Edição nº 25
 

Entrevista

O mundo 
visto do topo

No dia 12 de Setembro de 2008, Jamie Dimon, presidente do banco JPMorgan Chase, ligou ao final da tarde para a mulher para lhe dar uma má notícia: chegaria a casa atrasado para o jantar onde conheceria os pais do namorado de Julia, a mais velha das suas três filhas. O motivo era uma chamada da Reserva Federal americana (Fed) para uma reunião com os principais banqueiros do país. A agenda tinha apenas um assunto: quanto cada um estava disposto a colocar na mesa para tentar salvar o banco Lehman Brothers.


Jamie Dimon, “o último homem em pé”: Graças ao seu conservadorismo, o JPMorgan Chase saiu da crise de 2008 mais forte do que entrou

Dimon foi o primeiro que se dispôs a entrar com 1000 milhões de dólares, mas o esforço seria em vão. Dias depois, o Lehman Brothers sucumbiria, dando uma dimensão catastrófica à crise financeira global. Pouco tempo depois, o mundo assistiria à derrocada da seguradora AIG. Graças à obsessão de Dimon por controlar riscos, o JPMorgan Chase tinha um balanço imune a activos tóxicos e acabou por sair da crise mais forte do que entrou. Hoje, disputa com o Wells Fargo o título de maior banco dos Estados Unidos. Chegado ao topo de Wall Street, admirado pelos pares e criticado por aqueles que o consideram arrogante, Dimon tornou-se um dos alvos predilectos dos manifestantes que, nos últimos meses, invadiram as ruas de Nova Iorque.


Jamie Dimon falou à EXAME sobre a crise global, o movimento Ocupe Wall Street e o crescente ódio aos banqueiros.


Como vai a economia mundial?

A economia americana iniciou uma recuperação moderada. Os países mais dinâmicos da Ásia e da América Latina estão a crescer. A grande questão é a Europa.


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Direita vence 
eleições em Espanha: “Os europeus precisam de deixar claro que Espanha 
e Itália terão mais apoios 
para continuar a pagar 
as suas dívidas”, 
diz Jamie Dimon
A situação pode piorar na Europa?

Se tivermos uma recessão moderada na economia europeia nos próximos anos, o impacto na economia global deverá ser reduzido. Mas se houver uma crise financeira de grandes proporções, que culmine numa corrida bancária e na qual os governos tenham de tomar decisões dramáticas, aí, sim, a economia global será terrivelmente afectada. A probabilidade de que os europeus resolvam os seus problemas é de 50%. A hipótese da actual crise se tornar muito grave é de 20%. A probabilidade de ocorrer uma situação intermédia é de 30%.


O principal problema passou a ser 
a crise da dívida soberana da Itália?

A dívida da Itália é pagável. A Europa precisa de deixar claro que Itália e Espanha terão o apoio necessário para continuar a pagar as dívidas. Quanto mais o tempo passa, maior a probabilidade de termos uma crise que saia do controlo.


O que deve ser feito?


A probabilidade de que os europeus resolvam os seus problemas e que tenhamos apenas uma leve recessão no bloco é de 50%. A hipótese da crise se tornar grave é de 20%
O Banco Central da Itália tem apenas o nome de banco central, mas não tem os poderes. Não pode emitir euros para comprar títulos da dívida italiana. Essa é uma das falhas do tratado que criou a zona euro. O Banco Central Europeu (BCE) é o único que pode emitir moeda. O problema é que a França e a Alemanha querem garantir que a Itália coloca em prática políticas fiscais rigorosas. E existem ainda algumas pessoas que pensam que o BCE não deve emitir moeda para auxiliar os países em dificuldades. Na minha opinião, agora os europeus não têm nenhuma outra opção.


Aumentar o fundo europeu de resgate não seria uma alternativa?

Tudo se resume a criar uma liquidez inquestionável para a dívida italiana e espanhola. Isso pode ser feito através do BCE ou pela colocação de mais dinheiro no fundo de resgate.


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Itália — sai 
Berlusconi, 
entra  Monti: O Banco 
de Itália tem poucos 
poderes. Para Dimon, 
a saída da crise está 
nas mãos do Banco 
Central Europeu

Quanto seria necessário?

Teria de ser acima de 1 bilião de euros. Hoje, o fundo é composto por 250 mil milhões de euros. Se os países europeus elevarem esse valor para, 500 mil milhões, daria para alavancar o restante.


O euro pode sobreviver se a Grécia
der o calote? Ou a Itália?

Com um calote grego, sim. Um italiano não.

A criação do euro é um magnífico esforço humano de tentar promover uma união num continente que sofreu guerras durante vários séculos. Quando o projecto europeu começou, no pós-guerra, ninguém esperava que chegasse tão longe, com a criação de uma moeda única. Houve falhas, claro, que agora podem ser corrigidas. A prioridade é agir para evitar uma crise sem controlo. Depois de resolver essa questão, pode criar-se um mecanismo para os países que desejarem abandonar a moeda única.


O que significa um calote italiano ou espanhol para o sistema financeiro?

Se houver uma catástrofe financeira na Europa, o mundo será afectado. Tanto as instituições que têm exposição ao risco europeu como as que não têm.


Na crise de 2008, o JPMorgan
Chase adoptou uma postura conservadora. Por que ainda não vendeu os títulos da dívida da Itália?

A maior parte do risco que temos na Itália refere-se a empréstimos para grandes empresas. Temos uma operação italiana há dezenas de anos. Para estarmos em Itália e em Espanha nos próximos 100 anos, não podemos sair a correr agora como se fossemos umas crianças assustadas.


Mas e se o pior acontecer?

Assumimos o risco, sabemos o tamanho dele — no nosso caso, de 3 mil milhões de dólares. Se o pior acontecer, podemos arcar com o prejuízo. Independentemente do que suceda, não vou julgar que agimos mal. Não se gere um banco com a cabeça de um investidor de acções que compra num dia e vende no seguinte. O gestor bancário pensa em contratar pessoas, abrir filiais, ou seja, pensa em investir no longo prazo.


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Protesto Ocupe Wall Street: “Não adianta só protestar. É preciso discutir formas de melhorar a sociedade”, diz Dimon
Vê sinais de bolha especulativa 
no sistema financeiro da China?

A concessão de crédito é muito grande e isso é obviamente um risco. A China terá de ter cuidado para não expandir o crédito de forma desenfreada. Mas não creio que venha a sofrer uma recessão por causa disso.


Uma queda da China levaria à um decréscimo na procura de matérias-primas?

Se o arrefecimento da economia chinesa for mais severo do que se espera, é possível que caia a procura por commodities. Mas isso sucederá apenas por algum tempo. A posse de recursos naturais continuará a ser uma vantagem nos próximos 1000 anos.


O crescimento mundial continuará a ser liderado pelos mercados emergentes nos próximos anos?

Os mercados emergentes vão crescer mais rapidamente do que os países desenvolvidos nos próximos cinco ou sete anos, mas é provável que a liderança desse crescimento surja de outros países para além dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China).


A classificação de risco dos Estados Unidos caiu e o desemprego continua alto. Ainda assim, acredita que haverá uma retoma?

A maioria das empresas está em excelente forma, com muito dinheiro em caixa. Em média, mensalmente, foram criados 100 mil postos de trabalho nos últimos 18 meses. A parcela do rendimento destinada ao pagamento de dívidas está no nível mais baixo dos últimos 20 anos. A confiança dos consumidores e das empresas está baixa, mas isso é normal após uma recessão. Creio que há alicerces sólidos para uma recuperação.


A pergunta não é se os Estados Unidos vão crescer, mas, sim, quando...

É curioso que Steve Jobs tenha feito parte da sociedade americana, que se tornou mais desigual, e tenha ganhado muito dinheiro, mas ninguém tenha ficado furioso com ele

Creio que muita gente se vai surpreender. É bem possível que já estejamos no momento da retoma. A única coisa que piorou foi a polarização política. Mas isso é a democracia. Se os Estados Unidos não resolverem os seus desequilíbrios fiscais, aí, sim, teremos um grande problema. Mas isso não se refere aos próximos 18 meses. É algo que só terá efeito lá mais para a frente.


Em Outubro, os manifestantes do Ocupe Wall  Street foram à sua casa protestar. Será que algum dia os banqueiros serão populares?

Creio que não. Se entrar numa loja e quiser comprar algo, o comerciante vai vender. Se entrar numa agência e quiser dinheiro emprestado, pode sair de lá sem o que quer. Mesmo quando concedemos o empréstimo, às vezes, temos de fazer o papel de um pai: “Tem a certeza de que pode levantar mais dinheiro.”


A imagem da banca bateu no fundo?

É compreensível que o cidadão médio esteja decepcionado com as instituições financeiras. Os banqueiros achavam que eram muito espertos, mas ajudaram a criar uma catástrofe na economia. Mas não é justo responsabilizar um banco específico.


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Luzes de Nova 
iorque:  Para o líder do JPMorgan Chase, 
a recuperação da 
economia americana 
está a caminho e poderá  surpreender os mais 
pessimistas
Qual é a importância do movimento 
Ocupe Wall Street?

É verdade que a sociedade americana ficou mais desigual ao longo das últimas décadas. Também é certo que viveríamos melhor numa sociedade mais igualitária. Mas isso não aconteceu por minha causa. Sou a favor de um sistema de impostos que cobre mais dos ricos e menos dos pobres, apoio oportunidades iguais e uma boa educação para todos. Mas não adianta só protestar. É preciso discutir a melhor maneira de atingir esses objectivos. É curioso que Steve Jobs tenha feito parte dessa sociedade desigual, tenha ganhado muito dinheiro, mas ninguém tenha ficado furioso com ele.


Porque é que o alvo são os bancos?

O que querem que os bancos façam? Emprestar mais dinheiro? Empregar mais pessoas? Financiar governos? Já fizemos isso tudo. O que podemos fazer mais? 



Por: Eduardo Salgado, em Nova Iorque
 

Comentários

  1. lucassambenjelupass
    2012-05-10 14:19:07
    interessante, com concepçoes muitos proprias, e bom pra analizar e fomentar conhecimentos
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