Edição nº 26
 

Inovação

Receitas para inovar

Publicado a 17-05-2012 12:15:00

Ah, se inovar fosse tão simples como cozinhar! O título do novo livro de Steven Johnson, um autor conhecido pelos seus livros sobre a revolução digital, pode dar essa impressão. Mas é bom frisar que Innovator’s Cookbook (O livro de receitas dos inovadores, numa tradução livre), um compêndio de artigos e entrevistas seleccionadas por Johnson, não tem essa pretensão.


Produtor britânico Brian Eno: As ideias inovadoras podem vir de lugares improváveis tal como, por exemplo, um estúdio de gravação de música

Pelo contrário: uma das ideias centrais do autor é que os inovadores não seguem um mapa, um plano, ou uma única receita. A inovação, argumenta Johnson, não surge, simplesmente como se fosse um truque de magia. Ela não é fruto de uma lâmpada que se acende na cabeça dos grandes empreendedores, como Thomas Edison (o inventor da electricidade). A inovação pode ser “cultivada”, e essa palavra é fundamental na abordagem de Innovator’s Cookbook. Tal “cultivo” depende não só da semente, mas também da terra onde ela será plantada, do meio ambiente e, é claro, do talento do “agricultor”.

As lições de Peter Drucker

Prestar atenção, fazer perguntas ou escutar são, segundo Peter Drucker, aspectos fulcrais da inovação
Talvez uma descrição mais adequada seja chamar a este livro “compêndio de técnicas culinárias essenciais para a inovação”. É preciso conhecê-las antes de se aventurar na cozinha. O primeiro ensaio do livro é do mestre austríaco Peter Drucker, considerado o “pai” da gestão. O mais famoso pensador da história dos negócios descreve os factores externos aos negócios que promovem a inovação. Um deles, aponta Drucker, são as mudanças demográficas. “Os executivos sempre souberam da importância da demografia, mas sempre acreditaram que as mudanças ocorressem lentamente.” Neste século, porém, as mudanças demográficas, nomeadamente no que se referem aos países emergentes, estão a ocorrer mais rapidamente. Outro elemento essencial para que queira inovar é “prestar atenção, fazer perguntas, escutar”, nas palavras de Drucker. Não basta procurar as soluções dentro da empresa, ou da sua própria cabeça.

Outro artigo, de autoria de Teresa Amabile, professora de Gestão da Universidade Harvard, incide sobre um dos temas mais desafiadores no mundo das empresas: como criar e manter um ambiente na qual a criatividade possa florescer? Amabile descreve um paradoxo. Para motivar os funcionários, a maior parte das empresas acena com recompensas financeiras. “O dinheiro não vai necessariamente impedir que as pessoas sejam criativas”, escreve Amabile. “Mas em muitas situações, também não vai ajudar.” Para Amabile, as pessoas são mais criativas quando o trabalho é desafiador e satisfatório do ponto de vista pessoal.

Os temas discutidos nos nove artigos não são exactamente novos. Os autores também estão longe de ser desconhecidos (entre eles, Peter Drucker é o mais estudado e admirado). Mas o principal trunfo do livro de receitas compilado por Johnson é a variedade de olhares sobre a inovação. A obra também discorre sobre a genialidade de um líderes inovadores como Steve Jobs, o fundador da Apple. Uma das conclusões a retirar é que é impossível tentar imitar o seu estilo particular de liderança. “Nos Estados Unidos estamos acostumados a fazer os mais rasgados elogios a empreendedores como Steve Jobs e Mark Zuckerberg (o criador do Facebook), mas no passado já fizemos o mesmo com Thomas Edison e Benjamin Franklin. A inovação sempre foi algo permanente, não pertence a momentos específicos na história. A evolução do progresso humano resulta da acção de inovadores que ousaram colocar novas ideias em prática. Isso sucedeu desde os avanços na álgebra durante a era dourada do islamismo, às máquinas a vapor da Revolução Industrial ou à revolução dos computadores e da internet”, escreve Johnson.

Entrevistas na primeira pessoa

Além dos nove artigos, Johnson complementa o seu livro com seis entrevistas a personalidades únicas. A primeira delas é ao músico e produtor britânico Brian Eno, que trabalhou com artistas como David Bowie, David Byrne ou U2 e é considerado um dos nomes mais importantes da música do final do século passado graças ao seu trabalho com o sampling (o reaproveitamento de músicas pré-gravadas para criar novas composições). Brian Eno descreve um dos seus hábitos no estúdio que é o de pedir para que os músicos troquem de instrumentos durante as gravações. “Qualquer grupo de pessoas que trabalham juntas há muito tempo recai em vícios”, diz Eno. “As trocas promovem o relaxamento e a improvisação. As pessoas começam a pensar de um modo diferente e a soltar a sua criatividade”, defende.

Outra personagem entrevistada é Ray Ozzie, criador do programa Lotus Notes e que, até ao ano passado, era o responsável pela estratégia de software da Microsoft. Ozzie descreve a importância de se sentir perdido ou fora da sua zona de conforto. “Gosto da palavra desorientação porque estou sempre a tentar fugir da sensação de ordem. Tenho um barco que, por vezes, gosto de tripular sozinho. Correr esse risco, especialmente quando o tempo está desagradável, é algo que me estimula. Quando me coloco numa situação extrema dessas, sinto que uma parte da minha mente fica mais livre e tenho sempre muitas ideias novas.” O mesmo efeito (e sem tanto perigo), é a confusão causada pelas frequentes viagens internacionais, diz Ray Ozzie. “Estar com o fuso horário desorganizado e ficar perdido numa cidade nova faz-me sair da minha zona de conforto.” Eis uma analogia que não se encontra em muitos livros de negócios. É um exemplo que serve para ilustrar que a criatividade e as inovações vêm de onde menos se espera.

 Innovator's Cookbook - Essentials for Inventing What is Next

Editora  Riverhead Books, 272 págs.

Autor  Steven Johnson


A inovação pode ser cultivada. Isso depende da semente, da terra onde foi plantada, das condições 
do meio e do talento do agricultor.

   

Por: Sérgio Teixeira Jr., em Nova Iorque
 
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