África

Em março de 2003, uns dias antes da invasão do Iraque, três amigos de infância de São Diego, Bobby Bailey, de 21 anos, Laren Pole, de 19, e Jason Russel, de 23, resolvem viajar para África para fazerem um filme sobre a guerra civil no Sudão. Eles eram apenas um trio de jovens estudantes, algo ingénuos e idealistas, com pouca experiência de viagens. O grupo acabou por falhar a missão e foi parar ao Norte do Uganda.
Kony 2012: O filme também foi visto no Uganda. Mas a população não gostou do protagonismo concedido ao criminoso
Quando chegaram à cidade de Gulu o camião que seguia à sua frente foi alvejado e duas pessoas morreram. Forçados a dormir na localidade aperceberam-se de que milhares de crianças andavam pela noite à procura de abrigo. No dia seguinte, perceberam que elas faziam isso porque receavam ser raptadas pelo LRA, um movimento armado de resistência que lutava contra o Presidente Yoweri Museveni, que havia chegado ao poder pela força. O LRA era liderado por uma figura sinistra, Joseph Kony, com fama de pilhar aldeias, torturar e matar prisioneiros, mutilar e violar as mulheres e raptar as crianças (que depois transformava em soldados). Apesar de ser constituído por pouco mais de mil guerrilheiros, o LRA ia espalhando o terror pelo Uganda, Congo, Sudão e República Centro Africana.
Nessa altura, os jovens perceberam que tinham acabado de deparar com um argumento ainda mais dramático para o seu filme. Regressados aos Estados Unidos começaram a editar o material recolhido que deu origem ao filme Invisible Children: Rough Cut, que visava denunciar os crimes de Kony e do seu bando de assassinos. O filme oficial foi lançado no ano seguinte. Para o promover o trio fez uma digressão pelas faculdades dos Estados Unidos sensibilizando os alunos para a causa. Num dos encontros, conheceram quatro jovens regressados de um programa de intercâmbio de estudantes no Uganda, com quem formaram o grupo Uganda Conflit Action Network, com sede em Washington. A pressão deu frutos em 2005, quando Kony se tornou o primeiro indivíduo acusado de crimes contra a humanidade pelo recém-criado Tribunal Penal Internacional de Haia.


Em 2008, George W. Bush enviou 20 elementos das forças especiais para apoiar os governos do Uganda e do Congo numa operação conjunta. Em Maio de 2010, Obama foi ainda mais longe e lançou 100 tropas especiais para o terreno — 30 para a República Centro Africana e 70 para o Uganda —, com o intuito de capturar Kony. Na altura, muitos duvidaram do sucesso da tentativa. Afinal, o Exército do Uganda já perseguia, em vão, o líder do LRA há 25 anos. Depois, porque o orçamento da operação era limitado (35 milhões de dólares) e não incluía helicópteros de ataque, vigilância aérea ou detectores de visão nocturna. Apesar das limitações, segundo uma reportagem da revista Time, os habitantes de Obo, no coração do território do LRA, receberam as forças americanas como heróis. Kony não foi apanhado, mas os cidadãos sentiam-se finalmente seguros.

As críticas mais arrasadoras vieram de uma jornalista ugandesa, Rosebell Kagumire (autora de um blogue sobre o tema). Segundo ela, a situação das crianças raptadas ou violados evoluiu radicalmente nos últimos cinco anos, pelo que hoje o vídeo já não faz sentido. Kagumire diz sentir-se chocada com o facto de os autores retratarem o Uganda como um povo que precisa dos (bons) heróis do Ocidente para o salvar dos maus. Aconselha-os a voltar ao terreno e a contar a verdade, em vez de falarem do assunto à distância, de uma forma perigosa e irresponsável. Pede, sobretudo, que eles apoiem as iniciativas locais, em vez de pressionarem o governo do seu país (os Estados Unidos) a enviar mais tropas.

A história também obrigou os especialistas a pronunciarem-se sobre o impacto actual das redes sociais. Muitas das pessoas partilharam o vídeo sem sequer o ver, estando, por isso, a amplificar uma causa da qual pouco, ou nada, sabiam. Claro que ninguém duvida de que a partilha do vídeo era um acto bem intencionado. Mas com diz o povo: “De boas intenções está o inferno cheio”. Quem se deve estar a rir neste momento é o mais infernal das personagens desta história. Falamos de Kony, o mau da fita.
O Lord´s Resistance Army (LRA) foi fundado em 1986, no Norte do Uganda, contra o Presidente Yoweri Museveni que havia tomado o poder pela força no ano anterior. Joseph Kony lidera o LRA desde 1988.
Russel, Poole e Bailey partem para África para filmar a guerra no Sudão. O acaso leva-os ao Uganda onde se deparam com milhares de crianças a vaguear pelas ruas, durante a noite, de modo a fugir ao LRA.
A viagem dá origem ao filme Invisible Children, que traça o perfil sinistro de Joseph Kony. O vídeo tem um sucesso imediato que conduz à criação de uma organização sem fins lucrativos com o mesmo nome.
Kony foi o primeiro indivíduo indiciado por crimes contra a humanidade pelo recém-criado Tribunal Penal Internacional de Haia. Nos Estados Unidos, é criado o grupo de lóbi o Uganda Conflict Action Network.
Fruto do lóbi junto de Washington e do apoio de celebridades com George Clooney ou Don Cheadle, o Congresso americano aprova o Northern Uganda Recovery Act que visa o desarmamento do LRA.
O senador Tom Coburn (“Dr. Não”), trava a aplicação da lei devido a razões orçamentais, Dezenas de activistas passam 11 noites ao relento, em frente ao seu escritório, até ele reconsiderar a decisão.
O Presidente Barak Obama envia 100 tropas especiais americanas — 30 para a República Centro Africana e 70 para o Uganda — no intuito de apoiar as forças locais a derrubar o LRA e Kony.
Kony, 2012 chega à internet a 5 de Março e em poucos dias é traduzido para 30 línguas e visualizado por cerca de 100 milhões de pessoas. O realizador não aguenta a pressão e é hospitalizado.
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.