Carreira
São cada vez mais os angolanos que decidem regressar a casa. A crise financeira que se abateu no países mais ricos, que está a atirar a taxa de desemprego na Europa e nos Estados Unidos para valores recorde, está a contribuir para este regresso da diáspora. Mas esta é apenas metade da história. O crescimento rápido da economia nacional também está a abrir as portas do país a milhares de angolanos que há muito procuram por uma janela de oportunidade para voltarem a viver e a trabalhar em Angola. Essa vontade ficou bem patente no último fórum de recrutamento da Elite Angolan Careers, realizado, em Março, em Lisboa, patrocinado pela Chevron e pela Odebrecht.
Feira de lisboa: Foi o décimo evento da Elite — quarta vez em Portugal — e o maior de sempre
No espaço de três dias foram 575 os candidatos que compareceram no Hotel Sheraton, um complexo hoteleiro de cinco estrelas localizado numa das principais artérias da capital portuguesa, para se candidatarem às ofertas de trabalho das mais importantes empresas a operar em Angola (30 firmas e 125 delegados). De acordo com a organização, “a quarta edição do fórum foi o maior evento realizado pela Elite Angolan Careers, em Lisboa.” Ao todo, foram realizadas 1355 entrevistas, das quais 879 foram pré-agendadas e mais 476 acabaram por ser realizadas durante o evento. “Na sequência do êxito de eventos passados — como os decorridos na Cidade do Cabo e em Luanda — este ano, em Lisboa, fomos novamente bem-sucedidos no nosso esforço de recrutar os melhores talentos angolanos,” revelou à EXAME Yuri da Silva, director de recrutamento da Chevron em Angola, que durante o evento concretizou 20 ofertas de emprego. Tânia Mandavela, responsável da área de recrutamento da FMC Technologies, também salientou a forte adesão dos candidatos: “É a terceira vez que a FMC participa neste evento e noto que este ano há muito mais candidatos do que no ano passado”, referiu.
Data de fundação
2008
Actividade
Recrutamento e selecção de quadros angolanos
Directores
Nick Jesani-Lee e Miguel Vieira
Eventos já realizados
2009
Lisboa, Luanda, Cidade do Cabo
2010
Lisboa, Luanda, Joanesburgo
2011
Lisboa, Luanda, Cidade do Cabo
2012
Lisboa
Próximos eventos
Luanda
16 e 17 de Junho
Cidade do Cabo
12 e 14 de Outubro
Londres
30 de Novembro a 2 de Dezembro
Internet:
http://angola.eliteic.net/
No plano da formação profissional, a maior parte dos participantes eram licenciados em engenharias do ramo das ciências naturais, não fosse Angola um dos principais produtores e exportadores de petróleo e de outras matérias-primas. Segundo os dados da Elite, mais de um quarto dos participantes detinha uma licenciatura nestas áreas. A completar o pódio das habilitações dos candidatos estavam as áreas relacionadas com as tecnologias de informação, a gestão e o marketing. Todavia, Edna Santos, responsável da Baker Hughes, a terceira maior empresa mundial de serviços petrolíferos, referiu à EXAME que “nas mais de 20 entrevistas que realizei tive contacto com uma boa amostra de candidatos com boas qualificações para a área administrativa. Infelizmente o mesmo não ocorreu com os candidatos para áreas mais técnicas”. Edna destaca como ponto negativo “a pouca experiência dos candidatos”.
Para Tânia Mandavela, esse não foi o único problema. A responsável da FMC Technologies, líder global na produção de equipamento para a exploração e produção de hidrocarbonetos, destaca também o excesso de expectativas dos candidatos face à qualidade académica do currículo. “Antes, os candidatos apresentavam apenas a licenciatura e hoje quase todos estão a fazer o mestrado. Porém, nem sempre o mestrado significa que o candidato é melhor do que os outros. A experiência é a mesma, mas as expectativas deles são maiores. Muitas vezes, não sabemos como os compensar financeiramente desse esforço”, confessa Mandavela, adiantando que aos engenheiros mecânicos e electrotécnicos, em início de carreira, estava a propor um ordenado médio de 2500 dólares mais benefícios.
Não é segredo que Angola vive uma carência de profissionais em todas as áreas. Afinal o país só está em paz há dez anos. As causas são conhecidas: muitos jovens angolanos emigraram para o estrangeiro à procura de uma vida melhor e as faculdades nacionais não tiveram recursos para acompanhar o crescimento económico ao nível da formação, em quantidade e qualidade. Em consequência, segundo os responsáveis da Elite Careers, as necessidades de recursos humanos qualificados verificam-se em quase todas as áreas: da banca ao retalho, das telecomunicações às engenharias, da construção civil aos petróleos.
Os candidatos interessados em agarrar uma das centenas de ofertas de trabalho que serão disponibilizadas neste evento apenas têm de se registar no site da Elite. Depois, é só esperar que seja um dos contemplados, pois a participação nestes fóruns de emprego só é possível através de convite. Para ser seleccionado é preciso apostar na elaboração de um bom currículo que funciona como “cartão-de-visita” junto dos recrutadores. “É muito importante dedicar tempo para fazer um currículo coerente e atractivo para as empresas participantes”, recomenda Maria Cláudia Santos, gestora de recrutamento da Elite International Careers. “O documento deve destacar-se pela boa apresentação visual, não conter erros de ortografia, ser sucinto e de fácil compreensão”, lembrando ainda que “será necessário adicionar informações sobre a formação académica do candidato, a formação profissional e a experiência profissional, além dos dados pessoais, incluindo as actividades extracurriculares”.
Para este ano, estão agendados mais dois fóruns de recrutamento da Elite Angolan Careers para a Cidade do Cabo, em Outubro, e Londres, em Novembro. Oportunidades para brilhar, pelos vistos, não faltam.
O boom económico de Angola tem gerado um mar de oportunidades no
mercado laboral. Miguel Vieira, director-geral da Elite Internacional
Careers, destaca as oportunidades que hoje o país oferece em várias
áreas desde a indústria, aos petróleos, retalho e banca. O responsável
pela organização de vários eventos de recrutamento pelo mundo fora
refere ainda o forte valor acrescentado que um mestrado (ou um MBA)
poderá ter num processo de recrutamento.O nosso core business é apoiar as empresas nos processos de angolanização dos recursos humanos. Nesse sentido, organizamos eventos de recrutamento em Portugal, África do Sul e em Londres que juntam as empresas que estejam em Angola à procura de candidatos nacionais e os candidatos angolanos de alto perfil que estejam a trabalhar ou a estudar no estrangeiro e queiram regressar a casa. Unimos duas partes com interesses comuns: recrutar para Angola e voltar para Angola.
É em Lisboa que está o maior número de candidatos angolanos que residem no estrangeiro. Mesmo aqueles que vivem noutros países da Europa têm geralmente uma base em Portugal que os pode apoiar durante este fim-de-semana.
Exacto. Identificámos outros mercados interessantes, como a África do Sul, onde também estão a viver muitos candidatos angolanos. Daí a nossa decisão de organizar um evento anual na África do Sul. Começámos na Cidade do Cabo, mudámos para Joanesburgo, e agora, no final deste ano, vamos organizar o nosso quarto evento na Cidade do Cabo.
Sim. Nós temos várias empresas como a Chevron, a Sonamet, os supermercados Shoprite que vêm para os eventos com uma grande agressividade. Fazem ofertas durante o fim-de-semana, põe contratos em cima da mesa e saem daqui com eles assinados.
Sim. A balança está superdesequilibrada por motivos óbvios: nos últimos 30 anos, Angola não teve um fluxo de saída académica de candidatos no país. Todos nós sabemos que Angola esteve em guerra durante muito tempo e, consequentemente, as universidades não tinham capacidade de criar profissionais para que pudessem preencher estas vagas.
Exacto. Esta realidade veio criar a presença de cada vez mais expatriados nas empresas. No entanto, o Governo angolano tem vindo a fazer com que as empresas alterem o seu processo de recrutamento de forma a promover a angolanização da sua estrutura de recursos humanos. Por isso é que estes eventos que nós organizamos são muito importantes. As feiras apoiam as empresas nos seus processos de angolanização.
Ao longo dos últimos anos temos notado que a maior procura tem sido, e continua a ser, por perfis técnicos, sobretudo, para licenciados nos vários ramos da engenharia. Isto porque, a maior parte do PIB angolano é proveniente dos recursos naturais, nomeadamente do petróleo e do gás. Logo os perfis que os nossos clientes nos pedem são, essencialmente, engenheiros mecânicos, petrolíferos, de recursos naturais, e directa ou indirectamente, os engenheiros civis. Além disso, também nos pedem engenheiros de telecomunicações e de informática. Vários perfis sempre técnicos.
O retalho e a banca são, além das petrolíferas, as indústrias que estão muito agressivas neste evento. Nesta feira estiveram alguns dos maiores bancos presentes em Angola como o BCA, BPA, Millennium e Standard Bank. Eles estão a seguir uma forte expansão da rede em Luanda e nas províncias e precisam de capital humano para preencher os seus novos balcões que estão prestes a abrir.
Existe um equilíbrio bastante interessante entre candidatos do género feminino e masculino. No que diz respeito ao perfil profissional, estes eventos estão direccionados para candidatos com zero a quatro anos de experiência. Recrutar um director de marketing ou de recursos humanos, por exemplo, já requer outro tipo de trato, outra atenção que não pode ser dada num destes eventos. Aliás, nós também o fazemos através do nosso serviço de executive search. Nesse caso, trabalhamos o candidato de uma forma completamente diferente. Prestamos um serviço de consultor de marketing: levamos o currículo do candidato ao mercado, falamos com as empresas, representamos os interesses do candidato, negociamos o pacote salarial. Funcionamos como um agente.
É algo muito variável. Depende sobretudo do tipo de indústria e dos anos de experiência do candidato. Um engenheiro de reservas, por exemplo, que entre para uma petrolífera, sem experiência profissional, muito facilmente começa a ganhar 3 mil dólares. Mas um engenheiro de telecomunicações que entre para uma empresa não petrolífera já pode ter outro salário. A mesma diferença se aplica ao nível da localização do local de trabalho. Um candidato pode ir trabalhar para Luanda e receber um ordenado maior face ao que auferiria se fosse para uma província. O salário até pode ser menor, mas aí, provavelmente, terá uma melhor qualidade de vida.
Em inglês dizemos que with engineering we can never go wrong, ou seja, com as engenharias uma pessoa nunca se pode enganar. Mas também há muitas oportunidades noutras áreas: gestão de empresas, por exemplo. Qualquer candidato que queira fazer um mestrado, ou um MBA, isso será sempre um esforço bem visto pelo mercado. As empresas gostam de candidatos que apesar de serem engenheiros ou terem feito recursos humanos ou informática, façam um MBA para terem uma visão da empresa mais global. As telecomunicações são outra área promissora. Há muitas empresas a investir neste sector. A Unitel, por exemplo, está a recrutar em peso pois a empresa precisa de se expandir pelo país. A banca está também a crescer muito. Todas as profissões que tenham que ver com finanças, contabilidade, auditoria e controlo terão sempre futuro na banca. Dentro destes sectores há amplas oportunidades de carreira.
Não necessariamente. A nossa ideia é ficarmos pelos quatro e, possivelmente, organizar um quinto evento em Luanda. Se assim fosse teríamos dois eventos por ano em Luanda: um em Junho e outro em Dezembro. Este ano, já temos confirmados os eventos de Luanda (em Junho), na Cidade do Cabo (em Outubro) e Londres (em Novembro). Possivelmente ainda faremos um quinto evento, outra vez em Luanda, em Dezembro.
O nosso evento em Angola é virado, particularmente, para os candidatos com formação feita em universidades angolanas ou para os que estejam a viver e a terminar os seus estudos, à procura do primeiro emprego ou apenas de um novo desafio. Já os eventos de Lisboa, Londres e Cidade do Cabo são dirigidos para os angolanos que vivem fora do país e querem voltar a Angola. O público-alvo é, por isso, diferente.
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.