Edição nº 27
 

Exame Final

Corte de salários chegam à gestão

Numa decisão inédita contra um grande banco americano, os accionistas do Citigroup rejeitaram, em Abril, o pacote de remuneração anual de 55 milhões de dólares que havia sido solicitado para os seus cinco principais executivos. A medida veio na sequência de decisões semelhantes em bancos europeus, como o Barclays e o Credit Suisse e parece dar razão às manifestações populares contra a desigualdade de rendimentos que começaram em Wall Street e depois se espalharam à Europa. Ken Feinberg, professor de Direito, da Universidade de Columbia, e ex-chefe da equipa que cortou os bónus dos gestores das empresas americanas socorridas pelo governo de Obama, conversou com a EXAME sobre o tema.


Qual a importância do voto dos accionistas do Citigroup contra os salários milionários dos executivos?

A decisão dos accionistas reflecte, de alguma forma, o sentimento de revolta cada vez mais generalizado na população americana contra os salários desfasados dos resultados, que estiveram na origem da crise financeira. Desde então, a crescente disparidade de rendimentos passou a ser vista de modo mais crítico pela sociedade, em especial contra os salários dos banqueiros. Os accionistas do Citigroup fizeram com que os ecos das revoltas populares chegassem ao conselho de administração. Creio que é algo novo e positivo.


Acredita que a rejeição aos pacotes de remuneração pode tornar-se mais frequente noutras empresas?

Estamos no início. Os accionistas só podem votar contra, ou a favor, os pacotes de remuneração das empresas desde o ano passado. Quando isso acontece numa empresa grande como o Citigroup, a história ganha um outro peso. Já vimos reflexos disso na Europa. Mas o impacto dessa onda dependerá da resposta que as empresas vão dar.

A lei americana permite que as empresas ignorem 
a advertência dos accionistas. Não seria melhor 
dar aos accionistas o direito de vetar as propostas?

Em 2009, quando liderei a equipa de controlo da remuneração das empresas que haviam sido alvo do resgate do governo federal, nós tínhamos direito a veto. Não sei se é preciso dar esse poder aos accionistas. À medida que mais casos relevantes acontecerem, ficará mais claro se a simples reprovação pública já produz o efeito desejado.


Porque é que as empresas vão seguir a recomendação dos accionistas, se ainda não há obrigação legal?

A simples recusa de um pacote de remuneração é algo suficiente para prejudicar a imagem dessas empresas. Para mais, quando isso sucede numa altura em que este assunto é especialmente polémico.


Como é que as empresas podem evitar este incidente?

Uma medida possível é dialogar com os accionistas sobre a proposta antes da sua votação pública. Seria uma atitude mais sensata.


Crê que já se vislumbra uma tendência de mudança 
nos pacotes de remuneração desde o início da crise?

Sim. Muitas empresas já fazem depender as remunerações dos gestores dos seus desempenhos a longo prazo. É uma boa medida.


A sua decisão de cortar metade do salário dos gestores da gm durante a crise foi replicada noutras empresas?

Muitas delas — como aliás o próprio Citigroup — mantiveram essa política depois disso. Em 2010, o presidente do Citigroup recebeu o salário simbólico anual de 1 dólar, por decisão própria. Resta saber até quando essa preocupação vai durar. Sobretudo se continuará depois da crise na Europa e nos Estados Unidos acabar.


Por: KEN FEINBERG, Professor da Universidade de Columbia
 
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