Economia
Angola celebrou uma década de paz no dia 4 de Abril de 2012. Para trás havia um longo passado de guerra compreendido desde a luta pela independência iniciada em 1961 e concluída em 1975 até à guerra civil que só terminou em 2002. Nessa altura, Angola era um país devastado pelos conflitos armados e que possuía o pior índice de desenvolvimento humano da África Subsariana.Dia da Paz: O povo vestiu de branco para as celebrações do 10.º aniversário nas ruas de Luanda
Em dez anos de paz, tudo mudou. O petróleo deu um forte impulso à economia. Hoje, Angola é o segundo maior produtor de crude da África Subsariana, depois da Nigéria. A produção atingiu o pico em 2008, com 1,89 milhões de barris por dia, seguindo-se uma pequena redução devido às paragens para melhorias técnicas nalguns poços, estimando-se que nos próximos anos ultrapasse a fasquia dos 2 milhões de barris diários. O reverso da medalha é que o PIB angolano continua muito dependente das exportações de petróleo assim como das variações do preço do crude nos mercados internacionais (veja gráficos acima).
Outro indicador macroeconómico fundamental é a inflação que sofreu uma redução brutal de 108%, em 2002, para 14,75%, em 2010, e 11,4%, em 2011. O Governo já assumiu a intenção de fazer regressar a inflação a um dígito, uma meta ambiciosa. Porém, as estimativas da The Economist Intellenge Unit (EIU) apontam para uma inflação de 11,3% em 2012 e à volta de 8,5% de 2013 a 2016.
É um valor relevante dado que, em 2000, 42,4% dos angolanos ainda viviam com menos de 2 dólares por dia (infelizmente o Banco Mundial não actualizou esta estatística para os anos seguintes e também não existem dados recentes do coeficiente de Gini).
Paralelamente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, (mede a saúde da economia e do sector
social — educação e saúde — da maior parte dos países do mundo) estima que Angola tenha uma população que ronda os 18 milhões e que cresce anualmente à taxa média de 2,87%. Isso significa que o número de habitantes poderá duplicar nos próximos 25 anos. Em comparação com outros grandes países africanos, verifica-se que Angola não só tem um nível de crescimento populacional superior como regista uma evolução mais positiva da sua
Outro facto positivo é que o investimento na saúde, em percentagem do PIB, mais do que duplicou (de 2,36%, em 2002, para 4,56%, em 2009). Como o PIB cresceu muito durante esse período (mais do que a população) o investimento per capita do Governo na saúde aumentou 13 vezes, de 2002 a 2009. Apesar desse esforço, Angola ainda apresenta taxas de mortalidade infantil claramente acima da média dos países da África Subsariana.
Talvez o legado mais visível da guerra seja, no entanto, o da dimensão das Forças Armadas. O número de militares em percentagem do total da força de trabalho (população activa) diminuiu claramente. Mas isso parece ser, sobretudo, um resultado do crescimento populacional e não da redução efectiva do número de militares, um valor que se manteve praticamente inalterado desde 1994. Segundo os dados do Banco Mundial, Angola tem cerca de 115 mil efectivos sendo uma das forças militares mais importantes do continente africano.No que diz respeito ao ambiente de negócios, o estudo Enterprise Survey, do Banco Mundial, revela que enquanto, em 2006, os maiores obstáculos para os negócios eram a escassez de electricidade (seleccionada por 37% dos inquiridos), os transportes e o crime; em 2010 passaram a ser a corrupção (com 30% dos votos), o acesso às terras e as barreiras legais e alfandegárias. Outra novidade é a entrada do critério “escassez de força de trabalho qualificada” para a lista dos dez obstáculos mais importantes.
No último estudo anual Doing Business, Angola ocupa a 172.ª posição entre 183 países, o que significa que é o 11.º país do mundo onde é mais difícil fazer negócios. As melhorias são porém evidentes no critério da criação de negócios cujos custos passaram de 650% do rendimento per capita para apenas 120% em apenas seis anos. Uma descida ainda mais veloz foi sentida no capital mínimo necessário para se abrir um negócio. Não obstante, Angola ainda está abaixo da média da África Subsariana.
Em conclusão, podemos dizer que a economia angolana é fortemente influenciada pela produção do petróleo e os seus respectivos preços. Essa dependência foi patente durante a crise mundial de 2008: o preço do crude caiu e Angola sofreu uma queda abrupta das receitas e das suas reservas internacionais. De igual modo, embora o combate à inflação seja uma das principais vitórias dos economistas, a taxa mantém-se a dois dígitos. algo que tem um impacto severo sobre os mais pobres.
Para o futuro, é necessário levar em conta que apesar da população angolana ser relativamente pequena face à dimensão territorial do país, as estimativas internacionais apontam que ela poderá duplicar nos próximos 25 anos. Tal previsão a confirmar-se causará ainda mais pressão sobre o sector social onde Angola tem melhorado o seu desempenho, mas que, nalguns critérios (como a mortalidade infantil, por exemplo) ainda está abaixo da média da África Subsariana. Esse é um triste legado dos anos de guerra que Angola ainda precisa de vencer.
O investigador Markus Weimer, da organização independente londrina Chatham House, considera dez anos de paz “pouco tempo”. Diz que criar empregos é mais difícil do que construí-los e afirma que a realização das eleições e a aprovação da nova Constituição foram duas grandes conquistas da paz.
Markus é o coordenador do Angola Fórum, um instituto de investigação criado em 1998. Além da publicação de diversos documentos académicos (como o que apresentamos nesta edição) a Chatham House organizou uma celebração dos dez anos de paz, patrocinado pela Sonangol. O evento, na qual Miguel Gaspar Ferreira Neto, embaixador angolano no Reino Unido, fez o discurso de abertura, contou com prelecções de académicos internacionais. Eis o balanço sintético de Markus Weimer sobre a efeméride.
Claro que a paz é a maior conquista. Muitos países de África voltaram infelizmente à guerra. As primeiras eleições pacificas em 2008, também são uma grande conquista para o país, tal como a nova Constituição.

Este não é um problema só de Angola, mas de muitos outros países também. No caso angolano, é preciso salientar que dez anos são relativamente pouco tempo. Angola cresceu muito e muito rápido, mas ainda tem muitos desafios a vencer. Por exemplo, é preciso investir em infra-estruturas, mas isso não produz necessariamente emprego. A criação de empregos ou a criação de um sector privado mais vibrante são muito mais difíceis do que construir uma estrada ou uma ponte.
Em África, geralmente diz-se que os recursos naturais são uma espécie de maldição, dado que não estão a ser extraídos para o bem público, mas, sim, benefício de interesses privados. Mas também temos exemplos positivos no mundo, tal como a Noruega, que é o caso mais citado, ou o Botsuana e alguns novos produtores de petróleo e gás. O que esses países têm em comum são instituições fortes e independentes. Angola também deverá criar um ambiente onde estas instituições possam dar o seu contributo.
Desejo que o país tenha, este ano, eleições positivas, abertas, livres e justas. Também espero que haja eleições autárquicas. É muito importante para o país ter estas eleições que darão mais voz às pessoas — nas províncias, municípios e distritos — para que tenham um acesso maior e mais directo à política. Espero também que Angola tenha uma transição positiva, que abra um novo capítulo na história do país, em termos de criação de empregos, diversificação da economia e direitos dos cidadãos.
Débora Miranda, em Londres/DW África
O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos