Opaia
O grupo Opaia nasceu em 2002. Mas a EXAME só começou a ouvir falar dele há poucos meses. A “dica” surgiu durante o primeiro evento da Lide Angola. O fundador e presidente Agostinho Kapaia nem sequer foi um dos oradores. Mas vários empresários com quem falámos sugeriram o seu nome como potencial entrevistado. “Numa altura em que o Governo está a lançar um grande programa de fomento aos empresários, acho que deveriam falar com o Agostinho. Ele é um jovem de apenas 33 anos, mas está cheio de garra e ambição. É um símbolo da nova geração de empreendedores que vai dar que falar”, disse-nos uma dessas fontes. A EXAME seguiu o conselho e foi espreitar o site da Opaia. Nota-se algum cuidado na imagem (aliás a assinatura do grupo é “o futuro à sua imagem”), igualmente revelada no logótipo (ou logomarca, como se diz no Brasil) da holding e das suas unidades de negócio (oito no total). Nota-se que algumas delas ainda estão numa fase embrionária (aliás Agostinho Kapaia confessou estar à procura de parceiros nacionais e internacionais para crescer). Também não tivemos acesso à facturação actual do grupo. Mas não foi isso que nos motivou. A EXAME tem como missão divulgar não só os casos de empresas já com provas dadas, mas também aquelas cujo (bom) exemplo pode inspirar outros empreendedores. E o momento, tal como Agostinho Kapaia reconhece (veja caixa), não podia ser mais oportuno. Nos últimos meses, o programa do Ministério da Economia, Angola Investe, de promoção ao desenvolvimento do empresariado nacional, tem estado “nas bocas do mundo”. E o grupo Opaia já é, por mérito próprio, um “caso de estudo” do espírito empreendedor e ambição de crescer.
“É um projecto que disponibilizará às comunidades isoladas uma fonte de água pura e limpa. Irá garantir melhor segurança alimentar e diminuir a incidência de doenças transmissíveis através de águas contaminadas”, esclareceu. “O sistema também é indicado para operações militares ou humanitárias. A solução é totalmente automatizada e de simples operação, podendo ser manuseada por um técnico local, formado por nós”, acrescentou Hélder Alves, responsável pelo desenvolvimento do produto. Os governos provinciais parecem ser os clientes naturais do projecto Meña. O que está em fase de instalação mais avançada, segundo revelou Agostinho Kapaia, é o do Kwanza-Norte. “Mas já iniciámos o levantamento das necessidades na província do Namibe”, complementa. De referir, a este propósito, que a Opaia Águas também oferece soluções de tratamento de águas caso da dessalinização e das ETAR (estação de tratamento de águas residuais).

Green power: Joaquim Ventura, secretário de Estado de Energia, corta a fita
O objectivo é fazer chegar esta solução a todas as províncias do país (a EXAME apurou, junto de outras fontes, que a província de Luanda poderá ser uma das primeiras a utilizar a tecnologia para a iluminação pública). Agostinho Kapaia crê no potencial desta solução. “Angola é um dos países do mundo com mais horas de sol. E a energia solar é inesgotável, limpa e gratuita. Permite reduzir a necessidade de geradores e o uso de petróleo. Os nossos kits individuais enquadram-se no combate à pobreza, dado que são autoinstaláveis pelos cidadãos”, justifica. Carlos Igrejas, director-geral da Green Power, explica como funciona. “Trata-se de um sistema fotovoltaico que capta a energia contida na radiação solar que é depois convertida em electricidade utilizada em casas, empresas, escolas, hospitais ou na via pública,” referiu. O grupo assegura a montagem, formação e manutenção dos equipamentos cuja tecnologia é importada de países como a China, Alemanha e Estados Unidos, mas a assemblagem é feita em Angola.
O próximo projecto do grupo será a criação de uma rede de 20 hotéis. O primeiro será inaugurado em Agosto na cidade do Huambo (Agostinho Kapaia ostenta orgulhosamente a maqueta na mesa de reuniões do seu escritório). Tratar-se de um hotel de quatro estrelas denominado Ekuikui, (o nome de um antigo rei do Huambo), dirigido essencialmente ao turismo de negócios. A capacidade é de 80 quartos e representará um investimento de 12 milhões de dólares (o financiamento é do banco BAI). Depois do Huambo, o objectivo é inaugurar um novo hotel por província. “Se tudo correr bem temos planos para expandir este modelo de negócio para outros países como Brasil e Moçambique. Estamos a convidar a banca e alguns investidores nacionais e internacionais para se associarem a este projecto”, confessa. Outra iniciativa que aguarda a entrada de parceiros é a criação de um grande projecto turístico na foz do rio Kwanza. O grupo já adquiriu um terreno de 7 hectares na margem direita do rio, depois da ponte (isto para quem vem do sentido de Luanda em direcção a sul). “Já temos a documentação legal e terminámos agora o plano de negócio e o estudo de viabilidade”, esclarece. Ainda no sector do turismo, a Opaia detém a firma de transporte e renting de viaturas M. Katur, sediada em Luanda.

É também nesta cidade que se localiza o projecto de agronegócios do grupo, criado há três anos. Trata-se da Fazenda Chipipa, localizada num terreno de 600 hectares, no qual já foram investidos 2 milhões de dólares. “Contratámos um gestor brasileiro que nos tem auxiliado na preparação das terras e na compra de maquinaria”, esclarece. Para já, a produção é escassa (baseada nos cereais e frutas), mas ainda assim o projecto teve um impacto forte na comunidade. “Até o soba e os seus filhos trabalham na fazenda”, diz a sorrir. O empresário está a aguardar pela resposta a um pedido de financiamento ao BDA de 6 milhões de dólares para fazer o negócio crescer. “Temos de aumentar a produção, caso contrário não será um projecto rentável”, confessa.
Ainda no Huambo o grupo Opaia está a construir uma plataforma logística (denominada CLB) que será composta por 12 armazéns e um amplo espaço comercial para lojas de retalho. “Já adquirimos o terreno, mas estamos a aguardar pelas licenças. Será um retail e logistic park cuja construção deverá começar em 2013”, esclarece. Ainda sob a alçada da Opaia Logística estão os espaços para armazenagem nas zonas transfronteiriças das províncias do Moxico e do Zaire. “Cerca de um terço desses espaços é para utilização própria, o resto é para vender ou alugar”, diz.
Fazem igualmente parte do portefólio do grupo a Opaia Educação que tem uma participação de 30% na Escola Técnica Superior de Administração Pública (ETSAP), dirigida à formação de quadros intermédios e ao ensino técnico-profissional. A escola está sediada em Luanda e arrancará em 2013 através de uma parceria com universidades brasileiras. O grupo também participa em 30% na empresa de trading Danip (focada na importação de produtos para Angola) e na Ovikuata (mobiliário). Há ainda a Opaia Saúde que comercializa equipamentos hospitalares. A última área de negócio é a Opaia Finanças, dedicada à procura de financiamento (inclusivamente para o Estado angolano) e que gere as participações financeiras do grupo.
No futuro, Agostinho Kapaia gostaria de ter uma corretora. “Queremos ser uma das primeiras empresas angolanas cotadas em Bolsa”, diz. Outra área de expansão futura é a dos resíduos, desde a recolha até ao tratamento através de aterros sanitários ou até de incineradoras. “Estamos em negociações com três províncias para a construção de aterros para o lixo hospitalar”, revela.

Agostinho Kapaia confessa que visita frequentemente os escritórios internacionais, dado que aproveita para reencontrar a família que tem em São Paulo, Lisboa e Miami. Um dos seus dois irmãos, Aires Kapaia, também trabalha no grupo (formado em Engenharia, ele já tinha trabalhado com ele como técnico da Nova Base). Na vida pessoal, Agostinho Kapaia, apesar dos afazeres profissionais, consegue arranjar tempo para os treinos regulares no ginásio. Outro dos hobbies é a leitura de obras de gestão (é um admirador incondicional de Jack Welch, hoje reformado, mas outrora eleito como o melhor gestor do mundo e Warren Buffet, unanimemente considerado o melhor investidor do mundo). Com tais nomes sonantes como referência não admira que os negócios da Opaia cresçam e que a empresa (assim como o jovem presidente) aparente estar em boa forma.

Agostinho Kapaia sente-se à vontade na Angola profunda. Afinal ele nasceu no Huambo (na qual o grupo Opaia está fortemente implantado) e cresceu no Lubango, onde fez os estudos. Veio para Luanda em 1997. Em paralelo, solidificou os seus conhecimentos de informática fazendo os cursos especializados da Sistec. “Aos 18 anos já era professor de informática”, recorda. O curso de Economia, que concluiu de 2003 a 2009, foi feito à noite. “Fui um aluno outsider porque estudava e trabalhava ao mesmo tempo. As deslocações às províncias eram feitas ao fim-de-semana. A maior parte dos técnicos que recrutávamos para essas missões eram meus colegas de faculdade”, recorda. Depois de uma passagem por uma concessionária automóvel, onde foi director de tecnologias de informação, Agostinho Kapaia. esteve envolvido, há quatro anos, noutro grande projecto: a entrada da Nova Base, multinacional portuguesa das TI, em Angola.
Há dois anos, resolveu dedicar-se a 100% ao grupo Opaia, do qual é fundador e presidente. No ano passado, fez uma pós-graduação em Gestão, através da Angola Business School (ABS). O curso incluiu a passagem pela Universidade Nova de Lisboa (UNL), que está entre as 50 melhores do mundo na formação de executivos. Uma vez recorda-se de ter discordado com o professor Nadim Habib, CEO da formação de executivos da UNL, do qual se confessa admirador. “O professor recomendava que as empresas se concentrassem apenas nos negócios onde tinham vantagens competitivas claras. Essa focagem é essencial nos mercados maduros. Mas em países emergentes como Angola é preciso diversificar o risco e estar presente em vários negócios em simultâneo. Nós temos uma missão clara: queremos estar envolvidos em projectos ligados ao combate à pobreza, associando-nos assim ao esforço de reconstrução nacional promovido pelo Executivo angolano”, afirma.
Porém, Agostinho Opaia assume que não tem ligações à política, embora participe em diversos movimentos associativos tal como a Lide Angola. “Acredito que o Estado deve apoiar os empresários. Ainda recentemente o Presidente da República sublinhou que a economia deve estar nas mãos dos empresários nacionais. Por isso, elogio o programa de fomento agora lançado. Mas os empresários não devem viver à sombra desses apoios. Existem inúmeras oportunidades. O segredo é do pouco que se tem, fazer muito.” O fundador da Opaia confessa que faz parte de uma geração privilegiada. “Estive no momento certo, no local certo. Angola, que hoje comemora 20 anos de paz, vive um momento histórico. Creio que pertenço a uma geração que pode fazer aquilo que outros não puderam”, resume.
Data de fundação: 2002
Presidente: Agostinho Kapaia (existem cinco administradores)
Áreas de actuação: Energia e petróleo, turismo e hotelaria, saúde, imobiliário, agronegócios, educação, trading, finanças e logística.
Países: Angola, Brasil, Portugal, Estados Unidos e China.
Facturação: Não revelada
Investimento realizado este ano: 20 milhões de dólares
Empregados: 250
www.opaia.co.ao
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.