Edição nº 25
 

Automóveis

Curto-circuito na largada

Publicado a 01-05-2012 11:31:00

No documento enviado à Securities and Exchange Comission (órgão regulador das Bolsas norte-americanas), a fabricante de baterias para carros eléctricos A123 — que na altura (em 2009) estava prestes a realizar a sua oferta pública inicial (IPO) de acções —, apresentava estimativas muito animadoras para os anos seguintes.


Modelo Volt, da General Motors: 
Recebeu prémios e muitos elogios, mas 
não brilhou nas vendas

Com base em estudos de consultoras prestigiadas como a IHS Global Insight e AT Kearney, a A123 alertava os potenciais investidores que o número de modelos de carros com propulsão eléctrica deveria crescer de menos de 20 naquele ano, para cerca de 150 em 2014 e mais de 2200 em 2019.

Passados quase três anos, os especialistas continuam a ver um futuro radioso para os carros eléctricos, devido à obrigatoriedade da redução de emissões de poluentes estabelecida nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. Mas esse futuro parece estar mais distante. O passado serviu como uma espécie de “choque de realidade” para o mercado de carros eléctricos. Os dois principais modelos produzidos em massa, o compacto totalmente eléctrico Leaf, da japonesa Nissan, e o híbrido movido a electricidade e gasolina Volt, da General Motors, venderam abaixo das expectativas das construtoras. Juntos, foram responsáveis por apenas 33  mil unidades, metade das vendas previstas para o ano passado. “O mercado demonstrou que ainda não está preparado para abraçar os carros verdes a qualquer custo”, diz John Gartner, director da consultora Pike Research, especializada em tecnologias verdes.

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O custo, aliás, é a principal razão do pouco entusiasmo do consumidor com os carros de motor eléctrico e o sistema plug-in de recarga (que permite carregar a bateria do veículo em áreas de serviço especiais ou em casa, ligando-o à tomada). De acordo com dados da Pike Research, o interesse dos consumidores perdeu faísca. Em 2009, 48% dos entrevistados disseram estar muito interessados em comprar um veículo eléctrico. No final de 2011, a percentagem de interessados caiu para 40%.

O estudo conclui que os potenciais clientes estariam dispostos a pagar até 20% mais por um carro que polui menos. Devido à baixa escala de produção e ao alto preço das matérias-primas para o fabrico de baterias, o preço de um carro eléctrico ainda é o dobro do de um modelo equivalente a gasolina. O Volt, por exemplo, custa 39 145 dólares nos Estados Unidos, enquanto o Chevrolet Cruze, de dimensão semelhante e motor de combustão interna, é vendido a partir de 16 720 dólares. A baixa autonomia dos carros eléctricos é outro inconveniente. O Nissan Leaf percorre apenas 160 quilómetros antes de precisar de uma recarga de bateria que demora até 10 horas. “O problema é que os automóveis convencionais também estão a ganhar eficiência. Isso desencoraja o consumidor a optar por um carro muito mais caro e com uma tecnologia pouco desenvolvida”, diz Timothy Denoyer, director da consultora Wolfe Trahan, especializada em transportes.

Segundo a McKinsey os carros eléctricos vão representar um quarto do mercado mundial até 2020
Para tornar o cenário da estreia dos carros eléctricos ainda mais negro, tanto a GM como a Nissan tiveram de enfrentar imprevistos. Em Março, o terramoto seguido pelo tsunami que atingiu a região nordeste do Japão prejudicou a produção do Leaf, provocando atrasos nas exportações e levando a construtora a declarar que não conseguiria cumprir a meta inicial de produzir 50 mil unidades do seu carro eléctrico em 2011. Em Maio, nos Estados Unidos, um Volt incendiou-se três semanas depois de a sua bateria ter sido danificada num crash-test feito por um órgão de segurança do governo americano. Depois disso, o organismo repetiu os testes com mais três híbridos da GM, e dois deles confirmaram o risco de incêndio. Embora a GM afirme que corrigiu o problema, o incidente teve impacto nas vendas. Na corrida pelo título de carro eléctrico mais vendido no mercado americano, o campeão nacional perdeu para o japonês: o Leaf vendeu 2 mil unidades a mais do que o Volt em 2011.

Cresce a tensão entre os fabricantes

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Tsunami no japão: A tragédia que atingiu o Japão em 2011 prejudicou a produção e gerou atrasos na distribuição do Nissan Leaf
Com o aumento da concorrência que é esperada a partir deste ano — quando a Toyota, Volvo, Renault, BMW, Ford, entre outras construtoras, lançarem os seus primeiros carros eléctricos —, espera-se que o segmento cresça. Mas hoje há muito mais incerteza sobre quanto tempo a nova tecnologia levará para se popularizar.

Num relatório recém-divulgado, a consultora McKinsey destacou as dúvidas em relação ao futuro dos carros eléctricos como um dos principais desafios a ser enfrentados pelas construtoras nos próximos anos. A McKinsey estima que os veículos convencionais continuarão a ser dominantes pelo menos até 2030 e que as vendas de carros híbridos ou puramente eléctricos podem representar um quarto do mercado total até 2020. O crescimento das vendas de eléctricos resultará, segundo a McKinsey, da pressão de países como os Estados Unidos, França e China que querem equipar as suas frotas de automóveis e de transportes públicos com veículos eléctricos. “A corrida ainda está no início. Mas não há dúvidas de que a electrificação da frota automóvel é a única alternativa viável para que os países ricos cumpram as metas de emissão de carbono na próxima década”, diz Russell Hensley, investigador da McKinsey. É nisso que as construtoras apostam. Mas parece claro que o carro eléctrico ainda terá de passar pelo mais difícil dos testes: o da realidade.



Por: Luciene Antunes
 
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