Edição nº 27
 

Apple

Rumo a 1 bilião 
de dólares?

A Bolsa de valores de Nova Iorque acordou apreensiva no dia 24 de Abril. Nessa terça-feira, a Apple iria anunciar os resultados do segundo trimestre. No dia anterior, a AT&T e a Verizon, as duas maiores operadoras de telecomunicações dos Estados Unidos, divulgaram vendas do iPhone abaixo do esperado.

TIM Cook, da Apple: O iPad Mini 
e a iTV farão com 
que venha ao palco 
mais vezes este ano

Foi aí que uma dúvida — e o mercado não costuma gostar de dúvidas — assaltou os investidores: será que a Apple apresentaria números capazes de sustentar a subida de cotação das suas acções, de quase 60%, ao longo deste ano? A preocupação era geral e não era apenas dos que tinham acções da maior empresa do mundo, em valor de mercado, avaliada em 520 mil milhões de dólares. Afinal, o impacto de uma má notícia sobre a empresa que tem o maior peso nos principais índices bolsistas americanos seria enorme.

Depois de um dia inteiro de especulações — que chegou a fazer com que o preço das acções caísse 2% —, a Apple superou, mais uma vez, as expectativas. A empresa facturou entre Janeiro e Março deste ano, 39,2 mil milhões de dólares, um crescimento de 62% em relação a igual período do ano passado. Mas o melhor estava para vir. O lucro líquido foi de 11,6 mil milhões de dólares, 94% acima do período homólogo do ano anterior. A notícia foi o suficiente para acalmar Wall Street e fazer subir as acções da Apple mais 7% até ao final do dia. Os resultados do primeiro trimestre foram tão bons que muitos investidores se referiram a eles como “perfeitos”. Exagero? Nos últimos seis meses, a Apple facturou 85,5 mil milhões de dólares — 20 mil milhões mais do que o total das receitas durante todo o ano de 2010.

Para muitos analistas, a dúvida hoje já não é “se”, mas “quando”, a Apple vai ultrapassar a barreira do bilião de dólares em valor de mercado, uma proeza inédita na história do capitalismo mundial. O que sustenta o entusiasmo do mercado é a lista das novidades previstas para 2012, todas concebidas quando Steve Jobs ainda estava no comando da empresa. O novo iPad, a terceira versão do tablet da Apple surgida em Março, foi o que mais vendeu no primeiro mês após o lançamento. A sexta geração do iPhone, que deve chegar ao mercado entre Junho e Setembro, também deverá ser o mais vendido entre os iPhone. Hoje, o smartphone criado por Jobs, é a maior fonte de receitas da Apple e a mais lucrativa (estima-se que a margem de lucro do iPhone seja de 75%). Segundo a Asymco, empresa de estudos de mercado da Finlândia (onde está sediada a rival Nokia), o iPhone tem uma quota de apenas 9% das vendas globais de telemóveis, só que representa 75% dos lucros gerado pelo sector.

Além das novas versões dos produtos já conhecidos, a empresa parece ter outras novidades por lançar. Fala-se no iPad mini, uma versão mais pequena do tablet, com um ecrã de 7 polegadas e um preço entre 200 e 300 dólares. E, sobretudo, na televisão da Apple, ou “iTV”, apelido com a qual foi baptizada pela imprensa especializada. O futuro aparelho, ao que se diz, será capaz de armazenar todos os conteúdos de entretenimento do iTunes num grande painel de LED, comandado por gestos. “A televisão está pronta, mas em modo de espera”, afirma Horace Dediu, analista da Asymco. “É como um avião na pista à espera da hora de descolar”, diz.

Ásia é a prioridade de Cook

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Além do lançamento de novos produtos, a Apple prepara-se para expandir os seus negócios na Ásia. Em Março, Tim Cook, primeiro presidente da “Apple depois de Jobs”, esteve na China numa visita à sede da Foxconn, que fabrica produtos como o iPhone e o iPad. A comitiva da Apple tinha uma razão nobre — aprovar o programa de melhorias nas condições de trabalho dos empregados — e outra de negócios. Cook reuniu-se com os executivos da China Telecom e da China Mobile, as duas maiores operadoras de telemóveis do país, para celebrar acordos de distribuição para o iPhone. Segundo a empresa de estudos Gartner Group, a Apple tem apenas 7,5% de quota na China, enquanto a da rival Samsung ascende 25%. Ou seja, há muito espaço para crescer num dos mercados mais promissores do mundo.

As decisões recentes de Cook levaram os analistas a uma conclusão: o executivo não apenas tirou o máximo do legado de Jobs nos meses que sucederam à morte do fundador da empresa como também superou as expectativas sobre a sucessão. Em Março, pela primeira vez em 17 anos, a Apple usou parte do dinheiro em caixa — 98 mil milhões de dólares — para pagar dividendos aos seus accionistas.

Apesar da boa impressão causada por Cook e dos novos produtos prontos a serem lançados, há quem acredite que a Apple não chegará à proeza de 1 bilião de dólares em valor de mercado e que o actual clima de euforia à volta das suas acções é um mau presságio (teme-se uma nova bolha especulativa). Em entrevista recente à EXAME, Robert Shiller, professor de Economia da Universidade de Yale, disse que “o mercado financeiro tem um entusiasmo selvagem e um apego emocional quando o assunto são as acções da Apple. Podem não levar os sinais de bolha a sério, porque ela não vai estourar tão depressa, mas creio que o mais sensato seria não investir mais dinheiro na Apple”, disse Shiller. São declarações como esta que nos fazem recordar os dias negros das acções tecnológicas (a famosa bolha dotcom).

E quando a herança de Jobs acabar?

Em 2000, a Cisco Systems, fabricante de redes e servidores, atingiu um valor de mercado recorde de 450 mil milhões de dólares. Nessa altura, também se dizia que ela seria a primeira empresa a atingir o bilião. O mercado estava altamente dinâmico, pelo que a meta parecia alcançável. A AOL pagou 221 mil milhões de dólares pelo grupo Time Warner, criando uma empresa de 466 mil milhões.  E havia mais investidores dispostos a gastar o que fosse preciso para conseguir entrar no promissor mercado de internet. Os especialistas acreditavam que as redes, capazes de ligar aos servidores das empresas até à casa dos consumidores, seriam o mercado do futuro. Como é sabido, a bolha tecnológica estourou, várias empresas faliram e a maioria — tal como a Cisco — diminuiu de tamanho.

Steve Jobs, o genial fundador da Apple, tornou-se célebre por inventar produtos que nem o público sabia que queria comprar. Mas o verdadeiro teste de Cook surgirá quando o stock de invenções de Jobs, um segredo guardado pela empresa, chegar ao fim. É essa a maior preocupação dos investidores e dos milhões de fãs da empresa. Até isso acontecer, é bem provável que a Apple chegue à meta do bilião de dólares em valor de mercado.  

Tudo Num

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O iPhone é o produto mais vendido e mais lucrativo da Apple. Representa apenas 9% das vendas mundiais, mas gera 75% dos lucros do sector. Junta várias funcionalidades num único aparelho (canabalizando o próprio iPod)


Por: Bruno Ferrari
 
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