Edição nº 26
 

Luxo

Uma corrida 
contra o tempo

Em pleno século xxi, ainda faz sentido existir um aparelho electrónico — qualquer que seja — que desempenhe uma única função? Que não tenha sequer acesso à internet? Esse é o problema que hoje tortura os fabricantes de relógios. Apesar das vendas globais continuarem a crescer, devido aos países emergentes, o futuro da indústria é incerto.


hd3 slyde: 
Um relógio high tech que procura imitar as funcionalidades dos tablets e smartphones

Nos Estados Unidos e na Europa, as vendas estão estagnadas, principalmente no segmento de alto luxo. A expectativa é de que o mesmo aconteça noutros países nos próximos anos. “As pessoas que começam a chegar agora aos 40 anos, idade em que muitos atingem uma situação financeira mais confortável que lhes permite comprar marcas de luxo, estão acostumadas a ver as horas nos smartphones ou até noutros aparelhos como o relógio digital da sua viatura”, diz Dennis Weher, analista da Evolution Securities, consultora americana especializada no mercado do luxo. Além dos telemóveis, também os tablets e os iPod estão a fazer concorrência aos relógios. “Surgiu até uma pulseira para prender o iPod Nano da Apple ao pulso, com a vantagem de ainda armazenar 8 gigabytes de música e vídeos”, acrescenta Dennis Weher.

relógio com ecrã lcd táctil

Na esperança de conquistar a chamada geração X (as pessoas nascidas entre 1965 e 1982), que a empresa francesa Hysek desenvolveu e apresentou, em Janeiro, na feira Genéve Time Exhibition, o HD3 Slyde.

O relógio, feito de titânio, à prova de água e com um sensor para ajustar automaticamente o brilho do visor de acordo com a luminosidade, já está a ser vendido ao preço de aproximadamente 5800 dólares. “O nosso objectivo não foi criar mais um gadget para os viciados em tecnologia, mas, sim, a de recuperar a mística do relógio para a nossa era”, afirma Jorg Hysek, dono e principal designer.

Para alcançar o objectivo, Hysek criou um relógio de pulso com um ecrã LCD sensível ao toque. Ao deslizar o dedo sobre o ecrã, no sentido horizontal, surgem no visor as opções mais tradicionais, como o cronómetro, calendário, fases da Lua, fuso horário. O movimento no sentido vertical abre o relógio para o acesso a fotos e vídeos assim como para os aplicativos, tal como sucede nos smartphones. Hysek garante que, até o final deste ano, será possível sincronizar o relógio com o computador, de modo a permitir o acesso às agendas telefónicas e e-mails. A ligação do relógio com o computador será feita por cabo USB, que hoje já é usado para carregar a bateria, que tem uma duração de 15 a 30 dias.

A edição é limitada (apenas 3 mil unidades por ano). Ainda assim, o modelo já tem a concorrência da americana Hewlett-Packard que tem estado a trabalhar num protótipo de relógio com a tecnologia bluetooth. O MetaWatch comunica sem fios com vários aparelhos, podendo oferecer alertas para a chegada de e-mail ou de mensagens no Facebook. Tudo que um smartphone faz, a nova geração de relógios digitais fará também. E vai resultar? “Não sei se alguém de 40 anos vai gastar neste relógio cerca de oito vezes o valor de um iPad”, diz John Simonian, dono da Wistman, maior distribuidora de relógios dos Estados Unidos. Para o bem da indústria de relógios, é bom que Simonian esteja errado. Afinal, o tempo está contra ela.


Por: Felipe Carneiro
 
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