Entrevista
No dia 12 de Setembro de 2008, Jamie Dimon, presidente do banco JPMorgan Chase, ligou ao final da tarde para a mulher para lhe dar uma má notícia: chegaria a casa atrasado para o jantar onde conheceria os pais do namorado de Julia, a mais velha das suas três filhas. O motivo era uma chamada da Reserva Federal americana (Fed) para uma reunião com os principais banqueiros do país. A agenda tinha apenas um assunto: quanto cada um estava disposto a colocar na mesa para tentar salvar o banco Lehman Brothers.
Jamie Dimon, “o último homem em pé”: Graças ao seu conservadorismo, o
JPMorgan Chase saiu da crise de 2008 mais forte do que entrou
Dimon foi o primeiro que se dispôs a entrar com 1000 milhões de dólares, mas o esforço seria em vão. Dias depois, o Lehman Brothers sucumbiria, dando uma dimensão catastrófica à crise financeira global. Pouco tempo depois, o mundo assistiria à derrocada da seguradora AIG. Graças à obsessão de Dimon por controlar riscos, o JPMorgan Chase tinha um balanço imune a activos tóxicos e acabou por sair da crise mais forte do que entrou. Hoje, disputa com o Wells Fargo o título de maior banco dos Estados Unidos. Chegado ao topo de Wall Street, admirado pelos pares e criticado por aqueles que o consideram arrogante, Dimon tornou-se um dos alvos predilectos dos manifestantes que, nos últimos meses, invadiram as ruas de Nova Iorque.
Jamie Dimon falou à EXAME sobre a crise global, o movimento Ocupe Wall Street e o crescente ódio aos banqueiros.
Como vai a economia mundial?
A economia americana iniciou uma recuperação moderada. Os países mais dinâmicos da Ásia e da América Latina estão a crescer. A grande questão é a Europa.

Se tivermos uma recessão moderada na economia europeia nos próximos anos, o impacto na economia global deverá ser reduzido. Mas se houver uma crise financeira de grandes proporções, que culmine numa corrida bancária e na qual os governos tenham de tomar decisões dramáticas, aí, sim, a economia global será terrivelmente afectada. A probabilidade de que os europeus resolvam os seus problemas é de 50%. A hipótese da actual crise se tornar muito grave é de 20%. A probabilidade de ocorrer uma situação intermédia é de 30%.
O principal problema passou a ser
a crise da dívida soberana da Itália?
A dívida da Itália é pagável. A Europa precisa de deixar claro que Itália e Espanha terão o apoio necessário para continuar a pagar as dívidas. Quanto mais o tempo passa, maior a probabilidade de termos uma crise que saia do controlo.
O que deve ser feito?
Aumentar o fundo europeu de resgate não seria uma alternativa?
Tudo se resume a criar uma liquidez inquestionável para a dívida italiana e espanhola. Isso pode ser feito através do BCE ou pela colocação de mais dinheiro no fundo de resgate.

Itália — sai Berlusconi, entra Monti: O Banco de Itália tem poucos poderes. Para Dimon, a saída da crise está nas mãos do Banco Central Europeu
Teria de ser acima de 1 bilião de euros. Hoje, o fundo é composto por 250 mil milhões de euros. Se os países europeus elevarem esse valor para, 500 mil milhões, daria para alavancar o restante.
O euro pode sobreviver se a Grécia
der o calote? Ou a Itália?
Com um calote grego, sim. Um italiano não.
A criação do euro é um magnífico esforço humano de tentar promover uma união num continente que sofreu guerras durante vários séculos. Quando o projecto europeu começou, no pós-guerra, ninguém esperava que chegasse tão longe, com a criação de uma moeda única. Houve falhas, claro, que agora podem ser corrigidas. A prioridade é agir para evitar uma crise sem controlo. Depois de resolver essa questão, pode criar-se um mecanismo para os países que desejarem abandonar a moeda única.
O que significa um calote italiano ou espanhol para o sistema financeiro?
Se houver uma catástrofe financeira na Europa, o mundo será afectado. Tanto as instituições que têm exposição ao risco europeu como as que não têm.
Na crise de 2008, o JPMorgan
Chase adoptou uma postura conservadora. Por que ainda não vendeu os títulos da dívida da Itália?
A maior parte do risco que temos na Itália refere-se a empréstimos para grandes empresas. Temos uma operação italiana há dezenas de anos. Para estarmos em Itália e em Espanha nos próximos 100 anos, não podemos sair a correr agora como se fossemos umas crianças assustadas.
Mas e se o pior acontecer?
Assumimos o risco, sabemos o tamanho dele — no nosso caso, de 3 mil milhões de dólares. Se o pior acontecer, podemos arcar com o prejuízo. Independentemente do que suceda, não vou julgar que agimos mal. Não se gere um banco com a cabeça de um investidor de acções que compra num dia e vende no seguinte. O gestor bancário pensa em contratar pessoas, abrir filiais, ou seja, pensa em investir no longo prazo.

A concessão de crédito é muito grande e isso é obviamente um risco. A China terá de ter cuidado para não expandir o crédito de forma desenfreada. Mas não creio que venha a sofrer uma recessão por causa disso.
Uma queda da China levaria à um decréscimo na procura de matérias-primas?
Se o arrefecimento da economia chinesa for mais severo do que se espera, é possível que caia a procura por commodities. Mas isso sucederá apenas por algum tempo. A posse de recursos naturais continuará a ser uma vantagem nos próximos 1000 anos.
O crescimento mundial continuará a ser liderado pelos mercados emergentes nos próximos anos?
Os mercados emergentes vão crescer mais rapidamente do que os países desenvolvidos nos próximos cinco ou sete anos, mas é provável que a liderança desse crescimento surja de outros países para além dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China).
A classificação de risco dos Estados Unidos caiu e o desemprego continua alto. Ainda assim, acredita que haverá uma retoma?
A maioria das empresas está em excelente forma, com muito dinheiro em caixa. Em média, mensalmente, foram criados 100 mil postos de trabalho nos últimos 18 meses. A parcela do rendimento destinada ao pagamento de dívidas está no nível mais baixo dos últimos 20 anos. A confiança dos consumidores e das empresas está baixa, mas isso é normal após uma recessão. Creio que há alicerces sólidos para uma recuperação.
A pergunta não é se os Estados Unidos vão crescer, mas, sim, quando...
É curioso que Steve Jobs tenha feito parte da sociedade americana, que se tornou mais desigual, e tenha ganhado muito dinheiro, mas ninguém tenha ficado furioso com ele
Em Outubro, os manifestantes do Ocupe Wall Street foram à sua casa protestar. Será que algum dia os banqueiros serão populares?
Creio que não. Se entrar numa loja e quiser comprar algo, o comerciante vai vender. Se entrar numa agência e quiser dinheiro emprestado, pode sair de lá sem o que quer. Mesmo quando concedemos o empréstimo, às vezes, temos de fazer o papel de um pai: “Tem a certeza de que pode levantar mais dinheiro.”
A imagem da banca bateu no fundo?
É compreensível que o cidadão médio esteja decepcionado com as instituições financeiras. Os banqueiros achavam que eram muito espertos, mas ajudaram a criar uma catástrofe na economia. Mas não é justo responsabilizar um banco específico.

É verdade que a sociedade americana ficou mais desigual ao longo das últimas décadas. Também é certo que viveríamos melhor numa sociedade mais igualitária. Mas isso não aconteceu por minha causa. Sou a favor de um sistema de impostos que cobre mais dos ricos e menos dos pobres, apoio oportunidades iguais e uma boa educação para todos. Mas não adianta só protestar. É preciso discutir a melhor maneira de atingir esses objectivos. É curioso que Steve Jobs tenha feito parte dessa sociedade desigual, tenha ganhado muito dinheiro, mas ninguém tenha ficado furioso com ele.
Porque é que o alvo são os bancos?
O que querem que os bancos façam? Emprestar mais dinheiro? Empregar mais pessoas? Financiar governos? Já fizemos isso tudo. O que podemos fazer mais?
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.