Edição nº 25
 

Construção

Faça você mesmo uma casa evolutiva

Publicado a 30-04-2012 13:51:00
Há cerca de um ano, a secretária para os Assuntos Sociais da Presidência da República e coordenadora da Comissão Nacional de Combate à Fome e Pobreza, Rosa Pacavira, desafiou as construtoras a apresentarem projectos para a construção de casas evolutivas com o limite máximo de custo de 8 mil dólares. A PG&D, liderada por Marília Resk, respondeu positivamente ao desafio.


ROSA PACAVIRA: Secretária para os Assuntos Sociais da Presidência da República e coordenadora da Comissão Nacional de Combate à Fome e Pobreza, inaugurou casa-modelo com 18 vice-governadores provinciais


O projecto é baseado na construção através de materiais locais, nomeadamente tijolos (que podem ser feitos no próprio terreno) e telha de cimento (fabricadas em Angola). Deste modo, os bairros ficam com uma imagem diferente das habituais casas fabricadas com blocos de cimento, rebocadas e pintadas.

A casa-modelo foi inaugurada no início do mês passado na vila de Catete na presença de Rosa Pacavira e 18 vice-governadores provinciais. O objectivo do projecto consiste em construir 50 casas evolutivas nos próximos seis meses em cada município do país, prevendo-se a entrega das primeiras residências em Junho.

As moradias têm uma tipologia T2 (dois quartos e uma casa de banho), uma área total de 60 metros quadrados e o custo de 8 mil dólares. Mas os beneficiários poderão obviamente construir outros compartimentos (acrescentar divisões, ou um jango, por exemplo) de forma evolutiva. Paralelamente, o Governo está a mobilizar empreiteiros em todo o território nacional para que o  projecto integre lavandarias comunitárias, escolas, centros de saúde e instalação de painéis solares nas comunidades.


As casas demoram apenas cinco dias a construir e um jango pode ser feito em apenas dia e meio
Mas o objectivo final é que este tipo de construção, com base no tijolo, se dissemine pelo país. “Queremos proporcionar casas sociais, confortáveis, estáveis e dignas, dirigidas às populações carenciadas e contribuir para a manutenção do ambiente. As casas são construídas com materiais feitos no terreno e a mão-de-obra também é local”, diz Marília Resk. Além da poupança de custos, a construção é muito rápida. “Uma casa com dois quartos e uma casa de banho demora cinco dias a construir e um jango pode ser feito num dia e meio”, justifica.

Meta é ter uma máquina por município

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MARÍLIA RESK: Directora da PG&D tem andado 
pelo país a explicar 
a técnica de construção. “Tanto  o material como 
a mão-de-obra 
é local”, afirma
O processo é também relativamente simples. Os tijolos são feitos com base na mistura do solo, cimento (a proporção é de 11 para 1) e água. “Trata-se de um material que é usado desde os primórdios da história. Retém o calor e deixa as casas mais frescas. Tem boa resistência e uma perfeita impermeabilidade, resistindo ao desgaste do tempo e da humidade”, elogia. Ao nível estético, pode adquirir tonalidades diferentes consoante as características do solo. A técnica proposta pela PG&D exige, no entanto, tijolos “especiais”. Têm dois furos, por onde se inserem vigas de ferro que depois são rebocadas com cimento e cintadas. A PG&D elaborou manuais em português, umbundo e kibundo, que explicam em detalhe as etapas do processo.

Esses tijolos podem, por sua vez, ser fabricados no terreno através de máquinas de prensa manuais ou hidráulicas. As primeiras, custam 11 mil dólares e fazem 600 tijolos a cada turno de oito horas. As segundas, custam 12 mil dólares, mas são mais rápidas (1600 tijolos por turno). “As de prensagem hidráulica exigem electricidade, ou gerador, o que pode ser um problema em locais mais remotos. Em regra, usamos as máquinas manuais para as demonstrações, mas recomendamos as hidráulicas que são mais eficazes. A diferença é de apenas 1000 dólares, devido a um convénio com a fornecedora brasileira, a Ecomáquina”, diz Marília Resk. O objectivo é que existam empresários locais que comprem essas máquinas e que depois forneçam os tijolos às comunidades locais. “Já existem pequenas fábricas a operar nas províncias Lunda e Malanje e interessados no Huambo e Namibe. A meta é que cada município tenha uma máquina.” Já as telhas de cimento custam 150 kwanzas por unidade (10 por metro quadrado) e são produzidas em Angola pela Telha Azul.

Casas serão concluídas pelos moradores

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As moradias têm a tipologia T2  — dois quartos e casa de banho — e 60 metros quadrados de área
Uma das componentes do projecto engloba a transmissão dessa técnica de construção junto dos empreiteiros e das comunidades, de modo a garantir e que as casas evolutivas sejam concluídas pelo seus moradores. Marília Resk tem-se desdobrado nesse esforço pelas províncias de Luanda, Bié e Kwanza-Sul. É algo que faz com naturalidade metendo, como se diz na gíria, “as mãos na massa”. Nascida no Recife (Brasil) confessa que o gosto pela construção de casas veio do pai, um engenheiro que trabalhava com o carismático político brasileiro Miguel Arraes, na altura governador de Pernambuco e que se distinguiu pelo apoio aos projectos sociais.

Marília é, no entanto, empresária desde os 17 anos, idade em que começou a trabalhar na indústria de telas de arame. Mudou para o Rio de Janeiro aos 24 anos, após concluir a licenciatura em Gestão, a somar ao mestrado em Planeamento Estratégico e Marketing e ao doutoramento em Tecnologias de Educação. Revela ter um grande “à vontade” no contacto com as populações, sobretudo as mais humildes, algo que advém de ter vivido quatro anos no Peru, outros quatro na Colômbia assim como em Melbourne, na Austrália e em Fresno, na Califórnia (Estados Unidos).

Chegou a Angola, país de quem se confessa apaixonada, há oito anos, onde fundou a PG&D que é uma especialista em criar e montar projectos, desde indústrias a escolas e universidades. “Gosto de me rodear de especialistas em cada área e de começar e terminar projectos. Por vezes, o grande problema em Angola não são os planos, mas, sim, a execução. E eu sou uma pessoa que me envolvo pessoalmente para que as coisas aconteçam. É por isso que tive uma empatia imediata com a secretária da Presidência, Rosa Pacavira, uma mulher que tem uma determinação extraordinária”, confessa.

Importa referir que Marília Resk vive atrás do projecto Nova Vida, numa rua paralela à estrada em direcção a Camama. Foi lá que construiu uma moradia de dois andares em tijolo, utilizando a técnica de casas evolutivas, e cujo aspecto exterior é propositadamente rústico. “Gosto dos tijolos assim, com falhas e partes carcomidas. No início, os meus vizinhos desconfiavam, julgando que era uma habitação pouco segura. Agora recebo pessoas de todo o lado que querem ver como a técnica pode ser aplicada de modo criativo.”

 De facto, o quintal de Marília está repleto de tijolos alinhados cuidadosamente onde a empresária costuma fazer demonstrações de construção, tal como sucedeu aliás com a reportagem da EXAME. A nossa “aula” teve de ser interrompida pois as câmaras da TPA já a esperavam para mais uma visita guiada. Uma curiosidade que, à medida que as casas em tijolo se banalizarem pelo país, deixará por certo de ter a mesma atenção mediática.


Por: Jaime Fidalgo
 

Comentários

  1. Marilia Resk
    2012-05-12 17:27:17
    Olá Herman, Voce pode me contactat pelo 934764994 Marilia
  2. Herman Lourenço
    2012-05-09 19:59:27
    Estou interessado neste projecto.Como contactar a PG%D
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