Edição nº 25
 

África

Kony, o mau da fita

Publicado a 01-05-2012 10:18:00

Em março de 2003, uns dias antes da invasão do Iraque, três amigos de infância de São Diego, Bobby Bailey, de 21 anos, Laren Pole, de 19, e Jason Russel, de 23, resolvem viajar para África para fazerem um filme sobre a guerra civil no Sudão. Eles eram apenas um trio de jovens estudantes, algo ingénuos e idealistas, com pouca experiência de viagens. O grupo acabou por falhar a missão e foi parar ao Norte do Uganda.

Kony 2012: O filme também foi visto no Uganda. Mas a população não gostou do protagonismo concedido ao criminoso

Quando chegaram à cidade de Gulu o camião que seguia à sua frente foi alvejado e duas pessoas morreram. Forçados a dormir na localidade aperceberam-se de que milhares de crianças andavam pela noite à procura de abrigo. No dia seguinte, perceberam que elas faziam isso porque receavam ser raptadas pelo LRA, um movimento armado de resistência que lutava contra o Presidente Yoweri Museveni, que havia chegado ao poder pela força. O LRA era liderado por uma figura sinistra, Joseph Kony, com  fama de pilhar aldeias, torturar e matar prisioneiros, mutilar e violar as mulheres e raptar as crianças (que depois transformava em soldados). Apesar de ser constituído por pouco mais de mil guerrilheiros, o LRA ia espalhando o terror pelo Uganda, Congo, Sudão e República Centro Africana.

Nessa altura, os jovens perceberam que tinham acabado de deparar com um argumento ainda mais dramático para o seu filme. Regressados aos Estados Unidos começaram a editar o material recolhido que deu origem ao filme Invisible Children: Rough Cut, que visava denunciar os crimes de Kony e do seu bando de assassinos. O filme oficial foi lançado no ano seguinte. Para o promover o trio fez uma digressão pelas faculdades dos Estados Unidos sensibilizando os alunos para a causa. Num dos encontros, conheceram quatro jovens regressados de um programa de intercâmbio de estudantes no Uganda, com quem formaram o grupo Uganda Conflit Action Network, com sede em Washington. A pressão deu frutos em 2005, quando Kony se tornou o primeiro indivíduo acusado de crimes contra a humanidade pelo recém-criado Tribunal Penal Internacional de Haia.

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Invisible Children: Apenas 32% das doações chegam ao destinatário

No ano seguinte, nascia, em São Diego, a Invisible Children, um grupo de activistas que hoje emprega 43 pessoas. Ao contrário das organizações não governamentais (ONG) sem fins lucrativos tradicionais, o grupo não partilhava causas humanitárias ou princípios de neutralidade e não ingerência. Eles defendiam uma intervenção armada dos Estados Unidos para derrubar o LRA. “O que há de mais humanitário do que acabar com a violência brutal? As ONG tradicionais reduzem o sofrimento, mas não o impedem. O que é mais válido, salvar as pessoas que se afogam no rio ou travar quem as empurra para a água?”, justificava Ben Kessey, de 29 anos, director-geral da Invisible Children, desde 2006.

Visto por 85 milhões de pessoas

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Joseph Kony: Indiciado pelo Tribunal Penal Internacional em 2005 ainda continua 
com paradeiro incerto
A capacidade de mobilização era impressionante. Dois anos depois, já Kony e o LRA eram a causa internacional mais popular entre os estudantes universitários americanos. A campanha também atraiu o apoio de várias celebridades como George Clooney, Rihanna, Justin Bieber e Oprah. O tema chegou à Casa Branca e ao Congresso, que aprovou uma resolução que solicitava uma intervenção militar contra o LRA. A lei foi travada pelo senador Tom Coburn (conhecido com “Dr. Não”) que foi forçado a reconsiderar a decisão depois de centenas de activistas terem passado 11 noites acampados em frente ao seu escritório.

Em 2008, George W. Bush enviou 20 elementos das forças especiais para apoiar os governos do Uganda e do Congo numa operação conjunta. Em Maio de 2010, Obama foi ainda mais longe e lançou 100 tropas especiais para o terreno — 30 para a República Centro Africana e 70 para o Uganda —, com o intuito de capturar Kony. Na altura, muitos duvidaram do sucesso da tentativa. Afinal, o Exército do Uganda já perseguia, em vão, o líder do LRA há 25 anos. Depois, porque o orçamento da operação era limitado (35 milhões de dólares) e não incluía helicópteros de ataque, vigilância aérea ou detectores de visão nocturna. Apesar das limitações, segundo uma reportagem da revista Time, os habitantes de Obo, no coração do território do LRA, receberam as forças americanas como heróis. Kony não foi apanhado, mas os cidadãos sentiam-se finalmente seguros.


Ugandeses chocados com a ideia de que o país precisa de heróis americanos para os salvar dos bandidos
Esta história, que parece retirada de um filme de aventuras de Hollywood, sofreu uma reviravolta inesperada no mês passado. No dia 5 de Março, a Invisible Children, lança um vídeo de 29 minutos na internet intitulado Kony 2012. O filme descreve o protagonista como o criminoso de guerra mais famoso do mundo e apela à sua detenção, ou morte, imediata. A mensagem não era muito diferente do documentário original de 2003. Mas, por uma razão inexplicável, transformou-se num fenómeno viral. Segundo o grupo de activistas, registou 1 milhão de visualizações nas primeiras 24 horas. Nas 48 horas seguintes, conquistou mais 1 milhão de visitas a cada 30 minutos. E, seis dias depois do lançamento, 85 milhões de pessoas já tinham visto o filme, entretanto traduzido para 30 línguas.

8 milhões de dólares em donativos

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Kagumire: Jornalista ugandesa criou um blogue onde ataca o filme e a Invisible Children

A partir daí, tudo se precipitou. À medida que o vídeo era partilhado pelas redes sociais as críticas irromperam pela internet à mesma velocidade. Muitos disseram de ser demasiado ingénuo e simplista (ao que parece o governo ugandês da altura também havia cometido crimes similares). Outros argumentam que o filme já está obsoleto (hoje o LRA não passa de um punhado de guerrilheiros pés-descalços). A maior crítica, porém, foi o tom paternalista da mensagem e, sobretudo, a defesa da intervenção estrangeira. As reacções foram especialmente negativas no Uganda. Numa projecção na cidade de Lira, no Norte do país (onde há muitas vítimas de Kony), as pessoas começaram a apedrejá-lo, protestando contra o facto de se estar a conceder o estatuto de celebridade a um criminoso. O governo actual do Uganda chegou a fazer inclusivamente um filme de resposta garantindo que o país já não está em guerra e que Kony anda foragido há muito tempo (estima-se que se encontra escondido algures entre o Sudão do Sul, a República Democrática do Congo ou a República Centro Africana).

As críticas mais arrasadoras vieram de uma jornalista ugandesa, Rosebell Kagumire (autora de um blogue sobre o tema). Segundo ela, a situação das crianças raptadas ou violados evoluiu radicalmente nos últimos cinco anos, pelo que hoje o vídeo já não faz sentido. Kagumire diz sentir-se chocada com o facto de os autores retratarem o Uganda como um povo que precisa dos (bons) heróis do Ocidente para o salvar dos maus. Aconselha-os a voltar ao terreno e a contar a verdade, em vez de falarem do assunto à distância, de uma forma perigosa e irresponsável. Pede, sobretudo, que eles apoiem as iniciativas locais, em vez de pressionarem o governo do seu país (os Estados Unidos) a enviar mais tropas.

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Jason Russel: Realizador do filme não aguentou a pressão mediática
Mas o pior ainda estava para vir. Desde então, a Invisible Children passou a ser altamente escrutinada e a estar nas bocas do mundo. Diz-se que a organização recebeu mais de 8 milhões de dólares em donativos, dos quais apenas 32% foram gastos em serviços (o resto foi para despesas gerais e salários dos gestores). O principal visado foi o realizador do vídeo (muito criticado por obrigar o seu próprio filho a contracenar com ele nas filmagens). Jason não terá conseguido lidar com a pressão e acabou por ir parar ao hospital. Dizem que terá sido visto a vaguear, seminu, pelas ruas de São Diego, até ser socorrido pela polícia.

A história também obrigou os especialistas a pronunciarem-se sobre o impacto actual das redes sociais. Muitas das pessoas partilharam o vídeo sem sequer o ver, estando, por isso, a amplificar uma causa da qual pouco, ou nada, sabiam. Claro que ninguém duvida de que a partilha do vídeo era um acto bem intencionado. Mas com diz o povo: “De boas intenções está o inferno cheio”. Quem se deve estar a rir neste momento é o mais infernal das personagens desta história. Falamos de Kony, o mau da fita.

Cronologia
1986 LRA

O Lord´s Resistance Army (LRA) foi fundado em 1986, no Norte 
do Uganda, contra 
o Presidente Yoweri Museveni que havia tomado o poder pela força no ano anterior. Joseph Kony lidera 
o LRA desde 1988.

2003 AVENTURA

Russel, Poole e Bailey partem para África 
para filmar a guerra 
no Sudão. O acaso leva-os ao Uganda 
onde se deparam com 
milhares de crianças 
a vaguear pelas ruas, durante a noite,
de modo a fugir ao LRA.

2004 O FILME

A viagem dá origem 
ao filme Invisible Children, que traça o perfil sinistro de Joseph Kony. 
O vídeo tem um sucesso imediato que conduz 
à criação de uma organização sem fins lucrativos com 
o mesmo nome.

2005 TRIBUNAL

Kony foi o primeiro indivíduo indiciado 
por crimes contra 
a humanidade pelo recém-criado Tribunal Penal Internacional 
de Haia. Nos Estados Unidos, é criado o grupo 
de lóbi o Uganda 
Conflict Action Network.

2009 CONGRESSO

Fruto do lóbi junto 
de Washington e do apoio de celebridades com George Clooney 
ou Don Cheadle, o Congresso americano aprova o Northern Uganda Recovery 
Act que visa o desarmamento do LRA.

2010 DOUTOR NÃO

O senador Tom Coburn (“Dr. Não”), trava 
a aplicação da lei 
devido a razões orçamentais, Dezenas 
de activistas passam 
11 noites ao relento, 
em frente ao seu escritório, até ele reconsiderar a decisão.

2011 OPERAÇÃO

O Presidente 
Barak Obama envia 
100 tropas especiais americanas — 30 para 
a República Centro Africana e 70 
para o Uganda — 
no intuito de apoiar 
as forças locais a derrubar o LRA e Kony.

2012 O VIDEO

Kony, 2012 chega 
à internet a 5 
de Março e em poucos dias é traduzido 
para 30 línguas 
e visualizado por 
cerca de 100 milhões 
de pessoas. O realizador não aguenta a pressão 
e é hospitalizado.

Por: Filipe Cardoso
 
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