
A vida do britânico Paul Wesson e do angolano Mário Pinto sofreu uma mudança radical em 2004. Paul estava radicado em Angola desde os anos 80 como gestor da Land Rover. Em paralelo, era também um experiente condutor de veículos todo-o-terreno que, entre outras provas de competição, chegou a fazer o Atlas Marrocos.
Mário Pinto: Milhares de turistas angolanos e expatriados conheceram as belezas naturais de Angola a “bordo” dos jipes da EcoTur
O preço é o principal motivo porque não conseguir atraír mais clientes internacionais. De resto temos tudo
Mário era filho de um funcionário aduaneiro o que obrigava a mudanças frequentes. Estudou no Lubango até 1969, seguiu-se Luanda até 1973 e Porto Amboim até à independência. “Emigrou” para Portugal em 1975, onde trabalhou numa firma inglesa de máquinas industriais. Mas as viagens de aventura estavam-lhe no sangue. Foi de moto até Marrocos, viajou pela Europa à boleia durante dois anos — trabalhando nas vindimas e em estâncias de esqui para sobreviver. O destino quis que, no meio de uma viagem pelo Médio Oriente, fosse trabalhar para um kibutz (comunidade agrícola) em Israel, em pleno deserto do Neguev. Em 1983, decidiu regressar à terra natal. Por cá trabalhou no negócio das máquinas industriais na Robber Hudson. Depois na Lusolanda que representava em Angola a John Deer. Daí rumou para as plataformas de petróleo da Global Marine, no Soyo. “Recordo-me que trabalhava 11 horas por dia — 28 dias no mar e 28 dias em terra”, diz. Era nesses períodos de folga que dava vazão à sua paixão pela aventura em todo-o-terreno onde ficou a conhecer a Angola profunda. De 1985 a 1986 esteve ainda em Cabinda, na base da Schlumberger, no Malongo.
Paul Wesson Co-fundador da EcoTur.
Foi um dos primeiros gestores do
ramo automóvel pós-independência. Participou
em várias competições de
todo-o-terrenoQuando conheceu Paul Wesson a empatia foi imediata. Numa das viagens da dupla, em plena praia da Caotinha (em Benguela) famosa pelas suas águas cristalinas, os dois tiveram a clarividência de criar uma empresa dedicada ao turismo de aventura. A Ecotur nasceu assim em 2004. Mário conhecia o território como ninguém. Paul era o especialista em automóveis todo-o-terreno. “Pareceu-nos que fazia sentido, em época de paz, que o turismo interno se fosse desenvolver”, justifica.
Os factos deram-lhe razão. Hoje, a EcoTur tem uma frota de sete automóveis: quatro veículos todo-o-terreno da Toyota e três mini Daf. A empresa actua em quatro áreas de negócio. O mais mediático são os percursos de lazer que funcionam sobretudo aos fins-de-semana. Nos programas da EcoTur, há sugestões para todas as bolsas. Desde uma simples excursão de um dia ao Parque Nacional da Quissama, Massangano ou Muxima aos pacotes de dois dias às quedas da Kalandula ou às cachoeiras do Sumbe ou até às viagens mais ousadas de dez dias pela província do Kwanza-Sul. “Há programas para todos os gostos. Desde os mais familiares com estadas em hotéis, até aos mais aventureiros com dormidas em tendas. Nós tratamos de tudo. Desde as dormidas, às comidas. Os nossos veículos todo-o-terreno estão equipados com depósitos-extras de combustível e de água.” O tipo de clientes é cada vez mais diversificado. “No início eram sobretudo os expatriados que nos procuravam. Hoje, há cada vez mais turistas angolanos que começam a trazer as suas famílias. Nós nem sequer fazemos publicidade. Temos apenas um site na internet e uma página no Facebook. Os clientes é que vão passando a informação aos amigos”, diz com orgulho.
Apoio às empresas é o mais rentável
Helena Baptista A companheira de aventuras de Mário Pinto “vestia a camisola” nas iniciativas da EcoTurMas o negócio das viagens de lazer não é sustentável financeiramente. “Tudo é caro em Angola. Desde a manutenção das viaturas às estadas nos hotéis, por exemplo. A maior parte das vezes não chegamos a cobrir os custos da deslocação. O preço é o principal motivo porque não conseguimos atrair turistas internacionais que têm ofertas muito mais competitivas em países vizinhos como a Namíbia ou a África do Sul”, argumenta Paul Wesson.
Daí que a EcoTur tenha decidido diversificar a sua oferta para outras actividades. A mais atractiva é o segmento empresarial. “Muitos clientes estrangeiros precisam de vir a Angola em negócios e sentem dificuldades em reservar hotéis e planear a estada, até porque não dominam a língua. Nós tratamos de toda a logística. Marcamos o hotel, vamos buscá-los ao aeroporto numa mini-bus, chegamos inclusivamente a agendar-lhes reuniões”, diz.
EcoTur teve papel activo na elaboração do guia internacional de viagens Bradt,
o único sobre Angola
Outro segmento em alta é o apoio a grandes produções. “Estivemos envolvidos nas filmagens de documentários para a BBC e para programas de televisão para a Endemol, por exemplo. Também participámos na produção do vídeo promocional de Angola para a Expo de Xangai e agora para a da Coreia”, recorda. Outra actividade de que Paul se orgulha especialmente foi a preparação do guia Bradt sobre Angola, o primeiro (e o único) guia de viagens internacional jamais publicado sobre o país. “O autor, Mike Stead, é meu amigo. Ele trabalhava na Embaixada do Reino Unido. Nós planeámos os itinerários, partilhámos os nossos contactos sobre os melhores locais a visitar e acompanhámos o Mike nas suas viagens. Chegámos a colaborar na revisão dos textos”, recorda.
Mário Pinto, por seu turno, sentiu especial orgulho na escalada ao Morro do Moco, o ponto mais alto de Angola — com uma altitude de 2620 metros, situado no município de Ekunha, a cerca de 42 quilómetros a sudoeste da cidade do Huambo. A iniciativa estava inserida na expedição mundial de sensibilização contra o vírus do VIH/SIDA (World Aids Awareness Expedition 2011) que decorreu em 200 países (incluindo Angola) e teve o apoio do Instituto Nacional da Luta Contra a Sida (INLS).
Promoção internacional do país
Paixão por África: A EcoTur também organiza viagens pelo continente (foto acima no interior da Tanzânia)
Um quarto segmento é o apoio logístico a projectos de grandes empresas. Paul Wesson dá alguns exemplos. “Estivemos envolvidos recentemente numa missão de peritos no Soyo para o projecto LNG onde tivemos de criar uma base logística para a estada durante dez dias. Outro exemplo foi a realização de um grande estudo de impacto ambiental no Kwanza-Sul ou o levantamento geográfico de uma concessão de diamantes. A nossa ajuda vai desde o conhecimento dos terrenos, aos sistemas de navegação por GPS ou a condução por terrenos de difícil de acesso e a montagem de tendas de campanha.”
Hoje, a Ecotur factura acima de 500 mil dólares e tem quatro funcionários que trabalham a full-time a somar a uma série de colaboradores que são chamados para as operações mais complicadas. Um dos lamentos de Paul é a escassez de apoios. “O Governo devia ajudar os pequenos operadores nacionais que promovem a imagem do país lá fora. A fiscalidade devia incentivar, em vez de penalizar, o sector. No ano passado, estivemos na maior feira de turismo de África, o Indaba em Durban, onde tivemos um stand e distribuímos material promocional sobre a EcoTur e os principais pontos turísticos de Angola. Este ano, também estivemos em feiras em Madrid, Lisboa, Belize e na Filda”, recorda. “Mas o que verdadeiramente nos move é o amor pela natureza e por Angola. A EcoTur é uma oportunidade para fazermos o estilo de vida que gostamos”, conclui Paul Wesson.
(*) Advertência: a EXAME já tencionava publicar uma matéria sobre a
EcoTur antes da notícia do súbito falecimento de Mário Pinto,
um dos
fundadores. O pretexto era
a presença da empresa na maior feira de
turismo de África (Indaba,
na África do Sul). Era suposto fazer parte
de uma reportagem alargada sobre outros operadores turísticos nacionais.
A tragédia tornou estas declarações de Mário Pinto, recolhidas muito
antes do acidente, tristemente oportunas. Por isso, decidimos publicar
já este artigo, isolado dos restantes e complementado com declarações
posteriores do co-fundador
Paul Wesson. Decidimos, porém,
colocá-las
no mesmo tempo verbal.


Lodge Omahua (Namibe)
Welwitshia mirabilis
Por: Jaime Fidalgo