Cervejas
Segundo os estudos internacionais, todos os anos são consumidos no planeta mais de 182 mil milhões de litros de cerveja, o equivalente a 547 petroleiros lotados de barris de cerveja ou a 7280 piscinas olímpicas. No universo das bebidas, só a água e o chá batem a cerveja em termos de popularidade. Grande parte dessa proeza é conseguida à custa da China que já é responsável por mais de um terço do consumo mundial: só em 2010, os chineses ingeriram 44,7 mil milhões de litros, quase o dobro dos Estados Unidos, o segundo maior consumidor de cerveja no mundo. Por isso não é de estranhar que a China produza também a cerveja mais popular no planeta: com vendas anuais superiores a 6,1 mil milhões de litros, a Snow Beer, produzida pela CR Snow, uma joint-venture entre a China Resources Enterprises e a SABMiller, que ultrapassa as vendas de marcas globais como a Budweiser, Corona ou Heineken. No entanto, a quase totalidade da produção da Snow Beer é consumida em território chinês.
No que diz respeito aos negócios, a indústria cervejeira movimenta anualmente milhares de milhões de dólares. Na Europa, por exemplo, a empresa de estudos de mercado Eurobev calcula que a cerveja seja responsável por mais de 140 mil milhões de dólares e pela criação de 2,1 milhões de postos de trabalho. Nos Estados Unidos, de acordo com dados do Instituto da Cerveja, o volume de vendas totalizou 99 mil milhões de dólares no ano passado. “A cerveja continua a ser a bebida alcoólica preferida dos americanos”, refere o presidente Joe McClain.
Quanto ao futuro, é sabido que a indústria cervejeira está fortemente correlacionada com o crescimento económico. Daí que os mercados emergentes sejam considerados os principais motores da expansão. A Ásia já absorve mais de um terço do consumo mundial. Todos os países do continente registam um aumento do consumo na ordem dos dois dígitos. O destaque vai mais uma vez para a China que é simultaneamente o maior consumidor e o maior produtor de cerveja do planeta (crescimento de 103% na última década). Os especialistas da Plato Logic estimam que até 2015 a China seja responsável por 40% do crescimento da indústria cervejeira mundial. Seguem-se o Brasil e a Rússia que irão crescer à taxa de 8,3% e 7,1%, respectivamente, nesse período.
O continente africano também é considerado um dos mais promissores. Por isso, está na mira de gigantes como a SABMiller, Heineken e East African Breweries. Recorde-se que África só emergiu como player relevante na produção de cerveja na década de 90. Segundo a consultora Beverage Marketing Corporation, o continente registou um crescimento expressivo em 2000, embora menor do que a média mundial. Depois de contrair em 2001, passou a ser bater recordes de crescimento até ao final da década (em 2008 registou a mais elevada taxa de crescimento de produção de cerveja no mundo). Apesar do inegável progresso, o volume de produção actual ainda é menor do que o dos “tigres asiáticos” (ronda os 11 mil milhões de litros, seis vezes menos do que a média da Ásia e quatro vezes menos do que a China). A quota africana na produção mundial duplicou na última década, mas ainda não ultrapassa os 6%. O país em destaque é a África do Sul, o 12.º maior produtor do mundo (veja tabela acima).
Do lado do consumo, o quadro é igualmente colorido. Segundo os especialistas da consultora Beer Marketer’s Insights (BMI), as vendas de cerveja têm crescido a um ritmo significativo em todo o continente, fruto do progresso económico e social registado na última década. “De um modo geral, a cerveja tem sido a bebida alcoólica que, nos últimos anos, mais cresce em África. O continente tem beneficiado dos investimentos estrangeiros no sector e do aumento do poder de compra das populações”, lê-se no relatório da BMI. De acordo
Os investimentos em fábricas, na rede de distribuição e na produção das matérias-primas agrícolas, explicam grande parte do crescimento da indústria cervejeira em África. No que diz respeito aos negócios, o destaque vai para a entrada da Heineken na Etiópia em Agosto de 2011, com a aquisição das cervejeiras Bedele e Harar, duas empresas controladas pelo Governo, por 163 milhões de dólares. Hoje, as duas cervejeiras controlam 18% do mercado nacional. Com a mesma vontade de reforçar o investimento no continente está a SABMiller, que este ano, segundo seu director executivo, Mark Bowman, tem a intenção de investir 2,5 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos na construção e reestruturação de cervejeiras locais.
Há ainda outros factores que estão na base do florescimento da indústria em África. O desenvolvimento da extracção e produção de hidrocarbonetos, tem permitido aos governos (por exemplo, em Angola e na Nigéria) canalizarem parte das receitas petrolíferas para estimular outros sectores de actividade, onde também figura a indústria das bebidas e, entre elas, a da cerveja. “Angola e Nigéria têm grandes cervejeiras com previsões de crescimento impressionantes que serão sustentadas pelo aumento do PIB previsto ao longo desta década”, revela o relatório “Cerveja em África”, do BMI. Eis uma notícia que, mais uma vez, merece um brinde.
A Snow Beer, uma joint-venture entre
a Sab Miller e uma empresa chinesa,
é a cerveja mais vendida do mundo

A primeira grande operação ocorreu em 2002 com a fusão da sul-africana SAB com a norte-americana Miller, que deu origem ao grupo SABMiller. Tratou-se de um negócio avaliado em 5,6 mil milhões de dólares que envolveu a segunda maior cervejeira dos Estados Unidos e sexta no mundo (Miller) com a quarto maior player mundial com fortes ligações a África (SAB).
Em 2004, foi a vez da belga Interbrew, a terceira maior cervejeira do mundo, comprar 57% da brasileira Ambev, a quinta maior cervejeira, num negócio avaliado em 11 mil milhões de dólares, criando assim a InBev. Recorde-se que a Ambev, havia resultado da fusão ocorrida em 1999 entre as gigantes brasileiras Brahma e Antárctica.
A atribulada história da cervejeira não ficaria por aqui. Quatro anos depois, a InBev funde-se com a Anheuser-Busch (dona, entre outras, da histórica marca americana Budweiser) num negócio de 52 mil milhões de dólares. Assim nasceu o colosso belgo-brasileiro Anheuser-Bush InBev (designado ABInBev). Desta operação nasceu a maior cervejeira mundial, hoje com uma quota de mercado de 19,4% que se traduz numa produção anual de 358,7 mil milhões de litros, o dobro da produção da SABMiller, a segunda maior.
Apesar da ABInBev estar sediada na Bélgica, o gigante é, na sua essência, uma empresa brasileira, liderada pelo carioca Carlos Brito. O executivo, licenciado em Engenharia, fez o MBA em Stanford (Estados Unidos) e trabalhou no sector dos petróleos (Shell) e dos automóveis (Daimler Benz) antes de chegar às cervejas em 1989. Foi ele que liderou pessoalmente a compra da Anheuser-Bush, um ícone dos Estados Unidos (a empresa era gerida por um clã familiar em St. Louis, nas margens do Mississípi). Foi a maior fusão de sempre da história do sector cervejeiro.
Não deixa de ser curioso que as mais carismáticas cervejas americanas (caso da Budweiser, Busch e Miller) e europeias (como a Beck’s, Stella Artois e Grolsch) hoje sejam geridas por brasileiros e sul-africanos. Sinais de um novo mundo.
O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos