizonte

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Face a esta realidade, ganha cada vez maior importância para os países africanos que produzem petróleo a necessidade de procurar alternativas e apostar na diversificação da economia.

O Governo angolano tem dado mostras dessa vontade: nos últimos cinco anos, o sector petrolífero baixou de um peso de 62% do PIB para os actuais 45%. Aliás, no último relatório mensal do RMB, as analistas salientam que “o Governo angolano está comprometido a aumentar as reservas internacionais para ajudar a suportar novamente a economia contra a volatilidade das receita petrolíferas”, lembrando que no ano passado as reservas internacionais aumentaram 44%.

Fauconnier e Ramkhelawan-Bhana referem-se à recente tomada de posição do Executivo, que para assegurar a transferência das receitas petrolíferas para o Tesouro de uma forma transparente e em tempo certo, está a eliminar progressivamente os incentivos fiscais às operações da Sonangol, com excepção das relacionadas com os subsídios dos combustíveis. É importante salientar que esta decisão foi tomada após ter-se observado uma discrepância orçamental de 32 mil milhões de dólares nos fundos do Estado que resultaram de operações fiscais conferidas no passado à petrolífera.

Se a era moderna da indústria petrolífera tem como marco o ano 1859, quando Edwin Drake perfurou o primeiro poço, o fim pode ter uma data marcada. Com a produção a prosseguir aos valores actuais, as reservas mundiais conhecidas podem acabar nos próximos 46 anos, segundo cálculos da petrolífera britânica BP, cotada em Londres. Mesmo que as reservas continuem a crescer ao mesmo ritmo, o consumo tem dado passos bem “maiores do que as reservas”, o que constituirá uma forte ameaça ao paradigma energético mundial baseado nos bicarbonatos. A Exxon Mobil, a maior petrolífera do mundo, refere que por cada 100 barris de petróleo que são extraídos da Terra, apenas são substituídos 95.

O Médio Oriente, a pátria do ouro negro, tem mais de 54% das reservas de todo o mundo, mas a Venezuela, a Rússia e alguns países africanos também entram no grupo dos mais abastados em crude. E no topo dos poços petrolíferos em terra e no mar têm estado, na larga maioria, empresas estatais que controlam a maior parte das reservas petrolíferas dos países com o intuito de não deixar em mãos estrangeiras o controlo deste verdadeiro bem precioso. Não é para menos: não só nos últimos 40 anos a procura mundial de petróleo registou um crescimento por 31 ocasiões e na última década teve um aumento da procura em cerca de 10%, como até 2030, segundo projecções da BP, o petróleo será ainda responsável por quase 30% do consumo mundial de energia e por 87% do combustível utilizado na indústria transportadora.

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Na dianteira deste consumo, os Estados Unidos e os países da Europa deverão ser rapidamente substituídos pelos países emergentes, nomeadamente a China e a Índia, que segundo estimativas dos especialistas da BP serão responsáveis por 96% da procura do ouro negro.  Ainda assim, os líderes políticos americanos e europeus parecem estar empenhados em modificar esta fotografia e dar um pouco mais de diversidade energética a uma economia que ainda tem o petróleo como pilar fundamental da energia mundial. São os tentáculos desta fonte de energia que lhe dão força. Sinal dessa iniciativa por parte dos países do Norte são os amplos programas de subsidiação a projectos de energias renováveis. Porém, com tantos anos pela frente e face aos pequenos passos dados ao nível das fontes energéticas substitutas do petróleo, é extremamente difícil imaginar um mundo sem aviões a jetfuel, um parque automóvel sem carros movidos a derivados do petróleo ou um lar sem os plásticos, embora isso tenha, como sabe, custos ambientais elevados.

Wall Street define os preços do crude

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Um dos factores que influenciam a procura do petróleo é o crescimento económico. Afinal, o ouro negro é a gasolina da economia mundial. Porém, não é apenas do jogo da procura e da oferta que é formado o preço do petróleo. É notório que grande parte da pressão que o Brent e o WTI têm sentido nos mercados nos últimos meses se deve à ameaça do Irão fechar o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.

Mas isso não conta a história toda. Não é por acaso, que após 2006, a evolução do preço do crude deixou de desenhar uma tendência relativamente estável e iniciou uma verdadeira “montanha-russa” de sobe e desce constantes. A resposta está longe de ser dada apenas pelo crescimento do consumo das potências emergentes ou pela contracção da oferta que, na última década, têm mantido um diferencial estável entre os 4% e os 5%.

O cerne da questão está no coração do capitalismo, que ganhou um gosto particular pela negociação de contratos de futuro e outros derivados do petróleo.  Muitos acreditam que as maiores petrolíferas não são a Exxon (maior empresa mundial), Shell (3.ª), BP (4.ª), Sinopec (5.ª), Petrochina (8.ª) e Total (9.ª), mas, sim, as grandes casas de investimento que dão pelo nome de Goldman Sachs, Morgan Stanley, J.P. Morgan e Barclays, os grandes bancos de Wall Street”. De acordo com Michael Masters, um famoso gestor de hedge funds, no espaço de cinco anos o volume de dinheiro que estes bancos e outros grandes investidores injectaram no mercado das matérias-primas passou de 13 mil milhões de dólares para 300 mil milhões. Em 2008, por cada 27 barris de crude que foram negociados na bolsa de futuros da New York Mercantile Exchange, apenas um foi realmente consumido nos Estados Unidos.

“Aproximadamente, 60% a 70% dos contratos de futuros sobre o petróleo são negociados por especuladores. Não por empresas companhias aéreas ou petrolíferas, mas, sim, por investidores que estão à procura de fazer dinheiro tomando posições especulativas”, revelou Dan Gilligan, presidente da associação norte-americana para o mercado petrolífero, ao programa 60 Minutos, da cadeia televisiva CBS.

Só assim se justifica que a 22 de Setembro de 2009 o preço do barril tenha subido mais de 25 dólares em apenas uma sessão.  “Será que a China e a Índia, de repente, tiveram necessidades gigantescas de novos produtos derivados do petróleo num único dia? O jogo da procura/oferta não poderia elevar o preço até 25 dólares em apenas um dia, o que constituiu um aumento recorde do preço do petróleo, nem a subida para 147 dólares em menos de um ano”, comentou Michael Greenberger, um ex-director de negociação da Commodity Futures Trading Commission, dos Estados Unidos, a agência federal que supervisiona os contratos futuros de petróleo.


Angola é o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Representa 12,7% das necessidades de consumo do país
No mesmo sentido, seguem as conclusões de um trabalho de investigação da prestigiada universidade norte-americana Massachusetts Institute of Technology, revelando que “os fundamentos básicos da oferta e da procura não poderiam ter sido responsáveis pela subida vertiginosa do petróleo no ano passado”. O Morgan Stanley, por exemplo, não é uma petrolífera no sentido tradicional da expressão — não detém ou controla campos petrolíferos, refinarias ou bombas de gasolina. Mas, de acordo com os documentos da Securities and Exchange Commission, entidade reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos, o Morgan Stanley é um jogador importante no mercado grossista de petróleo, através de diferentes entidades controladas pelo banco. Significa que não apenas compra e vende o produto físico, através de subsidiárias e outras empresas que controla, como ainda tem a capacidade para armazenar 20 milhões de barris.

O Goldman Sachs também detém participações em grandes empresas do sector, caso de uma refinaria em Coffeyville, no estado do Kansas, que lhe permite controlar 43 mil milhas de gasodutos e mais de 150 terminais de armazenamento.

Por estas razões, hoje, não é de estranhar como é que em Março de 2008, quando barril de petróleo estava a ser transaccionado a “apenas” 100 dólares, o maior analista do Goldman Sachs perspectivava que, até ao final do ano, o preço do ouro negro atingiria os 200 dólares enquanto a Morgan Stanley estimava que o crude chegaria aos 150.
Quando se tem este tipo de capacidade para influenciar os preços do mercado é sempre mais fácil fazer previsões certeiras.   


Por: Luís Leitão
 
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